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Jacaré-pepira
O Jacaré-pepira era uma praia inundada de águas e pedras. Podia-se caminhar sobre ele e afundar-se nele. A água mostrava sua força quando mostrava as rochas que polia eternamente. Algum dia, elas deixariam de existir e o Jacaré-pepira correria mansamente até o instante em que estancaria a sua própria vontade de abrir caminhos e morreria como um simples alagado. As profundezas ele escondia entre as pedras e suas águas. Generoso e perigoso eram avisos que deveriam estar afixados em toda a sua extensão. Para que ele se mostrasse bom era preciso conhece-lo. Para que ele se mostrasse mau era necessário perder-se somente em sua beleza.
Angélica recuou ante a visão da altura. Olhava para o lado da nascente e via um ribeirão que podia-se atravessar quase sem molhar. Do outro lado, apenas via o derramar-se das águas sem poder divisar seu destino. Agarrou-se a sexnow, cuja aparência impassível era traída pela pulsação acelerada do coração que ela podia sentir em sua pele. Ele abraçou-a ternamente.
Enquanto dizia, Melão amarrava a corda em um forte tronco. Dispôs outra para sua proteção, enquanto colocava uma guia e um protetor na corda que descia pela rocha. Era para evitar que se cortasse pelo atrito. Seu rosto redondo, tez amarelada, dentes brancos e um corpo rechonchudo, confirmavam o apelido que lhe deram. Parecia um melão disposto em uma figura humana. Drena o ajudava, colocando outra corda em paralelo.
Drena estava cansada de bancar a babá de turistas. Eram todos iguais, com os mesmos medos tolos e preocupações sem sentido. As respostas que tinha para eles eram faladas automaticamente, como uma gravação. A vida é um círculo que só tem sentido quando se está próximo de seu perímetro. É ali que descobrimos o quanto ela vale. Permanecer seguro no centro dentro dela é desperdiça-la.
Queria ter a paciência que Melão tinha com todos eles, sempre cordial e solícito. Era o queridinho de todos. Se retornavam, lembravam-se dele. Não raro, ganhava presentes, atenções e, esporadicamente, alguma gorjeta. Dela ninguém se lembrava, a não ser quando ocorriam emergências. Nessa hora ela era a dona da situação, era a Drena necessária, era a super-Drena. Sentia-se como uma geni, ignorada no dia-a-dia mas louvada quando precisavam de alguém idiota o suficiente para desprezar qualquer segurança. Ela era a campeã de salvamentos de turistas desastrados ou azarados. Queria também ser a campeã de atenções.
Os rapazes só a procuravam quando queriam sexo. Ficavam arrastando-se por alguns dias ou horas, até que ela permitisse que fosse tocada. Aí, fazia jus ao seu apelido, injetando-lhes adrenalina, fazendo-os arquejarem até o limite de suas forças. Queria-os estendidos, inertes, sem vontade para nada. Depois que recobravam suas forças, eles desapareciam, apenas voltando quando o desejo batesse novamente. Porisso a chamavam de Drena, de adrenalina.
Ia dormir acompanhada e acordava sozinha. Nas primeiras vezes sentia-se usada e amargava dias de angústia. Chegou a ficar noites acordadas, fingindo que dormia, somente para descobrir os horários em que eles iam embora. Era quase um ritual, com eles dormindo após o sexo, acordando durante a madrugada, vestindo-se em silêncio e evadindo-se nas madrugadas. Ela ficava ali, quieta, olhos semicerrados, adivinhando movimentos e passos, até saber que já não estavam mais ali. Aí, então, levantava-se, tomava um quase choroso banho, olhava-se nua no espelho tentando descobrir o que lhe faltava, arrastava um dia sobre seus ombros até lembrar-se de que ela era Drena, buscando apenas sensações e provocando delírios em quem a tocava. À noite, dormia melhor, na calma forçada de sua alma.
Só Paulinho era diferente. Ele a tratava como igual. Não se desfazia dela depois do sexo. Mantinha-a junto de si o mais que podia, tentando prende-la junto a ele. Muitas vezes, dormiam colados como amantes de cinema, coxa sobre coxas, mão sobre o peito, uma carícia nos cabelos, o olhar lânguido perdido no teto. Mas a adrenalina falava mais alto e ela não conseguia domina-la. Surgia algo, então, que não podia dominar, deixando-se arrastar. Era o querer mais sempre, a procura do inusitado, do diferente, daquilo que lhe atraía a atenção. Aí, então, saía com outros, vendo no olhar de Paulinho apenas uma resignação. Ele já se conformara com a idéia de que ele nunca seria um parceiro fixo, por mais que procurasse mante-la junto a ele.
Drena estava presente em quase todas as fotos penduradas no escritório de Paulinho. Era sua companheira constante de aventuras. Perdera a conta das vezes que salvara ou alisara o traseiro dele. Os momentos de crise eram seu tempo, a sua hora, eram os instantes mágicos em que ela sentia-se totalmente em paz consigo mesma. Uma paz que vinha pelas veias, misturada ao sangue, preparando músculos, limpando a mente. Ela era Drena, de adrenalina.
Melão verificou as amarras da cadeirinha. Estava firme mas confortável. Não é nada agradável quando uma das cintas pressiona os genitais em uma descida. Colocou-se de costas sobre o abismo, inclinou o corpo e iniciou a descida no positivo, com os pés apoiados nas paredes. Descia devagar, analisando se era seguro para os demais. Nenhum problema. Uma descida para turistas.
Embaixo, procurou uma pedra larga e seca para evitar quedas, se estivesse desatento aonde seus pés pisavam. A sola macia do novo tênis soldava-se à superfície. Eram especiais, feitos para esse tipo de esporte. Comprara-os com a gorjeta que um americano de fala enrolada e generosidade acentuada lhe dera, durante a última temporada. Ainda estavam novos pois os utilizara poucas vezes.
Deixou a corda solta o suficiente para que a base dela formasse uma barriga, para poder trazer os demais para aquela rocha segura. Quando eles chegassem próximos à base, ele a esticaria e o rapelista deslizaria até ele, sem esforço ou perigo. O mais difícil seria retornar. A pessoa teria que ir elevando o corpo firmando-se na corda e travando com o freio. Demoraria um pouco mas chegaria. Se não conseguisse, Drena e Paulinho a puxaria até o alto.
Um pouco da neblina da cachoeira atingia seus óculos, manchando-os de cores irisadas que o sol produzia. Desceu-o até o pescoço, para poder ver melhor.
Drena desceu de cabeça para baixo, pela paralela. Colocou-se na horizontal algumas vezes e parou na metade do caminho, esperando os demais. Ela ficaria ali para alguma emergência. Ele a admirava mas não gostaria de ser como ela. Ela procurava a morte e ele procurava a vida. Gostava de viver, de falar com as pessoas, de sentir as emoções que todos sentem. Sua aparência engraçada ajudava-o bastante, menos em relação às namoradas. As pessoas sentiam uma natural simpatia por ele mas as mulheres evitavam aproximar-se dele quando se tratava de uma relação. Não tinha um fenótipo que elas gostariam de transmitir aos seus descendentes. No entanto, tinha um relativo sucesso com elas. Sua cultura era suficiente para remodelar a imagem de inepto que seu corpo transmitia, praticava uma paciência extrema para ouvi-las e, acima de tudo, sua fala mansa seduzia e fazia seu rosto desaparecer em poucos minutos. Conseguia conquista-las mas não mantê-las.
No meio da queda, Drena balançava-se, talvez brincando, talvez aborrecida.