\n'; document.write(barra); } } changePage();
Cap. 10 - Tédio II
Minha vida nestes dias, quando eu ainda era eu, estava resumida em poucos passos: dormia pouco, ia ao zi-bar, tentava descolar uma prainha, jogava na rede ou nos flippers, brincava com minha cadeira como se fosse um skate ou uma prancha, procurava um zi que precisasse de ajuda e fazia minhas pesquisas na rede sobre os mais estranhos temas. Um tédio total.
Meus monitores permaneciam parados como se fossem quadros pintados. Nada de novidades, zero de invasões, menos ainda de emoções ou transes.
Estava cada dia mais dentro daquele labirinto que chamamos de eu, aonde os contatos se restringem ao mínimo, aonde não suportamos nossos pensamentos, aonde as imagens passam a ficar distorcidas quando ficamos muito tempo sozinho. Os outros zis estavam ocupados com seus trabalhos ou consigo mesmos. Esse era o grande problema de nossa tribo: por mais que estivéssemos juntos, sempre estávamos distantes uns dos outros. Somente nos aproximávamos quando se tratava de nossas especialidades. Sempre falávamos de nossos serviços e nunca de nós próprios. Vivíamos juntos e não mantínhamos contato. Quando saíamos com um parceiro ou parceira era apenas por uma necessidade física ou pelo momento. Não existiam relacionamentos afetivos. Era uma solidão tribal.
Em um destes dias de tédio, cruzei com alessandrab, a secretária de julius_k, em um dos corredores. Ela e seu sorriso inextinguível me fizeram voltar a pensar nele, no grande julius_k. Naquele dia eu ainda não a tinha visto como a veria mais tarde.
Acho que todo zi tinha o sonho de ser como ele, de produzir a simplicidade e a robustez de um sistema operacional como o Nirvana ou de qualquer programa que fosse uma marca registrada de um tempo. Graças a ele, os computadores tinham voltado a funcionar, a economia estava voltando a fluir e o mundo parecia ter voltado a girar nos seus eixos. Mais que suas palavras e frases que sabíamos de cor, mais que seus ensinamentos, nós o amávamos pela sua capacidade de fazer algo que nunca ninguém tinha feito e que dificilmente alguém faria.
Mudei meus pensamentos para o Nirvana. Achei que para afastar meu tédio, poderia iniciar uma bateria de testes contra ele. Sabia de sua impenetrabilidade, mas não tinha muito o que fazer e achei que seria uma boa maneira de consumir meu tempo até que algum outro zi fosse colocado em meu lugar e eu pudesse avançar um degrau em minha carreira. Trabalhar no Módulo G era chato, muito chato mesmo.
Fui pedir permissão para bornfree, pois não queria um bando de seguranças avançando sobre mim. Eles não eram muito delicados com quem se atrevesse a atacar o Nirvana. Tartamudeei algumas palavras, achando que estava parecendo um louco ou alguém fora de controle. Ela quase não me deu atenção. Digitou um pedido de permissão e em poucos segundos a obteve. Pela sua expressão neutra devia ser comum esse tipo de solicitação por parte dos zis. É óbvio que eu seria monitorado enquanto a permissão valesse, mas as minhas tentativas não teriam as conseqüências de uma real. Era como poder fazer testes nucleares sob controle governamental.
Uma das lendasnet que percorria a rede e algumas conversas, era a de que os mesmos tinham sido criados pelas próprias empresas que produziam os sistemas operacionais, pelas que vendiam anti-virus e firewalls, por quem queria desacreditar seus concorrentes e por hackers e crackers que apreciavam a fama junto à tribo ou, simplesmente, pela satisfação pessoal de se mostrarem melhores que os criadores dos sistemas.
Geralmente se culpava os hackers e crackers. Algumas invasões ou tentativas junto aos sistemas de defesa do Pentágono, da Cia e da Nasa produziram um efeito devastador entre as pessoas. Muitas leis foram criadas para punir esse novo tipo de crime. Os que corriam pela net eram os mais comentados, pois provocavam danos em extensões geográficas maiores e atingiam milhares de usuários. Os que produziam danos em bancos e instituições financeiras eram abafados ao máximo para evitar uma pane econômica. Alguns hackers ou crackers ficaram ricos transferindo dinheiro de várias contas para outras contas, em valores adequados ao saque direto em caixas eletrônicos. Desde que a ganância não produzisse efeitos, eles dificilmente seriam identificados. Ninguém presta atenção em valores pequenos.
Mais tarde, com a revolta dos povos bárbaros contra seus opressores econômicos, os vírus passaram a fazer parte da extensa lista de armas utilizadas por terroristas. Eram diferentes do estardalhaço de carros-bomba, eram abafados pela mídia e governos e, no entanto, produziam efeitos mais devastadores. O @3 foi o maior deles. Foi derrubando todos os sistemas, apagou discos rígidos, eliminou informações de todas as centrais e fechou todas os monitores. Em pouco tempo, tudo parou de funcionar e o que estava em queda aumentou a velocidade, espatifando-se no chão. Se não fosse o Nirvana e a Ninsu poderíamos estar à procura de cavernas para nos abrigarmos.
O resultado de tudo isso foi que a Ninsu tornou-se a única empresa a produzir e vender sistemas operacionais. Junto a isso foi produzindo os programas necessários para todas as instituições e necessidades. O crescimento foi geométrico e nenhuma empresa tornou-se tão bem sucedida em curto espaço de tempo em toda a historia.
Liberado, voltei para minha sala. Vasculhei a net a procura dos mais antigos como sobig, bugbear, lemur, lovsan, nachi, mimail, klez, raleka, hopalong, Chernobyl, Brasil, avril e outros mais. Baixei todos que podia e fui tentando introduzi-los no Nirvana. Era como jogar uma pedra em um tanque de guerra. O único efeito que produziam era o som de um tinido. Também tentei os mais recentes como o march3, lusak, stromboli, muriel, zancas, fortress e o temível @3. Nenhum resultado.
Meu dia ainda não estava começando a terminar e eu já estava entediado. Fui até a biblioteca de multimídia à procura dos mais esquecidos e dos que não estavam na enciclopédia da rede. Deram-me algumas caixas cheias de discos compactos do tamanho de anéis grandes.
Tentei outros, inclusive os mais infantis como o branca de neve, littlegirl, papai noel e todos os que estavam nos CDs. Desta vez o tinido foi muito menor. Eles eram dos tempos antigos em que existiam portas disponíveis em sistemas falhos.
Devo ter ficado com o rosto vermelho quando revelei-me minha própria ignorância. Estes programas foram utilizados contra sistemas operacionais antigos. Não serviam para um sistema operacional novo. A humildade tinha-me faltado e a estupidez tinha sobrado.
Resolvi aprender com eles. Fui abrindo as fontes dos mais primitivos e estudando todos os detalhes. Embora a ação deles, em grande parte, fosse por mim conhecida, aceitei verificar todos as linhas de comando e as maneiras que como se dissimulavam e se introduziam em sistemas e equipamentos.
Voltei a perder a noção de tempo, o que era muito bom para um zi. Passei algumas semanas analisando cada linha e cada comando. Foi bom. Aprendi muito nestes dias.