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Sonhos
Júlio maldizia-se. Fora infantil como seus jogos. Afinal de contas, por quê tinha trazido pessoas que não conhecia para uma aventura saída de um sonho? Ainda não estava certo de que estivera ali anteriormente. O sujeito que o trouxera nunca mais entrou em contato com ele. Naquele dia, quando retornou exausto para o topo, ainda ofegante, mal escutou as palavras que ele proferira. Ele o deixara só, dizendo apenas que queria voltar a dormir e que, se ele quisesse saber mais, teria que aprender por si. Desaparecera como chegara, sem vínculos, sem traços.
Sentiu-se idiota quando não localizou, entre as pedras, nada além de fissuras ou musgos. Fora o primeiro a descer. Não tinha certeza do ponto exato aonde se fixara anteriormente e, porisso, vasculhara com cuidado a parede, tentando reativar a memória para auxiliar a procura. Jogou fora as luvas que impediam o tato, vendo-as cair rapidamente montanha abaixo. Escalavrou os dedos, sem encontrar nada. Desistiu, fazendo gestos para si mesmo de que nada achara. Até aquele momento, tinha certeza de que veria novamente seu nome gravado nas rochas, aonde estavam inscritos todos aqueles que deveriam morrer. Mas não havia nada. A 2k era apenas mais um acidente da natureza, muito belo, mas igual a tantos outros. Não tinha nada de especial. Talvez, tudo tivesse sido um sonho, do qual, agora, estava acordando. As memórias do que tinha-lhe ocorrido anteriormente, saltaram da vividez de seu consciente para a bruma de seu inconsciente, juntando-se à pasta de cores mal misturadas de nossa mente, que nos confunde quando tentamos usa-la. Aceitou como se fosse uma peça que lhe tinham pregado. Disse para si mesmo que ainda poderiam aproveitar o fim de semana.
Desceu até o sorridente Melão, esperando a descida dos outros. Podia vê-los mas não distingui-los. A roupa comum e os capacetes dificultavam a identificação. Perdeu seu olhar rio abaixo, apenas retornando à realidade quando alguém aportava até eles.
Ouviu gritos e viu Melão correndo atrás da corda. Acima, kiko_nunes pendia quase na horizontal. Na pedra, duas solas de tênis estavam estranhamente soldadas. Uma de suas luvas havia se libertado de sua prisão temporária em um galho rente à agua e desceu velozmente rio abaixo.
Ajudou-os a pousarem o corpo inerte na rocha. Kiko Nunes estava inconsciente, contudo, podia-se perceber que estava bem. Ele devia ter sido tocado como ele. Talvez não fosse um sonho, então.