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Cap. 11 - O poder
- Ei, grande zi. O poder chegou! disse-me sucrilhos, após bater na divisória para chamar minha atenção.
Disse e saiu. Mesmo sem entender, o acompanhei. Nos corredores, os zis e os masters foram se juntando até chegarem às janelas de onde se podia divisar o pátio de estacionamento. Alguns, mais afoitos, tinham descido até a entrada. Sem poder ver muita coisa alem dos veículos, fui até lá.
Três carros estavam parados em frente à porta de entrada. Do primeiro e do último saíram alguns seguranças de rostos impassíveis e olhos fixos em alguma direção. Um deles abriu a porta traseira do carro do meio e ajudou uma mulher a sair de dentro dele. Eu sabia quem ela era. Já tinha visto a biografia de Drena, de adrenalina, e conhecia suas façanhas. Ela era a assessora política do grande julius_k. Diziam que ela controlava todos os políticos do planeta. Usava óculos, tinha cabelos curtos e grisalhos. Devia ser bem velha, mas podia-se notar muita força em seu corpo ainda ágil. Tinha uma expressão dura e rugas de severidade no rosto.
Ela aguardou a saída de marta_moura, também ajudada por um segurança, olhando para nós como se medisse forças. Também já tinha visto a biografia de marta_moura. Era ela quem controlava as vendas de todos os produtos da Ninsu. Seus cabelos longos e tingidos, aliados àquela tensão na pele de quem faz plásticas, dizia a todos o quanto não queria mostrar-se velha. Sabia que tinha mais idade que Drena, mas aparentava muito menos.
Não foi preciso que nenhum segurança abrisse caminho entre nós. Perfilamo-nos como uma guarda de honra e as saudamos no estilo do grande julius_k, em uma reverência espontânea.
Elas faziam parte de nosso panteão. Abaixo do grande julius_k, a nossa idolatria se dirigia à elas e ao grande kiko_nunes, que vivia enfurnado na seção de Monitoramento. Apesar de já completar alguns meses na matriz da Ninsu, ainda não tinha visto ele. Nas poucas conversas que tive com mellojorge, que agora trabalhava com kiko_Nunes, o seu nome era raramente mencionado. Ele vivia quase como um recluso, e, geralmente, passava dias dentro da própria Ninsu. Até mellojorge estava mais distante de nós. Não o vi mais no zi-bar e as nossas comunicações estavam tornando-se mais esporádicas. Sabia que ainda estava com sua prainha de fora e que estava pensando em comprar uma casa dentro da cidade. O que corria entre os zis era que ele estava querendo montar uma família.
Existiam poucas dessas reuniões na Ninsu. Normalmente as conferências eram on-line. Não existia a necessidade de deslocamentos para nos comunicarmos. Deveria ser algo importante para eles se reunirem.
O esquema organizacional da Ninsu era bem simples. Existia o Conselho formado por julius_k, kiko_nunes, Drena e marta_moura. Abaixo vinham os gerentes de departamentos ou filiais e, depois deles, algumas chefias de setores. A comunicação era simples e direta. As decisões eram tomadas quase que de imediato ou no menor prazo possível. Cada funcionário era estimulado a gerenciar seu próprio trabalho e organizar cronogramas e rotinas, se necessário. Os controles eram feitos dentro do sistema e os avisos de andamento de cada trabalho surgiam no momento em que os sensores nos detectavam na entrada de nossas salas. Os objetivos e prazos eram estabelecidos de comum acordo, considerando-se todas as variáveis e necessidades. Muito simples e fácil trabalhar quando sabemos o que desejam da gente.
Mesmo nas linhas de produção de equipamentos existia o auto-gerenciamento. O ciclo era controlado por cada um e existiam poucas falhas. Ninguém gostava de que constassem dados negativos como descumprimento de normas, rotinas ou cronogramas na biografia operacional. Todo mundo tem o direito de errar, mas na Ninsu o erro reduzia-se ao mínimo. Exceto o zi morpheus_c, que diziam que fora demitido, eu desconhecia a existência de outros casos.
Alem do esquema da Ninsu e seus controles, também havia o medo se estar nas ruas, sem emprego. A economia avançava, mas nunca o suficiente para garantir a sobrevivência fora das áreas de controle dela. As poucas empresas que se dispunham a estar no mesmo ramo pagavam pouco e geralmente tinham vida curta. Não era assumir riscos trabalhar em uma delas, era estar certo de uma falência pessoal.
A Ninsu vendia sistemas, produzia computadores e equipamentos eletrônicos, controlava as redes de televisão, rádio e o que se chamara um dia de grande imprensa ou o que restara dela. Dizia-se que o próximo passo dela seria na área de transportes. Os seus detratores a chamavam de polvo e viam nela quase um poder paralelo. Falava-se que ela queria açambarcar todos os mercados e controlar todos os governos. Para quem estava fora era difícil aceitar seu sucesso. Para quem estava dentro era confortável demais para se querer sair ou criticar. Para mim, se não fosse julius_k e a Ninsu, certamente estaria roído de fome ou morto em algum beco ou alguma rua. Enquanto eu era eu, sempre a vi como uma entidade protetora. Não saberia viver fora dela, naquela época