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Quinta-feira VI
Maria Cecília cumprimentou o Dr. Afonso, que entrou rapidamente. A sala já estava cheia de pacientes. Por quê os médicos se atrasam tanto? Para que marcar horários se eles nunca os cumprem? Por quê aumentam a dor de seus pacientes com essa espera? Quem cuida da vida pode se julgar dono dela, pensou.
Ele chamou o primeiro paciente e os demais animaram-se um pouco.
A rotina era sempre a mesma: ela marcava e desmarcava horários, atendia telefones, cobrava as consultas, muito raramente se fazia de enfermeira quando era chamada, acalmava os pacientes impacientes, mantinha as velhas revistas esfareladas em uma quase ordem, limpava o consultório e "otras cositas mas".
Quando o consultório se esvaziava, o doutor ficava mais solto e entabulavam conversa, sempre evitando que resvalasse para a intimidade. Sentia nos olhos dele vontades de sexo, mas ele era casado, rico e ela seria apenas mais uma aventura. Quando a relação se desgastasse ele a demitiria, para evitar problemas para si. Mantinha a justa distância para permanecer no emprego, sem outro envolvimento.
Não precisava de problemas pois já os tinha em bom número. A maior parte vinha da condição financeira de sua família e de si própria. Era difícil morar em bairros afastados, carentes de conforto e cheios de criminalidades. Sua condição de filha mais velha a obrigava a dar quase todo seu salário para o pai, retendo para si o suficiente para o ônibus, os lanches e alguma roupa que a mantivesse apresentável. O irmão logo abaixo dela em idade tinha emprego de meio período com meio-salário, que alternava com a escola. Outra irmã era nova demais para trabalhar mas fazia as tarefas de casa, substituindo a mãe que trabalhava como faxineira no próprio condomínio. O menor passava o tempo brincando com os amigos, ainda isento de lutar pela sua sobrevivência.
Podia ver um quase pedido de desculpa nos olhos do pai quando entregava-lhe o cheque. Ele sempre parecia querer dizer algo mas retraía-se, afundando-se no sofá, perdendo o olhar dentro da televisão, com sua eterna barba por fazer.
Raramente saía. Vez ou outra deixava-se levar por alguma amiga. Mas as noites sempre terminavam confusas, com bebedeiras, brigas e sexo. Freqüentemente voltava sozinha para casa. Enveredava-se pelos pontos mais escuros, curtindo o medo que as ruas mal-iluminadas produziam. Era melhor sentir medo da escuridão do que mostrar-se um alvo fácil na claridade. Nem sempre a escuridão é nossa inimiga. Ela, às vezes, nos protege. Isso, aprendera sozinha.
Geralmente, os finais de semana serviam apenas para um descanso lânguido em seu quarto, esperando que a rotina dos dias de trabalho chegasse.
Namorou um rapaz por uns tempos mas não viu nenhum futuro nele. Seriam apenas mais um casal morando em um bairro de periferia, carente de conforto, cheio de criminalidade. Ele passaria os fins de semana bebendo nos bares cheios de prostitutas, enquanto ela ficaria lavando roupas e cuidando de filhos. Ele chegaria bêbado, brigariam, talvez batesse nela, se encheriam de dívidas, trabalhariam por parcos salários até a aposentadoria. Terminariam a vida vendo o ciclo se repetir em seus filhos.
Ainda sonhava vagamente com o clássico príncipe encantado que a salvasse da bruxa-vida e a libertasse da torre-solidão. Paralelo a esse medieval sonho, corria junto o moderno desejo de ser a mulher vencedora, formada, dona de si. Quando se permitia divagar, via-se formada em medicina, roupas brancas, quiçá uma placa de metal reluzente pregada na parede de uma casa transformada em consultório, com jardins brilhantes fora e dentro.
Já havia tentado passar em vestibulares, assinalando todas as opções, incluindo suas vontades e necessidades. Tinha sido decepcionante descobrir que o que recebera de educação formal era apenas o necessário para que executasse serviços subalternos. As escolas que freqüentara serviam apenas para ensinar o básico e afastar adolescentes das ruas. Tinham sido inúteis todas as noites perdidas de sono, debruçadas sobre livros e exercícios, buscando notas que a classificassem como uma pessoa apta a progredir profissionalmente. Fora uma boa aluna, excelente para os padrões das escolas públicas, mas nunca conseguiria competir com os demais que podiam ter um melhor estudo. Chegou até a acreditar que poderia suprir essa deficiência com esforço e auto-estudo. Passou um ano inteiro emprestando livros de bibliotecas, buscando provas de anos anteriores, tentando mostrar a si mesma que poderia ingressar nesse mundo reservado a poucos.
Desesperava-se quando não conseguia resolver problemas, sabendo que não tinha a quem recorrer. Chegou a consultar alguns de seus antigos professores, conseguindo apenas descobrir que eles também faziam parte dessa cadeia que alimenta a baixa educação. Alguns deles chegaram a confessar que tinham aquele emprego apenas porque não conseguiram estabelecer-se em outro ramo. Como um mau profissional pode ser um bom professor?
As particulares foram excluídas de imediato por causa do alto custo que não poderia suportar. Restaram as governamentais que estavam inacessíveis para o que lhe ensinaram nas escolas públicas. Era um jogo estranho esse: para poder entrar em uma universidade pública você tem que estudar em escolas particulares; se você não pode pagar, você tem que freqüentar uma escola pública e somente consegue estudar em universidades particulares aonde você precisa pagar. Um jogo estranho, que mantém as pessoas separadas por castas econômicas do começo ao fim da vida.
Em muitas prisões do mundo, os detidos são submetidos a uma dieta calórica baixa, para que tenham forças suficientes para trabalhos forçados mas não o bastante para permitir que tenham energia para a fuga. Sentia-se como um desses infelizes sobre o que lhe tinham dado como educação. Era apenas o suficiente para chegar até aonde estava, nada mais.
Evitava o desespero convencendo-se de que poderia, em algum tempo do futuro, reverter a situação de sua vida, tentando loterias, sortes e alguns bicos.
Sentiu um certo alívio quando o último paciente entrou na sala. Daqui a pouco o doutor iria derramar um pouco de seu charme junto à ela, iria embora e ela ficaria atendendo telefones e vasculhando a net, à procura de esperanças e sonhos.