Sexta

Sexta-feira

Júlio demorou para ser atendido na casa de kiko_nunes. Um segurança lento telefonou para uma empregada sonolenta, que devia estar maldizendo-o . Passaram-se mais de quinze minutos até ser convidado a entrar por uma voz de fundo, repetida pela empregada ao segurança, pelo interfone. O portão se abriu, também sonolento.

Foi com o carro até a frente da casa, ou melhor, de uma mansão no meio de uma praia de jardins. Seu carro ficou pequeno diante da entrada.

A empregada sonolenta, vestida com um robe com cor indefinida e desenhos apagados por sucessivas lavagens, abriu-lhe a porta e levou-o até uma sala. Fez um vago gesto para que se acomodasse e retirou-se murmurando frases indefinidas.

Era uma típica sala de visita, de uma típica mansão, parafraseou-se, rindo da piada íntima. Sofás confortáveis dispostos em uma rebaixo do chão, com uma parede de vidro que mostrava um jardim quase do tamanho de seu apartamento, faziam-no sentir-se diminuído. Estilo leve, alguns quadros e estatuetas de formas indefinidas, mais sofás adiante, moldavam o quadro da sala.

Kiko Nunes apareceu com os cabelos despenteados, arrumando a camisa por dentro da calça, tênis desamarrados sendo arrastados pelos pés, uma mochila na outra mão, que despencou em um dos sofás. Um sorriso largo despontou no rosto macerado pelo sono recém desperto e uma mão estendida muito antecipadamente para um cumprimento. Ele ainda estava naquela falta de sentidos que caracteriza aqueles que acordam, com o cérebro ainda embrulhado em si mesmo, tentando reorganizar o consciente.

Sentiu uma lacuna aparecendo no início do diálogo. Nessa hora, o silêncio não é bom. Pensou na mais óbvia das frases.

Kiko Nunes não tinha conseguido safar-se de Silvana. Silmara, muito esperta, convencera Frederico que, ao invés de adiar o encontro, poderiam antecipa-lo. Foram até uma casa noturna, aonde foram quase que imediatamente deixados a sós por Silmara e Frederico, que embalaram-se na música. Silvana encostou-se nele, roçando pernas, mostrando sorrisos e seios mal escondidos em um curto vestido. Cansado de resistir e premido pelo horário, arrastou-a até um motel, aonde conseguiu fazer um sexo insípido até para ele. Deixou um recado na portaria para que o acordassem pelo telefone, deitou-se de bruços, logo após, deixando-a de lado, quase falando sozinha. Quando foi acordado, ela estava na hidromassagem, fazendo-se de sensual, querendo outra vez. Ele ignorou seu apelo visual, pressionando-a para que fossem embora. Contrafeita, mas ainda tentando manter o clima, ela assentiu, vestindo-se calmamente em poses estudadas, copiadas de tantas revistas masculinas.

A esperança de obter ganhos provoca subserviências, pensou kiko_nunes. Fora estúpido, grosseiro, usara-a como um objeto, e ainda assim, ela não demonstrava nenhuma reação contra ele. Deixou-a em casa, não sem antes ser forçado a um beijo prolongado e profundo, que deveria ser caloroso se eles fossem realmente amantes. Chegando em casa, voltou a dormir, tentando ganhar um pouco mais de vitalidade para o dia que se aproximava.

Júlio não se aborreceu, sabendo que, na idade dele, era normal uma vida sem muitas preocupações com horários. Ainda não havia aquela necessidade de se guiar por relógios. Apenas se fazia o que tinha que fazer e o resto se levava.

Foi conduzido até a cozinha aonde a empregada sonolenta respirava os vapores de um café recém feito. Kiko Nunes ajudou-a a dispor algumas frutas, pães diversos, torradas e recheios por sobre a mesa. O interfone tocou e ele foi atender. Marta Moura tinha chegado. Ele foi atender a porta, enquanto julius_k ficou sentado junto à mesa.

Marta Moura surgiu ocupando um grande espaço no ambiente. Era bonita, quase madura, longos cabelos em forma de moldura, balouçantes. Vestia uma roupa despreocupada mas podia-se sentir que não estava à vontade dentro delas. Tinha uma certa dureza no rosto e olhos avaliadores. Júlio sentiu-se escaneado por fora e por dentro. Beijaram-se no rosto e ele pode sentir um leve perfume igual aquele com o qual saímos do banho, tão leve, suave e refrescante.

Marta Moura recusou o café da manhã, apressando os dois para partirem. Tinha uma suave voz mas que se traduzia prontamente em comando. Os dois engoliram o que puderam, com mordidas, mastigações e goles rápidos, espalhando farelos e derrubando líquidos pela mesa.

Instalaram-se na van, com julius_k atrás. Kiko Nunes entrou na rua, após passar o portão, tão rapidamente que fez com que julius_k se espremesse contra o banco. Seguiram adiante, varando faróis, queimando pneus e torcendo o veículo nas esquinas.

Kiko Nunes falava demais. Torcia o pescoço toda vez que queria obter uma resposta ou aprovação do que dizia. Júlio assustava-se com essa mania. O trânsito já estava pesado e ele já se via envolvido em ferragens ou debaixo de um caminhão. A via expressa já demonstrava sinais de lentidão, com os motoristas fazendo manobras arriscadas para ganharem segundos, por impaciência ou apenas pelo hábito. O Tietê fumegava vapores que logo se tornariam nauseabundos. Algumas máquinas arrastavam a lama para fora, tentando manter as águas dentro de seu caminho. As chuvas de verão chegariam em breve, com suas torrencialidades e ele saltaria de sua lentidão cheia de detritos para uma vastidão de ramificações violentas que cobrariam tributos daqueles que tinham ousado invadir suas várzeas. Ele tinha vontades próprias e não se deixava domar por artifícios humanos.

Quando entraram na Bandeirantes, kiko_nunes já tinha deixado de dirigir-se a ele que quase não respondia, mantendo uma conversa serena com marta_moura, que, sentada transversalmente, por vezes, o observava. Colado junto à janela, entretinha-se vendo os montes rasgados para dar caminho ou moradia para seres humanos.

Fora ele que provocara aquela viagem mas quase desistira. Talvez tudo não tivesse passado de um sonho dentro um sonho dentro de um sonho. Talvez as noites trabalhadas em cimas de jogos de RPG o tivessem transformado em um mutante que moldava uma realidade própria, distante daquelas em que as pessoas viviam. Ainda não tinha certeza de que acontecera aquilo. Fora tão irreal, tão febril. Aquele sujeito o tinha largado ofegante, deitado de costas, tentando respirar, e lhe dissera que já tinha feito o que lhe fora pedido e que, agora, era por conta dele. Desapareceu como tinha surgido, sem explicações, sem mais delongas. Quando conseguiu firmar-se de pé, procurou a trilha, tentando chegar até seu carro. As árvores pareciam torcerem-se e distorcerem-se. Perdeu a noção de distância e a clareza da visão. Quando olhava para seus pés e mãos, sentia-os como se não fossem partes integrantes de seu corpo. As pernas levavam-no automaticamente para a frente. Várias vezes pensou em descansar mas era sempre empurrado para a frente, sem controle. Quando saiu da mata, o sol bateu firme em seu rosto quase lhe provocando cegueira de luz. Com os olhos semicerrados entrou no carro. O calor abafado do interior entrava pelas narinas queimando pulmões. Abriu todos os vidros e portas. Quedou-se por tempo indefinido, talvez dormindo, talvez sonhando acordado, até voltar à normalidade.

Perto de Jundiaí, entraram pela Anhanguera. A estreiteza das pistas e o tráfego de transeuntes pelo acostamento, não provocou em kiko_nunes nenhuma mudança no dirigir. Continuava na mesma velocidade e displicência, conversando com marta_moura, que já desistira de observa-lo.

Perto da saída 83, Kiko Nunes reduziu a velocidade. Um rapaz de mochila estava parado no acostamento atento aos carros. Ele parou a van a poucos metros dele.

Entrando na van, kiko_nunes estendeu-lhe a mão. Acomodado no banco, ele os cumprimentou.

- Também prefiro que me chamem por Rodrigo. Sewnow é só na net.

Rodrigo sentou-se no lado oposto de julius_k. Kiko Nunes ganhou velocidade e passou para a pista. Virando o rosto para trás tentou encetar conversa com sexnow mas ele, da mesma forma que julius_k, respondia com monossílabos não dando continuidade à conversa. Marta Moura tentou ajuda-lo mas não foi correspondida. Por fim, os dois continuaram a conversa, sem importar-se com os dois.

Rodaram mais alguns quilômetros e entraram no Posto Castelão. Angélica e marired ainda não tinham chegado. Kiko Nunes aproveitou para completar o tanque de combustível. Júlio sugeriu que ele calibrasse os pneus. Kiko Nunes olhou-o de modo interrogativo como se não soubesse que fosse necessário. Foram até o compressor e julius_k fez os serviço. Depois, sentaram-se em um banco. Kiko Nunes e marta_moura faziam o possível para integrar os dois em uma conversa, mas julius_k estava perdido dentro de sua mente e sexnow, quando muito, respondia com um sorriso mais parecido com uma careta.

Angélica varou por entre o meio das bombas de combustível sem prestar atenção no frentista que a olhou como se fosse uma louca. Deixou o carro estacionado nos fundos. Foi até o segurança pedir-lhe que olhasse o carro enquanto estivesse fora. Deu-lhe algum dinheiro, prometendo mais quando voltasse. Junto a entrada, viu quatro pessoas sentadas em um banco e imaginou que fossem eles. Dirigiu-se até lá, enquanto verificava se não faltava nada dentro da bolsa, jogando os cabelos para trás quando esses impediam a visão.

Rodrigo cumprimentou-a totalmente sem graça. Ela demonstrou em seu rosto certo desprezo por ele, que encolheu-se, segurando a mochila como se fosse uma proteção.

Rodrigo, intimidado, recusou, dizendo que já tinha feito o desjejum. Angélica entrou dentro da lanchonete, sempre vasculhando a bolsa à procura de algo. Algum tempo depois, juntou-se a eles.

Kiko Nunes não parava de falar. Em quase todas suas frases havia algo que divertia ou interessava. As duas mulheres concentraram-se nele. Júlio perdia seu olhar em qualquer ponto e sexnow acompanhava a conversa com os olhos, tentando achar uma brecha, recolhendo-se sempre que angelsvc o olhava. Ela devia acha-lo um lixo. Também pudera! Em todo o tempo que mantiveram contato, ele a sacaneava com suas frases chulas, fedendo sexo virtual. Ele não era assim, mas quando entrava na net parecia querer somente isso, navegando em todos os sites e salas que vomitassem sexo. Lembrava em muito esses motorista que são as melhores pessoas do mundo mas que, quando, entram em um carro, transformavam-se em monstros. Mister Jekyl e Dr. Hyde povoam nossa alma.

Um ônibus parou no ponto em frente. Júlio viu descer uma mulher que adivinhou que fosse marired. Por um instante, formou-se um triângulo, em cujo vértice ela fixou-se. Tudo que estava fora dele escureceu. Ele a via aproximar-se e o vértice a acompanhava. Ela era linda! Seus cabelos curtos, avermelhados e andróginos realçavam sua feminilidade. Podia ver o corpo firme e guerreiro por baixo das roupas. Ela era uma Red Sonja, uma Muriat, sua lutadora preferida. Ela parecia portar uma espada simbiótica. Sua mochila repousada nas costas parecia um escudo de duryon. Vestiu-a com uma armadura ninsuana, curta, que expunha coxas e seios ao extremo. O triângulo fechou-se quando ela chegou perto. O pescoço esguio mantinha sua cabeça levemente arqueada, com o queixo para cima, quase insolente. Os olhos verdes reforçavam o moreno caboclo de sua pele. Ficou na porta entre duas dimensões, aonde não se pode divisar nada além do que está extremamente perto. Aparvalhou-se ao cumprimenta-la. Mal ouvia as palavras constantes de kiko_nunes nem as risadas que provocava. Perdeu-se no veneno que as flores de Gorsha lançavam. Ficou anestesiado, confuso, paralisado, como aqueles que ousavam invadir os domínios de Arqueronte.

Marta Moura viu-a como inimiga natural. Sentiu o cheiro de estrógeno e testosterona no ar. Kiko Nunes deixou de lhe dar atenção por vários minutos. Ela podia ser bonita mas não tinha sua força, nem sua tarimba. Mais tarde, seu tato e sua capacidade de ficar ouvindo balelas masculinas sem demonstrar desinteresse, fariam com que ele voltasse a dar-lhe preferência. Ela era mais velha que kiko_nunes mas os homens são tolos, uns bebês chorões, e estão sempre procurando mulheres que substituam suas mães. A beleza pode causar um impacto inicial mas não perdura por muito tempo. Quem vence no final é a esperteza, a sabedoria, a capacidade de adaptação e isso ela tinha de sobra. A beleza pode instigar o sexo mas não consegue manter um relacionamento definitivo. Trata-se de uma armadilha da natureza para gerar a procriação mas não garante a manutenção de vínculos duradouros e as crias precisam de um par que lhes forneçam alimento e proteção.

Angélica olhou-a procurando sinais de rugas ou celulites. Desdenhou as roupas que marired usava. Talvez estivessem na moda alguns anos atrás, mas, atualmente, eram ridículas. Pode ver os indícios de puídos que as lavagens constantes provocam. Ela preferia ficar em casa a sair vestida desse jeito. Nada combinava com nada. Nada chamava atenção. Estava simplesmente ridícula. Nem batom ela usava. Alguém já viu uma mulher sem batom? Uma boca precisa ser destacada no rosto. Uma boca pode provocar paixões. O cabelo, então, estava tão curto e batido que a fariam passar por um rapaz. Os cabelos precisam ser longos para emoldurar o rosto. Ela achava que eles eram o primeiro sinal que os homens viam em uma mulher. Os homens adoram cabelos compridos.

Rodrigo não prestou muita atenção em marired. Seus olhos escrutinavam angelsvc Ele a tinha imaginado daquele jeito, daquela forma. Sentiu-se perdido por tudo que tinha teclado com ela. Tinha-lhe passado a imagem de um tarado insensível. Jamais teria alguma chance com ela. Podia também perceber o desnível econômico entre dois. Ele ainda era totalmente dependente dos pais. O extra que conseguia ganhar provinha de trabalhos que fazia para os colegas de faculdade. Tinha conseguido comprar seu micro fazendo esses bicos somando com um pouco que o pai lhe dera. Angélica devia ser uma namorada cara, dessas que precisam de baladas todo final de semana e que escolhem os bares da moda. Tentava usar da lógica para afastar seus pensamentos dela mas os sentimentos insistiam em faze-lo voltar a pensar nela, a encara-la.

Kiko Nunes sentiu-se constrangido quando marired cumprimentou. Ela tinha um certo ar de reprovação em seus olhos, como um confrontamento entre duas espécies distintas: um boa-vida e alguém que rala para ganhar a vida. Ela era bonita mas mal cuidada. Podia antecipar sua beleza esvaindo-se rápido em decorrência de uma vida com baixa manutenção, sem cuidados que o dinheiro pode comprar. Era bom ter dinheiro para poder fazer o que quisesse, comprar o que gostasse e cuidar-se para diminuir o desgaste que o tempo provoca em nosso corpo.

Maria Cecília perdeu o andar firme ao ver aquele que julgava ser julius_k. Ele estava fixado em sua figura. Gostava de ser observada pelos homens mas não dessa maneira imbecil. Ele acompanhava todo e qualquer gesto seu. Parecia obcecado pela sua presença. Rodrigo lhe pareceu mais gentil, quase arredio. Ainda mantinha características de recentemente saído da adolescência. Ainda não se fizera adulto. Em marta_moura viu a matriarca dos rebanhos de fêmeas que detém o poder de acasalarem-se. Não gostaria de enfrenta-la, algum dia. Angélica lhe pareceu a patricinha de filmes pueris, fútil e preocupada demais com a aparência. Kiko Nunes foi absurdamente servil com ela. Meu Deus! Aonde fora se meter?! Devia ter ficado em casa, como sempre. Aceitara o convite tão estupidamente. Eles eram tão diferentes dela, não faziam parte de seu mundo. Quase não tinha trazido dinheiro, a não ser para pequenas despesas. Estava contanto com a ajuda de kiko_nunes. Se ele não cumprisse o prometido, estaria numa enrascada. Mesmo que ele pagasse suas despesas, ainda ficaria lhe devendo favores. Pensou seriamente em voltar para casa, mas viu-se caminhando em direção a van, ladeada por kiko_nunes e julius_k, sem possibilidades de voltar. A fêmea dominante instalou-se na frente com kiko_nunes, julius_k e sexnow assentaram-se no do meio, um em cada janela, e ela ficou atrás, junto com angelsvc, que iniciou um monólogo a respeito de lojas em shoppings centers, das quais nunca ouvira falar. Iria ser uma longa viagem, pensou, lembrando-se da comodidade de seu pequeno quarto.

Logo, deixaram a Anhanguera e entraram na SP-304, perto de Americana. Atravessaram Piracicaba e entraram pela rodovia que leva até Águas de São Pedro. Kiko Nunes perguntou se gostariam de parar um pouco para descansar. Ninguém respondeu além de marta_moura que pediu-lhe para que prosseguisse a viagem. Seguiram até Santa Maria. A estrada tornou-se coleante. As curvas fechadas obrigaram Kiko a reduzir a velocidade ao extremo. Um caminhão apareceu, gemendo, na sua frente. Kiko tentou ultrapassa-lo várias vezes para angústia de julius_k, que via-se jogado montanha abaixo ou esmagado pelas rodas. Quando o motorista deu-lhe sinal de que o caminho estava livre, ele forçou a van e conseguiu passar à frente. Agradeceu com um leve toque na buzina. Após chegarem ao topo da serra, o caminho tornou-se mais seguro. Quilômetros adiante, pegou uma estrada secundária. Algumas vacas e cavalos fugitivos pastavam pelo acostamento, indiferentes à sua passagem. Por vezes, ele tinha que freiar pois algum animal atravessava a pista. Júlio freiava junto com ele, no banco de trás. Por fim, chegaram até uma estrada cascalhada. Uma fileira de flamboyants exibindo flores vermelhas e algumas vagens precoces ladeavam-na. Os mais velhos mostravam suas raízes intensas, descomunais, próprias para agüentarem as tempestades. Os mais novos tinham as formas suaves para, ainda, tentarem ganhar o céu.

Os flamboyants foram substituídos por ipês amarelos em uma praça circular. As flores caídas davam ao verde da grama ao redor uma aparência de tapete colorido. No ponto central do perímetro dessa circunferência, situava-se a pousada.

Foram recebidos por Paulinho que não largava um sorriso. Junto com um boy, ajudou-os com as malas, e colocou-os em seus quartos. Kiko Nunes e julius_k acompanharam-no, aceitando o convite para ver o resto da pousada. Paulinho falava dela com orgulho, justificando a pouca quantidade de hóspedes por causa do início da temporada, mostrando pequenos detalhes que tinha instalado para maior conforto ou beleza, exaltando as qualidades do local e respirando fundo quando falava do ar puro que circulava na região. Quando terminou, foram até seu escritório.

Paulinho mudou o tom de voz. Seu sorriso desapareceu. Falou com um misto de suavidade forçada e severidade repentina.

Kiko Nunes não se abalou.

Kiko Nunes não iria se deixar convencer.

Kiko Nunes pediu para que julius_k se retirasse. Precisava conversar a sós com Paulinho.

Paulinho retirou de uma gaveta uma série de panfletos e colocou-os sobre a mesa. Espalhou-os de forma que pudessem serem apreciados com apenas uma olhar.

Kiko Nunes rabiscou um número em uma folha de folha sobre a mesa.

Paulinho sentiu uma leve dor nas juntas das mãos. Massageou-as em conjunto. Frio e umidade estavam cobrando os seus atrevimentos em enfrenta-los. Uma artrite já se manifestava em pequenos sofrimentos nos ossos. Viu-se nas fotos, orgulhoso de fincar bandeiras em lugares que poucos teriam coragem de ir. Um arroubo de juventude pousou-lhe na mente.

Kiko Nunes sentiu a vitória chegando.

Kiko Nunes recostou-se na cadeira, mostrando-se despreocupado.

O dinheiro jamais os igualaria. Paulinho tinha histórias, fotos na parede, cicatrizes de vida. Ele tinha apenas uma entediante briga com o pai que o queria empresário e algumas tardes no clube.

É necessário se arriscar. É necessário viver. Às vezes, deparamos com uma montanha de entulhos em nossa frente. Uma parede disforme de pedras, paus e lixo. Não podemos atravessar ou contornar. Achamos que nosso caminho acabou ali e que somente podemos estacionar ou voltar.

A maioria dos milagres ocorrem por conta de nosso suor e vontade. A grande graça que recebemos todo dia é nossa vontade de lutar. As montanhas de lixo que impedem nosso caminho ficam menores à medida que vamos retirando os entulhos um a um. Os problemas que impedem nosso viver ficam menores quando os resolvemos passo a passo, sem o desespero de imaginar que eles são maiores que nós.

O milagre e a graça presentes em nós é a força que temos para seguir adiante. Nossa fortaleza vem de nossa capacidade de resolver situações adversas. O legado que Deus incutiu em cada um é a consciência de que somos melhores que qualquer mal.

Júlio dispunha suas roupas nos cabides acreditando que a gravidade as desamassariam. A imagem de marired interpunha-se em todos seus pensamentos. Seus cabelos curtos e andróginos exerciam maior fascinação. Rebatia com lógica os sonhos, lembrando-se que havia uma barreira de idades entre eles. Talvez a diferença fosse o dobro, entretanto, o pensamento rebelde voltava a se fixar nela. Nunca conseguira imagina-la tão bela. As descrições que ela lhe passara pela net forjaram uma foto composta de dezenas de mulheres que conhecera mas que nunca se aproximara do real. Até vê-la, jamais manifestara qualquer interesse.

Lembrava-se também que estava mudando a cada instante desde que aquele sujeito tinha-lhe telefonado. Ele tinha pregado-lhe uma peça, feito uma brincadeira, na qual o seu cérebro se enfronhara e não conseguia safar-se. Ele tinha-o viciado em um jogo que não conseguiria terminar mas que não poderia deixar de jogar. O pior de tudo é que estava arrastando outras pessoas que talvez não quisessem joga-lo. Se tudo tivesse sido um sonho seria mais fácil. Logo o assunto seria esquecido e voltariam às suas rotinas. Ele voltaria à sua vida, atrás de um computador, criando fantasias para aqueles que a procuram.

Buscamos tanta coisa! Procuramos magias, sonhos, graais, pedras filosofais, terras prometidas, águas milagrosas. Queremos ver dragões, licantropos, unicórnios. Percorremos sendas, caminhos e estradas. Tentamos trazer para nós a magia que a rotina destrói. Tentamos fugir da mediocridade procurando troféus que nos façam sermos reconhecidos como míticos. Achamos que outros planetas serão nossa redenção. Mas, a magia está dentro de nossos olhos. Pode-se vê-la nos espelhos. Pode-se senti-la fluir pelas mãos. Ela atravessa o coração e o espírito a cada milisegundo. O que se tanto busca em lugares distantes está tão dentro de nós que, às vezes, é difícil de enxergar. Respiramos e transpiramos magias a cada pulsação. Podemos pratica-la a cada ato, a cada realização. Temos poderes quando decidimos fazer algo. Temos a força que precisamos quando assumimos o próprio eu.

Paulinho preparou-lhes um almoço colorido. O balcão estava pontilhada de cores comestíveis, por vezes estranhas ao paladar, dispostas numa seqüência agradável. Era impossível comer um pouco de tudo, mas a gula ficava aguçada e as pessoas, geralmente, comiam mais que o normal.

Os poucos hóspedes estavam esparsos no salão, assistidos por um único garçon. Juntaram mesas para poderem conversarem e Paulinho, após se fazer de anfitrião para os outros, sentou-se junto a eles.

Júlio seguia calado, mastigando o que julgava apetecível. Sentia o calor de marired ao seu lado. De soslaio, via seus braços morenos e a geografia de seus seios por sobre a camiseta. Algumas vezes, mirava o perfil de seu rosto, tentando não ser indelicado com sua fixação. Tentou uma desastrada conversa paralela, na qual não obteve sucesso. Ela foi gentil e arredia, retornando aos assuntos que Paulinho e Kiko lançavam sobre eles.

Rodrigo estava quase falante. Por instantes, entrosou-se nos assuntos, dizendo até frases curtas e engraçadas. Sentia-se bem quando conseguia retorno em suas tentativas de comunicação. Marta Moura, principalmente, era extremamente atenciosa para com ele. Paulinho e kiko_nunes incrementavam a conversa mas não tomavam posse dos rumos da mesma, enquadrando-se aonde ela os conduzia, quase sempre muito espirituosos e divertidos. Angélica já não o olhava com desprezo e até respondia ou se interessava pelo que falava.

Marta Moura era uma das que conduziam a conversa. Na verdade, era ela quem comandava, com perguntas freqüentes que detonavam algum assunto. Ouvinte atentíssima, sua face expressava as emoções que Paulino e kiko_nunes queriam provocar. Paulinho desfiou algumas aventuras, sexnow algumas observações e kiko_nunes algumas piadas. Eles falavam mais para ela do que para o resto do grupo. Por vezes, eles se dirigiam somente a ela, esquecendo-se dos demais.

Angélica se divertia intimamente com as atitudes de sexnow. Ele era mais um de seus admiradores. Gostava de provocar levemente os homens, dando-lhes um nível de atenção para despertar seu interesse, mas nunca ao ponto de sugerir uma aproximação maior. Era seu jogo predileto. No entanto, por vezes, achou que não era somente um divertimento, e que gostaria realmente que ele se aproximasse. Quando a idéia passava pela cabeça, sacudia levemente os cabelos, como se quisesse expulsa-la de sua mente.

Maria Cecília selecionava comidas que não faziam parte de sua dieta diária. Gostava de experimentar novos paladares, sensações diferentes. Incomodava-se um pouco com o olhar de julius_k que insistiam em cair sobre ela. Arrumou várias vezes a camiseta para inibi-

lo um pouco, tentando passar uma mensagem de que estava sentindo-se pouco à vontade com ele ao seu lado. Mesmo sem participar ativamente da conversa, sentia-se bem, envolvida no clima descontraído que circulava entre eles.

Quando a comida ingerida provocou uma certa dose de sonolência, Paulinho disse-lhes para descansarem um pouco, que mais tarde fariam um pequeno treinamento para a descida, em um pequeno declive perto da pousada.