Madrugada I

Madrugada I

"Raças de anões são amigos e guerreiros. Eles lutarão ao seu lado sempre. Existem os anões arqueiros e os fundibulários que atacam à distância, os espadachins podem ajuda-lo se você estiver em inferioridade numérica. Para conseguir sua lealdade você deve ajuda-los a protegerem a Pedra Imortal, que eles conservam em um edifício em forma de retângulo, muito extenso e cheio de labirintos. A Pedra Imortal lhes dá poderes de recuperação rápida quando feridos em combate. Ela lhes concede uma agilidade surpreendente, para compensar seu tamanho e sua menor força física. Um anão guerreiro é a criatura mais rápida de Nemar, o planeta eternamente em conflito.

A força da Pedra Imortal tem que ser reposta com a energia que provém da Montanha Flutuante.

A cada ciclo das estações de Nemar, quando os dois sóis se cruzam, uma onda de energia é formada, podendo ser armazenada em locais especiais. Os anões conseguiram catalisar muitos elementos em um único sólido, a Pedra Imortal. Quando essa onda de energia é formada, a Pedra Imortal a absorve. Nesse momento, essa energia assume a forma de uma montanha invertida, o que lhe deu seu nome."

Júlio leu e releu o que escrevia e teve desejos de deletar toda aquela bobagem. Criar fantasias e fazer com que adolescentes e crianças se especializassem nelas era uma maneira muito estranha de se ganhar a vida.

A cada jogo, seguiam-se livros com detalhes de como adquirir vidas ou passar de fases. Uma insipidez total. Talvez até houvesse perigo em propagar ideais inventados e heróicos. Além de ocupar espaços na vida deles, ainda poderia induzi-los a pensarem alienadamente. Esses jogos absorviam demais quem os começasse. Era como uma droga ou vício e como tal nunca tinham fim. A cada passo, as dificuldades aumentavam, até tornarem-se humanamente impossíveis de serem transpostas. Quem quisesse levar o jogo adiante, tinha que filiar-se a uma dessas entidades criadas pela empresa, da qual recebiam instruções de como transpor etapas. Ainda assim, não se conseguia completar o jogo. Ele sempre era programado para não existirem vencedores, apenas jogadores.

Quando as vendas diminuíam, ele remodelava o jogo, criando novos conceitos e criaturas. No caso de esgotamento de interesse, um outro jogo era lançado, com a mesma estrutura, apenas diferenciado em seu teor e imagem.

Realmente, uma maneira muito estranha de se ganhar a vida, essa de vender sonhos e imagens fantásticas. As vantagens residiam no salário bom, acrescido de comissões sobre vendas e o fato de trabalhar em casa. Eram raras as ocasiões em que ia até a empresa, geralmente antes de uma renovação ou introdução de jogos. Seu contrato era renovado automaticamente, apenas acrescido de alguma vantagem que gostaria de usufruir. Trabalhar sem chefes e horários, alem de receber uma boa soma é o sonho de qualquer um. Apenas havia uma estranha insipidez em tudo isso.

A maior parte da programação ficava a cargo de outros. Ele recebia os programas, verificava-os e orientava os programadores. Para evitar piratarias, criaram um malote especial. Era muito perigoso passar essa informações pela internet. Hackers e xeretas pululam nesse mundo virtual.

Se embalara em jogos eletrônicos desde cedo. Vivera-os sempre, em todas suas etapas. Quando batiam-lhe recordações, não lembrava-se de pessoas ou amigos. Lembrava-se de telas, máquinas, fliperamas. Lembrava-se do formato de todos os monitores e vídeos, mas não conseguia extrair um rosto de suas memórias. Via-se grudado às máquinas, sempre. Se quisesse escrever um livro sobre jogos de todos os tempos, as informações estavam impressas em seu cérebro. Não haveria necessidade de nenhuma pesquisa. Quando olhava-se no espelho via um dinossauro que tinha sobrevivido às transformações de um meio ambiente virtual, adaptando-se constantemente. Seu próprio local de trabalho era um museu. Placas de todos os tipos, fitas e discos das mais variadas formas e materiais, máquinas que um dia foram sua fixação, estavam mal dispostos em prateleiras eternamente empoeiradas. À medida que renovava seu equipamento, deixava o antigo ali, não querendo vender por achar que talvez precisasse e sem coragem para joga-lo fora. Assim, eles iam preenchendo o espaço de sua vida, marcando cada etapa dela com uma sigla ou fabricante diferente.

Toda semana a faxineira pedia-lhe para limpar o local. Naquele instante, uma vontade de organizar os objetos aparecia. Pensava em catalogar e dispor em ordem o que ali existia, em um local adequado. Ensaiava alguma coisa parecida, mas a vontade dissipava-se logo e o provisório ficava como definitivo. A poeira debruçava-se sobre tudo, incluindo as marcas deixadas pelos dedos que se definiam apenas pela menor sedimentação.

Mas, ultimamente, algo o estava incomodando. O transe em que vivia quando produzia jogos estava acabando. Se antes quase não dormia para poder aproveitar melhor seu tempo, agora protelava para iniciar seu trabalho. Ia e vinha diversas vezes até o micro, vasculhava a net por por um bom tempo, arriscava-se em algumas salas de bate-papo, até bater-lhe a culpa de não estar fazendo nada produtivo. Penosamente, voltava às suas criações. Se não fosse a auto-disciplina que existia nele e a certeza de que não conseguiria adaptar-se a outro tipo de serviço, teria jogado tudo para o ar. Fazia tempos que não se entusiasmava com seus jogos. Não os vivenciava mais. Apenas os criava. Eles tinham deixado de ser parte dele. Agora eram apenas mais um produto para venda. Procurava meios de voltar a seu antigo estado de espírito através de recursos que povoam as revistas e livros de auto-ajuda. As tentativas eram apenas tentativas e, passado um certo impacto inicial, sua alma ficava mais deteriorada em sua determinação, buscando forças apenas na rotina diária a que se adequara. Também havia aquela estranha sensação de nada produzir além de inverosimilhanças e alienações. Analisava seus personagens, achando-os tão distantes da realidade, que passou a usar o cinismo para poder produzi-los. O seu cinismo incutia-lhes personalidades exageradas e semelhanças que buscava em pessoas que povoavam a mídia na busca de audiência a qualquer preço, mesmo que para isso precisassem corromper, deturpar ou enganar seu público. Os demônios são bonitos, pensava, eram muitos e tinham um nome: se chamavam legião. Políticos, produtores, apresentadores, artistas e aproveitadores da fé das pessoas tinham narizes, bocas e detalhes marcantes, reproduzidos em seus monstros e gladiadores do mal. Provavelmente apenas os próprios poderiam se ver em suas reproduções devido a sutileza com que os fabricava. Eles jamais ousariam expor ao público aquele alfinete que lhes enfiara em sua pele. Nos demais produzia a sensação de dejá-vu, de que precisavam elimina-los a qualquer preço, mesmo que fosse eletronicamente. Agora eles eram mais disformes, soturnos e inumanos do que jamais tinham sido antes. Isso passou a render-lhe elogios e vendas maiores. Naquilo que considerava sua decrepitude, outros viam uma renovação de genialidade. Se já tinha um nome corrente em seu meio, agora era visto como um exemplo de mentalidade criadora. Chegou a receber propostas quase irrecusáveis de outras empresas, mas foi retido por uma soma muito melhor e pela sensação de que estava próximo de seu fim como criador de rpgs. O dinheiro e a covardia mantiveram-no em seu lugar.

A madrugada estava terminando e com ela sua concentração. Era um animal noturno. Não conseguia trabalhar durante o dia. O sol produzia vontades de viver, a noite criava os seres fantásticos de seus jogos. Encerrou seu expediente.

Daqui a pouco iria correr. Depois tomaria um banho e sairia para algum lugar. Após o almoço dormiria até a noite e recomeçaria seu ciclo.