Quinta

Quinta-feira IV

Rodrigo escutava os amigos conversarem animadamente. Por vezes, tentava incluir-se, mas era interrompido ou, então, suas frases tornavam-se soltas nos diálogos. Mesmo Tânia, ao seu lado, com quem tinha um maior relacionamento, parecia tê-lo abandonado. Tentou iniciar um assunto paralelo com ela, mas teve respostas evasivas.

Trocavam de tema constantemente. Quando alguém falava coisas que puxassem outras, imediatamente a conversa tomava outro rumo. O único ponto em comum era o riso, a surpresa, a novidade, por vezes a auto-exaltação. Ele não conseguia uma brecha para integrar-se. Era apenas um ouvinte. Se saísse, ninguém notaria sua ausência.

O que o consolava um pouco era saber que quando chegasse a época de provas, todos correriam para ele. Nessa época ele seria um ponto em que convergiriam suas atenções. Todos tentariam sentar perto dele, procurando as respostas sobre as questões apresentadas. Normalmente, terminava sempre muito antes do horário mas ficava mais algum tempo passando bilhetes ou torcendo o corpo para que olhassem seu gabarito. Dava-lhes apenas o suficiente para não ficarem em dependência.

Era a mesma coisa com relação a trabalhos solicitados pelos professores. Uma semana antes do prazo, vinham pedir-lhe uma cópia. Costumava fazer dois: um para si e outro para o resto da turma. Este, sempre, tinha um menor nível. Era uma mensagem dele para os demais: eu sou melhor que vocês, ao mesmo tempo que deixava implícita a idéia de que gostaria de enturmar-se com eles.

Tânia também o usava para outros fins. Era uma espécie de confidente: alguém para desabafar sobre seus pais, seus namoros rompidos e suas desesperanças. Mas, quando tentava falar sobre si, ela o interrompia ou o ignorava. Tinha ciúmes quando a via de namoricos. Nessa fase, quase não se falavam. Ela se ocupava demais com os namorados e ele os menosprezava. Quando terminavam, ela procurava seu ombro para chorar.

Certa vez, tentou beija-la (estava precisando tanto de um carinho), em um momento de intimidade. Ela repeliu-o suavemente, com um pouco de surpresa. Talvez o imaginasse assexuado. Depois de um tempo distanciados, ela procurou-o novamente, após um rompimento, para falar de suas angústias. Nunca mais deu-lhe pensamentos de que era outra coisa além de uma máquina de estudar, fazer trabalhos escolares e escutar seus lamentos.

Muitas vezes se perguntou o que lhe faltava para que a solidão caminhasse tanto ao seu lado. Não era feio de rosto ou de corpo, tinha uma cultura além da média, sabia discorrer sobre qualquer assunto, se dava bem nos esportes, tinha presença, era uma pessoa atualizada. Mas, com tudo isso, tivera poucas namoradas, raros amigos e uma dificuldade muito grande em ser aceito por qualquer grupo. Por quê as pessoas se incomodavam tanto com sua presença, somente aceitando-o pelo que ele podia fazer e não pelo que ele era? Por quê os demais evitavam introduzi-lo em seu círculo de amizades? Por quê tinha que viver tão só? Seria o único? Haveriam outros em que a solidão pesasse tanto? Mesmo os solitários o aceitariam como companhia?

Cabeça erguida, olhos indiferentes, levemente entristecido, cadernos na mão, Rodrigo entrou na sala de aula.