Quinta

Quinta-feira III

Kiko não tivera como fugir da obrigação de acompanhar o pai à empresa. Relutou e negaceou até escutar ameaças veladas sobre sua total dependência financeira. A contragosto, foi até lá.

O pai excedeu-se em energia, mostrando todos os contratos, os projetos, o futuro da empresa e a necessidade dele inteirar-se sobre isso. Também falou-lhe sobre sua vontade de retirar-se da frente dos negócios devido à idade. Alguém precisaria substitui-lo. Não sentiu-se motivado por nenhum argumento. Sabia que o pai jamais se aposentaria. Provavelmente ele morreria dentro da empresa. Era a vida dele. O resto, incluindo ele e sua mãe, morta em um desses acidentes sem causa aparente que acontecem todo dia, eram apenas detalhes. Tudo o que ele tinha eram apenas elementos que giravam ao seu redor mas muito distantes do centro. Talvez por isso fosse filho único. O pai já tinha conseguido alguém para sucede-lo e isso lhe bastava.

Da mãe as lembranças esvaiam-se, restando poucas além das que as fotos lhes traziam. Tinha em sua mente apenas a imagem de uma pessoa morna, sem excessos de temperamentos, sem grandes vínculos com o mundo, alguém que passara sem deixar marcas. Nascera, crescera, se reproduzira e depois morrera. Puramente biológica. Uma mansidão total em um planeta raivoso. Mesmo quando descobria uma nova amante do marido, jamais irrompia em fúria. Condescendia e aceitava desculpas, além de promessas que nunca seriam cumpridas. Não sentira ou sentia muito a sua falta, nem mesmo após o acidente.

Assim que pôde livrou-se do pai e foi para sua sala eternamente fechada. Esta tinha sido uma idéia do pai para tentar traze-lo à rotina da empresa. Tempos atrás, ele tinha mandado faze-la, na esperança de que kiko_nunes se entusiasmasse e viesse todos os dias na empresa. Durou menos de uma semana. Kiko foi na segunda e terça, saiu mais cedo na quarta, chegou tarde na quinta e não veio na sexta-feira. Como ele aparecia esporadicamente, sempre forçado pelo pai, a sala foi mantida. Na saída, a secretária lançou-lhe um sorriso glamuroso que ele respondeu da mesma maneira.

Trancou a porta e sentou-se na cadeira, ficando a rodopiar nela por alguns instantes. O terno o incomodava. Tirou o paletó, colocou em um cabide e guardou-o em um armário. Fez pose de executivo mas logo cansou-se. Jogou seu corpo contra a cadeira e os pés por sobre a mesa. Resolveu ligar para Paulinho.

Desligou o telefone. Mais tarde ligaria para Frederico desmarcando a balada de sexta à noite. Perdido naquela sala, sem saber o que fazer, foi acordado pela secretária, convocando-o para uma chata reunião.