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Vaidades
Ike Nunes prolongara o fim de semana por causa de Maíra, sua nova namorada. Contratara-a prevendo que transariam. Bastou um pouco de charme, demonstração de poder, um carro importado e um convite. A natural ambição dela fizera o resto. Era bonita, queria subir rapidamente e nada mais fácil para isso do que criar vínculos com o dono da empresa. O cargo de assistente que Ike criara já implicava possibilidades sexuais. A gerente do recrutamento sempre as escolhia entre as mais bonitas e jovens, normalmente recém formadas, desinibidas e poderosas. Ela mesma já tinha sido uma delas até que deixasse de ser novidade e fosse trocada por outra recém chegada. Por certo tempo tingiu-se de raiva e impotência, sem conseguir atingi-la. Algumas brigas com Ike e ele a despachou para aquele canto. Quando chegou a vez da outra ser trocada, percebeu que saíra ganhando. Por algumas noites com ele, tinha conseguido um bom cargo em uma boa empresa. Nada mal para alguém que passara pela faculdade fazendo alguns programas para poder complementar o parco salário que recebia. Nada mal para alguém que viera do interior para estudar e cuja família não podia sustentar seus estudos. Nada mal para alguém que jamais teria chances na vida se não se arriscasse.
Maíra já estava forçando demais. Fizera-o permanecer longe da empresa por mais tempo que se permitiria. Viera com uma enxurrada de idéias como se fossem novas. Queria mostrar potencial mas apenas dissera tolices ou o que ele já sabia. Ela teria pouco futuro dentro da empresa ou ao seu lado. Retornara da viagem pensando em como despacha-la sem muitos traumas ou prejuízos. A caminho da agência a idéia tomou forma concreta.
A vaga de estacionamento eternamente vazia de kiko_nunes estava ocupada. Certamente, ele estava precisando de dinheiro. Kiko Nunes somente aparecia nessas horas. Sempre tivera a ilusão de todo pai que os filhos seguem naturalmente seus passos ou que fazem exatamente aquilo que imaginamos que fariam. Não é verdade. Cada um tem seu próprio caminho a percorrer. A perda prematura da mãe fizera com que seus cuidados para com kiko_nunes fossem direcionados naquilo que sentira falta em sua infância, como dinheiro e uma vida leve, sem atropelos. Criara-o solto e sem necessidades financeiras. O que ele queria, ele tinha. Mas, agora, sabia que não era o suficiente. Não tinham formado vínculos. Havia apenas a relação pai-filho que os animais têm. Não havia intimidade entre eles. Ike não sabia da vida de kiko_nunes, assim como a recíproca era verdadeira. Tivera sorte que kiko_nunes nascera com uma personalidade de boa índole, senão ele seria como os filhos de tantos amigos que viviam metidos em drogas e encrencas. Quando se dá tudo de graça, as pessoas acham-se com o direito de possuírem o que desejam, sem esforço, sem trabalho. Consideram-se impunes, imunes, isentas de regras. Param somente quando uma tragédia lhes diz: "Basta!".
Entrou na sua sala esperando encontra-lo indolentemente deitado no sofá. Não estava. Foi até a sala de kiko_nunes, mas, também, não o encontrou. Perguntou à secretária, que indicou-lhe a sala de projeção.
Entrou com o mínimo de ruído, divisando a silhueta de kiko_nunes, junto a outros funcionários. Sentou-se ao fundo, sem alarde, observando a projeção.
A tela mostrava a figura de um homem correndo em um parque, por trás. Em seguida, a imagem de uma mulher acompanhando os passos do homem. No próximo take, aparecia o sujeito, a mulher, e um garoto acompanhando-os. A imagem se fechava e o logotipo de um fabricante de produtos esportivos aparecia.
Simples, barato e funcional. Não precisaram de atores famosos e caros, a cena fora feita em um local próximo e, vincularam a imagem do produto à família e ao esporte. Isso abria uma gama de novos comerciais. Poderiam, também, mostrar competições profissionais, aonde os que assistiam e competiam usavam a mesma marca. Um produto especializado que poderia ser usado por qualquer pessoa teria venda garantida. Simples e genial.
Não se conteve. Bateu palmas ao término, indo cumprimentar Rogério, que julgava que fosse o autor da idéia. Ele sempre se destacara nessa área. Alguém acendeu a luz e desligou o projetor.
Rogério ficou encabulado ao dizer que kiko_nunes era o autor. Sem jeito, Ike deu-lhe os parabéns. Nunca o julgara capaz de qualquer projeto que fosse além de uma viagem com os amigos ou uma tarde no clube.
Ficou um pouco ao longe, vendo-os discutirem alguns pontos, estabelecendo correções e prazos.
Observando kiko_nunes, percebeu que, mais que as atitudes, se destacava a agudeza do seu olhar. Ele estava mudado. Não era como das vezes em que fora obrigado a participar de alguns atos na empresa, em que procurava mostrar-se ao pai e funcionários como o futuro dono da empresa mas que virava motivo de piadas no dia seguinte pelas tolices e desinformações. O que ele estava fazendo não era temporário, não era fruto de arroubos ou pressões. Ele estava fazendo porque queria. Teria crescido de uma hora para outra, em tão pouco tempo?
Viu-se nele, colhendo opiniões, juntando as palavras de todos, produzindo um pensamento único e correto. Viu-se nele quando falava, quando discordava, quando conseguia obter o melhor de cada um.
Mas essa era uma visão de muito tempo atrás. Ele estava muito parecido com o que fora um dia mas que já tinha deixado de ser. Dias em que era o gênio da propaganda, o melhor de todos, o máximo. Dias em que sentia prazer em criar, em produzir. Ainda tinha a fama de campeão mas que já não era fruto dele. Contratara profissionais, formara uma boa equipe, e, aos poucos, foi deixando-se levar pela vida. Faziam anos que não tinha idéias grandiosas ou espetaculares. A agência prosperara e se mantivera graças aos seus empregados e não mais por causa dele. Ele já não era a corda mestra que tudo movia. Ver kiko_nunes tão envolvido suscitou-lhe esperança de sucessão mas trouxe-lhe a sensação de que já tinha cumprido etapas de seu caminho e que, talvez, chegara a hora de parar. Sentiu-se velho, muito velho.
Saiu da sala como chegara, sem barulhos. Foi até seu escritório. Maíra ali estava, com alguns papeis na mão, lançando um olhar de atração. Estava fazendo-se de sexy, querendo lembra-lo de que tinham algum relacionamento. Mas não tinham nenhum. Era apenas uma troca de sexo e favores. Apenas isso.
Subiu-lhe à cabeça uma certa raiva originada do fato dela imaginar que tinha algum direito sobre suas atitudes e, também, da descoberta de que estava iniciando uma fase de declínio. Quis desabafar ou compensar com sexo imediato, com algum carinho, mesmo que fosse comprado.
Fechou a porta e atirou-se a ela, que foi pega de surpresa. Ela tentou desvencilhar-se com jeito, sem gerar uma reação negativa dele que pudesse atingi-la. Não queria suas roupas amassadas, líquidos escorrendo pelas coxas ou comentários que portas fechadas suscitariam.
Ele fez-se de bruto, como se tivesse direitos sobre ela. Beijando-a com força, foi desabotoando os botões de sua imaculada camisa. Abriu o fecho de seu sutiã sem alças, cheirando a novo, fazendo brotar os seus seios, lambendo-os e beijando-os como criança gulosa. Ela se conformou, sabendo que se o detivesse poderia perder seu lugar de prima donna. Ainda não conseguira o que queria e que, enquanto isso não acontecesse, teria que jogar segundo as regras dele. Sentindo a saia descer aos seus pés, resolveu ajuda-lo acariciando seu sexo. Abriu o zíper da calça, colocando a mão dentro da cueca, querendo fazer crescer sua virilidade. Percebendo que ele se mantinha murcho e distante do resto das ações dele, achou que o melhor seria abocanha-lo para ativa-lo e terminar logo com aquilo. Ajoelhou-se, enquanto abaixava a cueca e calças dele. Sugou o membro dele, mas nada aconteceu. Ele permanecia indiferente. Olhou para cima, vendo olhos desesperados que a miravam. Tirou o resto da roupa sem desviar-se de seu objetivo. Fez o melhor que sabia mas não obteve reação.
Ike a empurrou para o chão num ato de desespero, indo sentar-se no sofá com as mãos entre o rosto, vestido apenas com a camisa aberta, sapatos e meias. Estava ridículo e desatinado. Ela, ao seu lado, colocou a mão sobre sua cabeça, acariciando-a como se estivesse consolando uma criança.
Sem olhar para ela, envergonhado, pediu-lhe que se retirasse. Ela pensou em dizer-lhe que era natural que, às vezes, um homem falhasse. Ele poderia estar estressado, desconcentrado ou com algum problema latejante na mente. Isso acontece com todos.
Desistiu ao perceber que suas palavras somente aumentariam o desconforto dele. Arrumou-se cuidadosamente, alisando com as mãos os lugares aonde existiam pequenos amassados na roupa. Quando se deu por pronta saiu, fechando a porta, deixando dentro da sala um homem triste, muito triste.