Os homens da montanha

Os homens da montanha

Kiko Nunes delirava enquanto o médico o examinava. Paulinho batia na própria testa, como se enfiasse um sorvete nela. Como fora idiota. Nunca tivera problemas até então. O dinheiro fala alto mas ele não deveria tê-lo escutado. Deveria ter seguido as regras que todos seguem.

Logo a notícia se espalharia. Poderia perder sua licença, enfrentar algum processo e até perder a Pousada do Jacaré que tinha suado tanto para construir. Tinha sido uma loucura. A 2K sempre fora perigosa e ele sabia disso. Não era um lugar para turistas. Na realidade, não era um lugar para ninguém. Era um desses mistérios que a natureza tem, que rouba vidas até que a sorte de alguém os desvendem. Pensou nos que tinham construído as primeiras canoas, os primeiros navios, os que saíam sem saber se voltariam. Pensou naqueles que tinham provado a primeira fruta sem saber se ela era venenosa. Os que abriam caminhos nem sempre voltavam. Aqueles que os seguiam tinham que aprender com aqueles que não voltavam para depois lançarem-se no próximo passo do desconhecido. O conhecimento exige vidas mas nem sempre aprendemos com os mortos. Não os escutamos por mais que gritem de seus túmulos. E ele, Paulinho, não tinha escutado seus próprios mortos, seus companheiros que perderam-se buscando aventuras. Eles cochichavam em seu ouvido, a todo instante, o que ele deveria ter feito ou deixado de fazer. Eles gritavam em suas quedas dos penhascos e no torpor do gelo que gangrenava seus corpos. Nenhum deles acreditou em nenhum de seus dias que poderiam morrer, nem mesmo quando a morte hasteou sua bandeira ao lado deles. Sempre calculavam todos os riscos possíveis antes de uma subida mas a natureza tem uma matemática diferente, somando e subtraindo de acordo com sua vontade. Sempre pensavam estar preparados para todas as emergências, vicissitudes e situações inusitadas. Quando aconteciam, descobriam que não tinham todo o equipamento, força e vontade que pressupunham ter. Aí, tinham que contar com a deusa Fortuna, caprichosa e mulher, que dispunha das vidas como lhe apetecia. A alguns ela dava a vitória, a outros um enterro nas montanhas geladas. Não raro, ela reduzia muitos a muito menos do que foram antes, tirando-lhes partes de seus corpos ou de sua coragem. Os que foram agraciados por ela poderiam colocar fotos em suas paredes. Aqueles que sentiram seu desprezo, se ainda lhes restassem um pouco de sorte, poderiam ter seus nomes inscritos em lápides. Paulinho deveria ter escutado seus mortos.

O médico, após examina-lo, disse-lhes que, provavelmente era apenas um desmaio provocado por excesso de adrenalina ou alguma droga que poderia ter ingerido, o que lhe estaria causando algumas alucinações. Fisicamente não tinha nada de errado com ele, exceto alguns hematomas e escoriações. A cabeça tinha sido suficientemente protegida pelo capacete e o resto do corpo pela roupa de neoprene e salva-vidas. Agora, era só esperar pela recuperação.

Paulinho, chamou-o a um canto, pedindo-lhe que mantivesse a maior discrição possível sobre o assunto. Pelo silêncio, ficaria lhe devendo um favor. O médico relutou mas fez com que ele prometesse que, se não houvesse uma rápida recuperação, o encaminharia para o hospital, aonde poderiam fazer uma bateria de exames.

Melão foi quem mais se alegrou com a notícia. Achava que era sua culpa o fato dele ter batido nas pedras. Não sabia exatamente o que acontecera. Os demais já tinham descido e tudo estava normal, então. De repente, sentiu algo parecido com o contrário de uma descarga elétrica que o fizera largar da corda. Pode ver kiko_nunes pendurado horizontalmente na corda, batendo nas rochas, já inconsciente. Tentou sair do lugar mas seus pés estavam presos. Forçou-os e as solas dos tênis ficaram coladas ao chão, deixando-o apenas com polainas sobre as meias. Atirou-se à água, agarrando a corda que já estava junto às paredes. Drena, de pronto, tinha descido um pouco, e segurava o corpo inconsciente de kiko_nunes, para que parasse de se atirar ao paredão. Em cima, Paulinho não podia ver o que estava acontecendo mas anteveu problemas. Debruçou-se sobre o precipício tentando gritar ordens, mas Drena e Melão não precisavam delas. Sabiam o que tinham que fazer. Melão esticou novamente a corda, para que se distanciasse do paredão, enquanto Drena dava folga no freio para que kiko_nunes deslizasse. Devagar, desceram-no até a pedra segura.

Borrifaram-lhe água do Jacaré-pepira em seu rosto, tentando reanima-lo mas não conseguiram. Melão tomou sua pulsação e temperatura, enquanto Drena retirava o capacete, o salva-idas e abria o zíper da roupa de neoprene. Não havia cheiro de bebida na boca dele ou danos aparentes. Talvez tivesse tomado algum remédio, droga ou tivesse alguma doença que lhe provocasse esse estado em determinados momentos. Estava apenas inconsciente. Os demais tiveram que ser afastados pois, formaram uma roda em torno dele, roubando a ventilação.

O problema maior seria leva-lo de volta o mais rápido possível. Olhou para rio baixo, vendo somente escarpas e nenhuma saída. Não conhecia aquele local sem margens seguras. Teriam que caminhar sobre pedras ou pela água, levando um peso considerável, além de ter que cuidar da segurança de outros assustados turistas. O melhor seria tentar iça-lo pela própria corda de descida.

Não se deixou levar pelos argumentos de Drena que queria descer o rio. Era a pior opção. Ela queria apenas aventura, sangue e adrenalina. Ele queria levar todos de volta, com o menor esforço e risco possível.

Por sinais, pediu para Paulinho descer os tubos encaixáveis. Tinha sido uma invenção sua, essa, que agora iria testar. Eram tubos inoxidáveis que se encaixavam e, junto com uma lona resistente apoiada neles, se transformavam em uma maca segura. Uma corda era fixada nos quatro cantos do retângulo, travadas no centro, impedindo que deslizasse. O acidentado era imobilizado por faixas. Simples de carregar e montar.

Enquanto preparava kiko_nunes para a subida, pediu para Drena ajudar as mulheres e sexnow a escalarem de volta. Foi demorado, com elas parando repetidas vezes para recobrarem forças. Lá em cima, poderiam ajudar Paulinho a iça-lo. Bastaria dar uma volta na corda em um tronco. Uma delas a manteria travada, enquanto os demais a puxariam. Manteve julius_k junto a si para ajuda-lo. Ele tinha-se mostrado ágil e conhecedor das lides, apesar da cor branca de escritório que tinha. Vira-o manipular os mosquetões e oitões com naturalidade, dar nós e descer com extrema facilidade. Não devia praticar constantemente mas sabia o que fazer. Poderia ser útil.

Paulinho mandou abaixo uma nova corda, na qual julius_k colocou um freio para a subida. Fixaram a maca com kiko_nunes naquela em que tinha descido e levaram-na para perto do paredão. A 2K rugia ao lado, saltando em nuvens de sua via principal, criando uma névoa que acumulava-se na pele até formar gotas de água pesadas, que escorriam pelo corpo. Uma luva jazia sobre uma árvore espinhenta, que arriscara-se a nascer na encosta do Jacaré-pepira.

Dando sinais através de puxões na corda, Melão iniciou a subida do corpo inerte de kiko_nunes. Ele e Drena posicionaram-se abaixo da maca, conduzindo-a e evitando que enroscasse nas pedras. Júlio, um pouco acima, impedia que a corda embaraçasse e travasse.

Devagar e firmemente, chegaram até o topo, aonde Paulinho, debruçado e seguro por cordas, deu um puxão final para coloca-lo em cima, aonde estavam.