Quinta

Quinta-feira II

Marta Moura buzinou para o porteiro. Ele levantou a cabeça dolentemente, mas empertigou-se quando a reconheceu. Apertou o botão e o portão deslizou suave pelo trilho. De vidros fechados, escutou vagamente um bom dia, mas não fez nem menção em responder. Pelo retrovisor viu-o acompanha-la com o olhar. Estacionou em sua vaga e dirigiu-se para o escritório. A recepcionista cumprimentou-a. Retribuiu secamente.

A secretária ainda não tinha chegado. "Essa menina não se interessa mesmo", pensou. Precisava contratar alguém que acompanhasse seus horários. Em sua sala, vasculhou recados em sua mesa, mas não havia nenhum. Ligou o computador, buscando sítios de notícias. Deu uma repassada em alguns deles.

Ainda não tinha as informações completas sobre as vendas do dia anterior. Ligou furiosa para o supervisor que, embasbacado, prometeu-lhe entregar em cinco minutos. Ríspida, disse-lhe que deveria manter os dados atualizados rotineiramente. Estava perdendo tempo precioso. Ele tentou argumentar sobre a grande quantidade de pedidos recebidos e que não tinham sido inseridos no sistema por causa do volume. Ela, mantendo a frialdade, respondeu que era um problema que ele deveria resolver, senão encontraria uma pessoa que o fizesse.

Percebeu a secretária chegando pela alacridade da conversa com uma amiga. Foi até a porta, perguntando a respeito de recados. A amiga retirou-se, enquanto a secretária balbuciou algo sobre um telefonema de Ricardo, da Navalis. Ela tinha esquecido de deixa-lo em sua mesa. "Se eu perder essa venda, não sei o que faço", disse apontando o dedo para ela. "Não se pode deixar uma oportunidade de venda para o dia seguinte".

Ligou para Ricardo, sensualizando a voz. Riu de suas gracinhas provocativas, esquivou-se de suas cantadas mas mantendo nele um fundo de esperança em conseguir algo com ela. Colocou um preço alto nos produtos, cedendo até um limite rabiscado antes em um rascunho sobre a mesa. Após fechar a venda, falou alguns minutos sobre amenidades. Quando desligou, voltou à sua fachada de profissional. "Os homens são tão tolos. Basta uma esperança de sexo e abrem todas as suas defesas".

Vasculhou o sistema a respeito das informações. Ainda não estavam lá. Ligou novamente para o supervisor. Ele ainda não tinha terminado. Com voz de mãe furiosa, deu-lhe um ultimato. Ele acatou-o em desalento.

Meia hora depois, o supervisor ligou para ela dizendo que já tinha atualizado os dados. Ela pediu-lhe que viesse até sua sala. Sentiu-lhe a trêmula afirmativa.

Ele chegou rapidamente. Ela apontou-lhe os gráficos na tela, falando sobre a ineficiência de sua atuação. As vendas tinham sidos boas, é claro, mas ainda estavam longe do objetivo. Ele precisava tomar as providências necessárias, senão, ela é quem as tomaria. Mostrou-lhe o pedido conseguido, mostrando que, sozinha, vendia quase tanto quanto um setor inteiro.

Numa última instância, ele tentou justificar-se falando sobre a atuação dos vendedores, mas ela cortou-o dizendo que o setor era somente de responsabilidade dele. Se os vendedores não tinham um padrão de venda compatível, ele que os substituísse. Ela queria resultados. Como iriam conseguir esses resultados era problema dele. Ele saiu desolado de sua sala. "Os homens são tão tolos".

Ficou a namorar os gráficos. Estava tendo um dos melhores momentos de venda da história da empresa. Já tinha ultrapassado os alvos que fixara para a diretoria e o mês ainda não tinha terminado. Para o departamento de vendas dera um objetivo maior que sabia que não conseguiriam atingir mas era uma maneira que tinha para alcançar aqueles propostos por ela aos seus superiores. Eles dariam o máximo de si para chegarem perto dele mas com certeza não o atingiriam. As pessoas nunca alcançam plenamente aquilo a que se propõem ou o que lhes é imposto. Ficarem próximos da linha de chegada lhes parecem o suficiente.

Com certeza faria mais algumas vendas, mas lançaria somente no mês seguinte, para que o nível não ficasse exageradamente além do previsto, pois alguém poderia argumentar que ela traçara mal os planos de venda. Nunca abaixo, mas também não muito acima, era uma maneira de manter a confiabilidade em seu conhecimento do mercado. Mais tarde ligaria para o Rodrigo, da Niltel, e fecharia um pedido para o próximo mês, para garantir uma nova proposição de objetivos para a diretoria.

Ainda teria que inventar uma história para justificar sua falta de amanhã. Era uma idiotice perder um dia de trabalho por causa de uma sandice do julius_k, mas era uma oportunidade para conhece-los pessoalmente e, quem sabe, divertir-se um pouco.