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A hora e a vez
Drena brincava pela corda por puro aborrecimento. Aborrecida por estar sendo babá de turistas, aborrecida por não estar transando, aborrecida por estar em situações conhecidas. Desde que Paulinho decidira estabelecer-se, sua vida tinha tornado-se um inferno mental. Era ele quem a levava para lugares estranhos, momentos diferentes. Ele comandava o grupo, conseguia patrocínios e organizava as expedições. Ela era a primeira a ser convidada e o acompanhava quase sempre. Nas fotos que ele exibia, ela sempre aparecia ao seu lado, como par. Sentia falta de gelo, cordas, penhascos, sobretudo dos penhascos. Era supremo estar por sobre eles, pisando seus cumes, quase tocando o céu. Nesses momentos, todas as dores desapareciam, todas as necessidades deixavam de existir e todo trabalho para atingi-los era recompensado apenas com a visão de um mundo sob seus pés. Era a paz total.
Quando Paulinho parou, tentou manter o resto do grupo unido. Correu atrás de patrocinadores, tentando manter a vida que sempre gostara. Mas ela não tinha o carisma dele. Conseguiu montar uma expedição apenas, quase fracassada. O grupo dispersou-se e ela teve que aceitar a oferta de Paulinho para poder sobreviver. Sua atual profissão resumia-se em ser babá de turista. Ridículo.
Quando iria chegar sua hora e vez? Quando alçaria suas asas de novo? Quando poderia voar novamente rumo ao infinito? Quando iria sentir o nirvana novamente? Talvez, nunca mais.
Aqueles turistas eram patéticos. Eram grupos desordenados, que não tinham vínculos entre si, procurando um mínimo de risco em um final de semana para poder contar, nas segundas-feiras, aos amigos, o quão corajosos eram. Eram pessoas comuns, nada mais que um bando de escriturários, com peles de papel que queimariam ao sol e descascariam em alguns dias. Eles nunca saberiam o valor de uma amizade nas horas em que a morte ronda, jamais saberiam o valor de uma mão estendida no amparo ou da dependência que um grupo tem de cada indivíduo. Eram patéticos, ridículos.
Quando viu kiko_nunes dependurado na corda, aparentemente
inconsciente, gritou mentalmente como Augusto Matraga: "ê, gostosura de
fim de mundo...". Era sua vez.
Viu Melão recuperar a corda e retorna-la à sua forma curva. A gravidade fazia
com que kiko_nunes descesse devagar. Ela chegou-se a ele, freando a descida,
evitando que batesse nas rochas. Depois, ajudou Melão a coloca-lo sobre a
pedra.
Abaixo, o Jacaré-pepira rugia, chamando-a. Nunca tinha estado por este trecho do rio. Avaliou as dificuldades e facilidades de transporte de um ferido por sobre as águas, junto com um bando de turistas inexperientes. As escarpas não permitiam margens pelo trecho visível, mas o leito baixo trazia pedras afloradas aonde poderiam caminhar.
Se faltassem pedras, poderiam superar a correnteza aonde o volume de água fosse menor. Mais abaixo, encontrariam uma saída para a terra firme, aonde poderiam encontrar alguma fazenda, telefonar e aguardar um resgate.
Melão não a escutou, quase nem respondeu-lhe. Conformou-se quando viu a maca sendo içada aos poucos.