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Se eu fosse um historiador e pudesse adotar uma cronologia, usaria o dia 11 de setembro de 2001 como marco inicial. A hora precisa seria 08:45 a.m. (EDT), quando o vôo da Americana Airlines número 11, indo para Boston, Massachusetts, nos Estados Unidos, explodiu contra a torre norte do World Trade Center.
Sim, acho que foi o dia em que tudo começou.
As 09:03 a.m., um segundo jato da United Airlines, vindo de Boston, colidiu com a torre sul, provocando, às 10:05 a.m., a queda da mesma. Vinte e três minutos depois, a outra torre veio abaixo, carregando consigo muitos dos que estavam dentro dela e outros tantos que estavam tentando salvar os desesperados que ainda nada entendiam do que estava acontecendo.
Nesse mesmo dia, as 09:43, da mesma manhã, o vôo 77 da American Airlines explodiu contra o Pentágono. Pouco depois, as 10:10, uma parte do Pentágono desabou.
A imprensa, como sempre, deu mais atenção às torres, não só pela qualidade da tragédia, em que se contaram os mortos, os feridos e os dramas dos envolvidos, mas também pelo fato de que não se deveria incutir, no resto do planeta, a mentalidade de que um símbolo de força pudesse ser atacado impunemente.
Os radicais, com esse ataque quiseram demonstrar a fragilidade dos poderes militar e econômico que pesavam sobre seu mundo como uma parede, na qual todo dia se acrescentavam novos tijolos.
Se eu fosse um historiador, colocaria lado a lado todas as imbecilidades de nosso passado, e descobriria que todas elas se repetiram, em maior ou menor grau. A nossa história é matemática. Mudam-se os dados, mas as fórmulas e as constantes são sempre as mesmas.
Não bastou um Vietnã: foram buscar outro no Afeganistão. Nem mesmo as bombas que sufocavam as pessoas dentro das cavernas serviram para conter um povo que nada tinha a perder. Foram anos de balas solitárias disparadas das montanhas, que não matavam, mas feriam e exasperavam um gigante solitário. Aconteceu com eles o mesmo com os que lá tinham estado antes. Abandonaram aos poucos os campos, enclausuraram-se em fortalezas até descobrirem que não tinham mais como resistir. Voltaram para casa, ergueram um monumento aos mortos, divulgaram sua pretensa vitória pelos canais de televisão e colocaram sedativos em mais uma ferida.
O petróleo voltou-se contra uma outra presa. Desta vez foi o Iraque. Uma guerra curta, com data para terminar, que prolongou-se além da conta. Os mesmos radicais, que nada tinham a perder, instalaram-se nos desertos, nas montanhas, com seus rifles infantis, se comparados à gama de armas trazidas pelos porta-aviões, escolhiam uma vítima, faziam dela seu troféu e fugiam sem serem vistos.
A guerra tem uma certeza: os que nela se enfronham, tem que saber que podem ficar dentro dela, dentro de suas estatísticas, de suas aberrações. Querer invadir um país, jogar algumas bombas, tentar não matar civis para que a consciência não pese e voltar para casa, é um sonho dentro de um sonho. A guerra suga as pessoas, os territórios, os animais, para dentro dela. É um buraco negro do qual não escapa nem mesmo a luz e as almas. As guerras começam por motivos econômicos, dão lhes atestados ideológicos ou religiosos e sempre terminam na mais condição animal, que é a da pura sobrevivência.
Aqueles que as promovem e crêem que ela não chegará até eles, podem se enganar. E foi o que aconteceu.
A economia estava em crise e não existe maneira mais rápida de eleva-la do que com a produção de artefatos caros e que podem ser destruídos rapidamente. As máquinas de guerra são caras e podem ser avariados ou eliminadas nos confrontos. Assim pensavam as empresas e todo um governo. Esqueceram-se apenas de um detalhe que se chama fator humano, sempre tão imprevisível de natureza. Os que nada tinham a perder, instalaram-se em guerrilhas secretas e passaram a levar o terror para as casas daqueles que forneciam soldados para suas lutas em locais distantes. O sangue que aparece nos noticiários não tem o cheiro daquele que se gruda nas portas das casas. O terror instalou-se e pânico virou regra geral. Aconteceram incidentes grotescos em que desconhecidos eram linchados apenas pelo fato de passarem por determinada rua. Tudo e todos eram suspeitos. As empresas mais espertas passaram a vender detectores de bombas e minas. Cães farejadores de explosivos tornaram-se símbolos de status social. Demonstrações nos parques passaram a serem comuns. Os treinadores exibiam seus animais, escondendo bombas em carros, na relva, nos ocos das árvores. Dificilmente voltavam para casa sem terem vendido todos eles. Uma empresa japonesa desenvolveu um pequeno robô em forma de cão que varria os caminhos por onde as pessoas passavam, tentando garantir um pouco mais de vida para seu usuário. Embora fosse menos eficiente que seus concorrentes naturais, foi um grande sucesso de vendas. Muros altos foram erguidos, cercas eletrificadas instaladas e seguranças particulares rodavam por seus domínios, cada dia mais armados. As armas pessoais passaram a valer dez vezes mais seu preço. Tornou-se fato raro alguém andar por sua casa ou pelas ruas sem ao menos um velho estilete. Com todo esse aparato, a criminalidade decaiu bastante. Os comuns tornaram mais perigosos que seus predadores. Alguns noticiários exploraram bastante esses heróis de cinco minutos. Um deles foi até criticado por mostrar um homem pisando sobre o corpo de um assaltante, em pose de grande caçador branco. Como a audiência subiu com essa reportagem, os demais sentiram instigados em mostrar novos horrores e cada canal de televisão ou meio de comunicação trouxe esse mundo para as casas de todos e esses fatos começaram a serem vistos como normais.
Quando os casos desses matadores esporádicos caíam nos tribunais, invariavelmente, existia a alegação sistemática de defesa pessoal. Com tantos precedentes, fazia-se uma breve análise sobre o réu. A sentença era sempre favorável, se ele tinha emprego, moradia fixa e nenhum antecedente de violência.
Mesmo assim, aqueles que nada tinham a perder e não se importavam em morrer, produziam novas vítimas, quase em escala industrial. Alguns grupos extremistas abandonaram as bombas e passaram usar formas mais silenciosas de morte. Pós radioativos foram jogadas em represas e espalhados em praça pública. Alguns enviavam-nos pelos correios. Receber uma carta passou a ser uma grande aventura. Novamente a indústria tentou atender a crescente demanda por detectores geigers e outras engenhocas que poderiam avisar aonde existia o perigo. Um delas criou uma roupa com aparência comum, mas que podia deter parte da radiação malévola que andava junto com o vento e as águas. Também foi um sucesso de venda.
O próximo passo deles favoreceu a indústria farmacêutica. Vírus, gases e venenos sumiram de quase todos os laboratórios do mundo. Soube-se disse quando parcelas da população passaram a lotar as ruas com seus corpos e os hospitais com seus gemidos. Pílulas, vacinas e mascaras passaram também a fazerem parte de um cotidiano assustador. Aeroportos e portos foram fechados inúmeras vezes, principalmente pelo fato de serem uma via rápida de disseminação de doenças. Passageiros passaram a ter seus caminhos rastreados. Cada um deles deveria carregar consigo aquilo que eles chamavam de lote. Cada um deles pertencia a um lote e, quando algo ocorria com um deles, os demais eram imediatamente procurados e localizados, sendo colocados em quarentena. Obviamente, faliram, rapidamente, as empresas de turismo e os países que dependiam dele. O planeta deixou de ser uma aldeia e passou a ter uma infindável série de cercas intransponíveis que os geógrafos chamavam de fronteiras. Quem estava dentro não saía, quem estava fora não entrava. Quase feudos.
A
economia começou a decair rapidamente. Uma nova recessão se instalou. A distância
entre as camadas sociais voltou a aprofundar-se como em quase todas as eras de
nossa história.
O
golpe final veio com o Grande Vírus, que chamaram de @3. Uns desses, daqueles
que nada tinham a perder e não se importavam com a morte, criou um vírus que
varreu todos os sistemas operacionais dos computadores que estavam em rede. O
primeiro teste do @3 foi contra as redes de energia dos Eua e Canadá. No dia 14
de agosto de 2003, por volta das dezesseis horas, quando milhões de pessoas
estavam prestes a deixar o trabalho, cidades como Nova York, Detroit, Cleveland,
Chicago, Toronto, Ottawa e Toledo ficaram simplesmente sem eletricidade durante
horas. Sem semáforos, o caos instalou-se no trânsito, os elevadores, trens e
metrôs deixaram de funcionar e parte da população preferiu retornar às suas
casas sem luz utilizando apenas seus pés. Estes chegaram muito antes do que
aqueles que estavam presos nas ruas, com seus veículos. Nove reatores nucleares
foram fechados por medidas de segurança e em todas as cidades foram registrados
saques. Nossa civilidade está baseada na repressão e tecnologia. Quando elas são
suprimidas, voltamos a ser apenas hominídeos em busca de sobrevivência e
vantagens pessoais. Quando a energia foi restaurada e as pessoas voltaram para
sua comodidade, as perguntas sobre o que tinha acontecido foram respondidas de
tantas formas que o real motivo se perdeu.
Muito mais tarde, mais forte e melhorado e com todas as vantagens, o vírus foi lançado na rede mundial. Em pouco tempo, todas as informações disponíveis foram apagadas, restando apenas naqueles computadores solitários que não tinham acesso aos demais e no qual não foi inserida nenhuma informação proveniente de outros computadores. Mesmo as grandes corporações que mantinham domínio sobre o mercado foram afetadas. Todos os discos rígidos foram apagados, sumiram-se todos os dados, as memórias se perderam e nenhuma reinstalação resolveu o problema. Simplesmente, os bits se extinguiram como se nunca tivessem sido criados.
Parecia um retorno da história, naquelas partes em que os povos bárbaros derrotam os impérios decadentes, assumem seus domínios, mas não conseguem manter sua cultura. Tomam posse de todos os bens, mas deixam de cultivar tudo aquilo que possa induzir a um progresso.
As máquinas começaram a parar e o caos parecia ter-se generalizado.
Foi nessa época que surgiu o Nirvana, concebido pelo grande julius_k e que justificou seu nome, pois trouxe uma paz quase celestial para todos os processadores. Um sistema operacional complexo, de uso simples, que dispensava qualquer conhecimento para os usuários, formado por blocos que se podia instalar de acordo com as necessidades, compatível com qualquer computador de qualquer geração, de manutenção esporádica e fácil, e, acima de tudo, imune a qualquer vírus, principalmente o @3.
Foi criada a Ninsu, que estabeleceu filiais e subsidiárias em quase todas as partes do planeta, mas mantendo sua matriz em Brotas, aonde se dizia que alguns tinham sido revestidos de alguns poderes através de um portal.
Mas não foi só um sistema operacional que julius_k deu a todos. Deu-lhes também um novo pensamento e uma outra maneira de viver. O que parecia que iria findar-se em trevas transformou-se em luz para muitos.
Mas, como sempre julius_k dizia, não existe unicidade. O ser humano é múltiplo por natureza. O que parece certo para alguns pode ser errado para outros. O que é bom para muitos por ser mau para os demais.
As tribos de hackers se diluíram em função do Nirvana, mas ainda atuavam em alguns pontos. Com o quase colapso de uma civilização, eles foram perseguidos, enjaulados e muitos foram exterminados, aonde a lei permitia. Toda a severidade das sociedades abateu-se sobre eles. Tornaram-se os bodes expiatórios de todos os pecados e os culpados de todas as desgraças da humanidade. As pressões, as raivas, os conflitos dos agrupamentos humanos, eram canalizados contra esses grupos que não se sabe porque, teimosamente, insistiam em tentar depredar o Nirvana.
Se eu fosse um historiador teria datas, fotos e fatos para mostrar, mas fui apenas um expectador que viu pouco, ouviu muito, participou de fatos e tentou eliminar as lendas e mostrar apenas o que aconteceu.
Mas não sou um historiador. A história de julius_k começou tempos atrás. A minha começou quando vi alessandrab pela primeira vez. Alessandrab, com sorriso inextinguível e seu rastro de perfume instalou-se dentro de mim desde que a vi. Alessandrab me fez produzir ações que jamais teria feito. Alessandrab me arrastou para lugares aonde jamais teria ido e me fez pensar coisas que jamais teria pensado por vontade própria.
Fui um daqueles garotos de rua que julius_k trazia para si. Quando a lei deixou de ser cumprida e os espaços se minguaram, levas de multidões arrastavam-se pelos guetos procurando comida e pequenas vítimas. As cidades tornaram-se territórios livres para saques e, por tempos, a sobrevivência de um dependeu da morte de outro. As famílias desintegraram-se e cada um passou a viver por si. Fazer parte de uma manada ou de um bando tornou-se necessário para aqueles que queriam viver um pouco mais. Os solitários tornaram-se presas fáceis e quase extinguiram-se ou trancaram-se em suas casas.
Quando o Nirvana surgiu, a economia voltou a fluir mas em velocidade não compatível para aqueles que precisavam alimentar-se diariamente. Os que tem fome e sede não podem esperar.
Julius_k sempre vagava pelas ruas e recolhia alguns infelizes. Estendia-lhes as mãos, oferecia-lhes emprego e decência. Fui um deles. A primeira vez que o vi julguei-o como presa. Mas olhar aqueles olhos foi como ver o infinito. Deixei-me conduzir com mínimo receio, sabendo em alguma parte de minha mente que estava sendo transferido para uma outra vida. Sabia que era morte e renascimento. Isso ele me deu duas vezes: morte e renascimento, morte e renascimento.
Deixou-me em local que chamavam simplesmente de escola. Fui alimentado, banhado, vestido e deram-me um local para dormir. Pela primeira vez, tive algum espaço somente meu. Decorei-o, ao longo dos anos, com minhas particularidades. Mais tarde, quando mudei-me para um apartamento, tive que fazer várias viagens para trazer meus objetos. Fiquei abismado com a capacidade que temos de acumular coisas durante a vida.
Foi quase uma era para mim. Tinha atenções, sorrisos, algumas namoradas, liberdade, esquecimento de minha antiga fome, respeito, pessoas e algo para respeitar. Mas acima de tudo, tinha um nome e era chamado por ele. Sabiam quem eu era e o que eu fazia. Sabiam como eu era e me identificavam. Mas não era somente isso. Eu os conhecia pelos nomes e participava de suas vidas. Eu sabia quem eles eram e o que faziam. Foi quase uma era para mim.
Quando perceberam o fascínio que tinha por computadores, foram me enfronhando cada vez mais em sistemas, bits e bytes. Passei a devorar qualquer literatura sobre o assunto. Vasculhava a net à procura de qualquer novidade. Quando elas deixaram de existir passei a produzi-las. Fui tornando-me ponto de referência em escala cada vez maior. Chamei atenções e, quando menos esperava, fui convidado a participar do grupo que julius_k mantinha em sua matriz. Nunca esperei tanto. Era fazer parte de um grupo de privilegiados, aparecer em capas de revistas, ter a foto estampado em quase todos os portais, ter acesso a informações bloqueadas à maioria, ter liberdade para criar e produzir. Era um sonho dentro de um sonho.