Quinta

Quinta-feira V

Angélica olhava suas imagens embaçadas nas vitrines. Se via um espelho mantinha-se perto, mirando seu reflexo. Ajeitava os cabelos, verificava se estava impecável e prosseguia. Quando via roupas expostas que lhe interessasse, comentava com as amigas, esperando aprovação. Muitas vezes, entravam em uma loja e experimentavam quase todas. Raro era uma delas comprar alguma coisa.

Conhecia todas as lojas de todos os shoppings da cidade. Quando sentia-se entediada, telefonava para as amigas e iam para algum deles. Comiam algum lanche, às vezes, assistiam um filme do momento, ou então, levavam algum troféu para casa, na forma de uma roupa ou acessório de griffe.

Sua mesada era consumida em poucos dias. Durante o resto do mês, pressionava a mãe para obter mais dinheiro. Ela liberava ou não, de acordo com o humor, porisso evitava desagrada-la.

Estava na faculdade apenas porque queria algum diploma. Escolhera o curso menos concorrido e o que menos exigiria dela. Seu objetivo era casar com alguém que lhe desse conforto, uma vida social, talvez um filho. Era bonita, tinha charme, um padrão econômico bom, corpo definido. Não seria difícil. Não queria traumas, brigas, nem romances espetaculares. Queria apenas alguém que cuidasse dela.

As amigas entraram em uma loja. A vendedora mostrou um sorriso automático. Tinham quase a mesma idade mas podia-se notar nela marcas que denotavam uma vida mais atribulada. Ela derrubou as prateleiras, elogiando as peças mais caras e colocando de lado aquelas que percebia que não provocavam interesse. Se notava uma certa demora em apreciar alguma delas, imediatamente a colocava sobre o corpo tentando mostrar o quão bem ficaria em uma delas. Com algumas roupas na mão, Angélica entrou no provador. Quando ela saiu com um conjunto completo, a vendedora fê-la ver o impacto que causaria. Ela desfilou um pouco dentro da loja, tentando provocar elogios ou reprovações de suas amigas. Como a maioria delas assentiu, ela comprou-o, pensando no que falaria à mãe para que ela cobrisse o rombo que aquela compra faria em seu saldo bancário. As amigas, não querendo ficarem atrás, também saíram com pacotes nas mãos. Inebriadas pelo consumo, saíram da loja, alvoroçadas e rindo. A vendedora mostrou um sorriso de satisfação.

Quando chegou em casa foi direto para o quarto. Abriu as portas dos armários, que continham espelhos internos, tirou a roupa, olhou para as nádegas, coxas e barriga, à procura de celulites, vasinhos e gordurinhas localizadas. Vestiu a roupa, virando-se repetidas vezes para se admirar. Um pensamento de como explicar para a mãe a respeito daquele gasto extra foi afastado, quando pensou na inveja que provocaria em suas amigas quando desfilasse com aquela roupa.