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Acontecimentos
O porteiro rabiscou contrariado sua assinatura na carta. Iria até o sindicato ver se tinha alguma chance de recuperar seu emprego, conseguir outro ou tentar alguma indenização, se houvesse possibilidade.
Estava confuso. Será que tinha dito seus pensamentos em voz alta? Detestava aquela mulher de nariz empinado. Todo dia ela buzinava para que abrisse o portão, mesmo quando ele estava atento. Pela manhã ficava mirando o relógio procurando os horários que os maiorais chegavam. Ela era um pouco irregular mas tinha um padrão: normalmente chegava entre as oito horas e oito horas e meia.
Mesmo na saída, ela buzinava para que ele abrisse o portão. Será que ela não sabia que existia um tempo para que acionasse o botão e o portão começasse a abrir? Os demais não o irritavam com essa grosseria, somente ela. Chamava-a mentalmente de muitos nomes mas preferia p...., porque achava que era o valor mais baixo que uma mulher poderia ter numa escala de valores sociais. Será que tinha dito isso em voz alta? Estava confuso, muito confuso. Agora tinha que pensar em como dar a notícia para a esposa. Ela teria um ataque de nervos, com certeza. Como iriam sobreviver com uma aposentadoria de m....? Como iriam conseguir pagar um aluguel e ainda poder comer com aquele dinheiro magro que recebia por mês de um governo falido que não se preocupava com seus velhos? Como se não bastasse o aluguel e a comida, ainda tinham remédios caros que precisavam tomar regularmente. Teriam que recorrer à benemerência dos filhos distantes, que brigariam entre si, tentando jogar essa responsabilidade de um para outro.
Ele tinha se esforçado ao máximo para fazer com que estudassem e tivessem uma vida mais confortável que a dele. Quantos bicos fizera? Quantos trabalhos extras tinha feito nos fins de semana para poder arrecadar um pouco mais? Passara a vida sentado em um banco de portaria, fechado entre paredes exíguas, abrindo e fechando portões, anotando entradas e saídas de pessoas e veículos, suando dentro de um uniforme eternamente grande ou pequeno. Toda vez que tinha que troca-lo, pedia a numeração certa, para que não ficasse folgado ou apertado. Nunca tinha. Invariavelmente, pediam para que ele usasse o que estava disponível até que chegasse uma nova remessa, quando trocariam. A remessa nunca chegava ou, então, quando chegava, não tinha nenhum que lhe servisse. Certa vez, lhe deram um sapato com número menor. Reclamou durante semanas dos calos e bolhas que produziam. Para poder trocá-lo, teve que produzir um simulacro de acidente, aonde ele se estragou e conseguiu, enfim, substitui-lo.
Tanto sacrifício para si e para os filhos e não conseguira nada deles a não ser que tivessem uma boa situação financeira. Respeito não conseguira. Carinho também não. Raro era algum telefonema. Quando muito, convidavam-no para alguma festa de aniversário dos netos, apenas para poder mostrar-lhe o carro novo ou a casa nova que adquiriram. As crianças também tinham dele a noção que os pais lhes deram: eles os viam apenas como um simples porteiro, alguém sem sucesso financeiro, um joão-ninguém. Ninguém percebia que ele tinha tido sucesso pelo simples fato de poder ter dado uma melhor situação econômica para eles. Seu pai não tivera essa preocupação com nenhum de seus filhos. Segundo ele, comida e abrigo era sua função, o resto seria por conta de cada um. O resultado fora que nenhum deles conseguira ser diferente do que ele era.
Já que estava demitido, resolveu tentar uma última carta: iria falar com Marta Moura. Talvez ela o ouvisse e, esclarecido o mal-entendido, pudesse voltar a trabalhar.
Atravessou a recepção, alguns corredores, chegando até a sala da secretária de Maria Moura.
- Ela pediu para não ser interrompida. Só se for algo muito urgente.
Ele tentou apelar para a humanidade dela.
A secretária abandonou um pouco a fleuma, tentando ser convincente
O porteiro reassumiu sua eterna passividade e saiu cabisbaixo, pensando no que iria fazer a partir desse momento.
A secretária sentiu pena daquele homem. Pôde sentir a angústia instalada naquele corpo velho mas preferiu não se arriscar. Também não queria ser demitida. O porteiro tinha sido o segundo em poucos dias. Marta Moura andava arredia e instável e não ousaria contrariá-la de forma alguma.