Primeiro dia

Primeiro dia

Menti quando disse que fui possuído por alessandrab na primeira vez que a vi. Quando cheguei na matriz, fui conduzido até uma sala por um segurança fortemente armado. Ainda eram tempos difíceis e as pessoas ainda não tinham restauradas aos antigos padrões. A economia renascia, mas a pobreza ainda era muito maior. Pobreza gera revoltas e conflitos e tinha-se que ajustar os cuidados aos níveis existentes.

Minha íris, minhas digitais e meu dna foram escaneados. Eram minhas senhas para os sistemas dos quais deveria cuidar. Quando terminaram, uma negra simpática chamada bornfree veio me buscar. Ela conduziu-me até a sala de julius_k, ditando alguns protocolos e regras que deveria seguir.

Foi ali que vi alessandrab pela primeira. Olhei-a, mas ainda não a tinha visto. Estava sentada displicentemente em um sofá ao lado da mesa de julius_k. Uma grande parede de vidro por trás dele mostrava a 2k em seu esplendor, da qual ouvira falar tantas lendas. Naquele dia ela me pareceu comum.

Mas julius_k não parecia comum. Minha lembrança dele coincidia com a imagem que via agora. Ele era uma lendanet. Diziam que não envelhecia, que não morreria, que não se podia toca-lo. Bornfree me dissera que ele cumprimentava as pessoas ao estilo japonês, pois passara uma boa parte da vida no Japão e adotara alguns de seus costumes. Quando o vi, colei meus braços em meu tronco e fiz uma reverência com a cabeça. Quando terminei, ainda o vi na sua mesura. Abalei-me um pouco. Pelo que sabia, o tempo da reverência estava diretamente ligado à importância do cumprimentado. Eu deveria ter permanecido mais tempo em posição. Eu estava dando vaca ou ele estava me elogiando?

 Alessandrab distraía-se vagamente com um palmtop. Usava a caneta rapidamente como se estivesse jogando. Achei-a, então, um tanto quanto presunçosa. Também fiquei levemente decepcionado quando ele me disse que eu iria cuidar do Módulo G, aquele que cuidava da segurança do sistema. Bloquear e localizar hackers e crackers não era exatamente uma tarefa que necessitasse de criatividade. O Nirvana impedia invasões e vasculhava, por satélite, o local de onde ela partira. Bastava apenas enviar uma mensagem fonada para um esquadrão de segurança residente e o infeliz seria caçado até sua localização. Nestes casos, era comum o isolamento de toda a área e o cerco até a captura final. Muitos poucos escapavam desse procedimento. Fora julius_k quem desenvolvera esse módulo sem a ajuda de mais ninguém. Era uma caixa preta total. Nada se podia acrescentar nele ou modificar sem que fosse através dele. Seria monótono. Mas, como dizia julius_k, geralmente temos que começar a subir a escada pelo primeiro degrau. Nesse mundo de deuses e deusas, eu poderia ser o menor, mas seria maior que todos os mortais.

 Bornfree que estava ao meu lado, quando percebeu que o discurso terminara e eu ainda não acordara de meus devaneios, agarrou-me pelo braço, afastou-me da presença de julius_k e me conduziu até minha sala.

 O prédio fora construído usando os desníveis do terreno. Havia escadas e elevadores em quase todas as salas e corredores. Quando a elevação era grande, escadas rolantes ao lado das normais podiam serem utilizadas. As paredes externas eram de vidro, como a sala de julius_k e mantinham a visão de uma natureza exuberante atrás delas.

 O primeiro a me cumprimentar foi mellojorge, que os zis chamavam de almofadinha. Em um mundo de calças largas, camisetas tortas exibindo as mais inverossímeis mensagens, óculos grossos e tênis folgados, ele vestia-se primorosamente como um nobre italiano. Ternos impecáveis, sapatos brilhantes, pulseiras e anéis, compunham sua imagem. Era muito fácil localiza-lo nesse planeta de uniformes estranhos. Cumprimentou-me no velho estilo, erguendo a mão e batendo na minha.

 -          Grande zi !!! Pessoas, olha quem chegou !!!

 Alguns dos zis ergueram-se de suas cadeiras para olhar pelo vidro que compunha a metade superior das paredes das suas salas. A maioria, na timidez de suas personalidades, foram saindo devagar e caminharam até aonde eu estava. Acho que conhecia todos. Ali estava o sucrilhos, a betazeta, o homem_aranha, o caveman, o kaxorroloco, o zepellin, a marciacosta, o delua e outros. Conhecia-os pelas fotos que circulavam na net, nas revistas e na televisão. Eu, ainda sem saber porque, entrara nesse mundo de deuses e deusas, que deveria ser chamado de Olimpo ou de Valhala.

 Alguns me deram boas vindas na mesura do protocolo e outros na linguagem manual dos zis. Sucrilhos me cumprimentou no estilo social, apertando-me a mão, não sem antes coçar sua cabeça aonde cabelos loiros e compridos emaranhavam-se em caracóis. Betazeta foi mais contundente, agarrando-me pela nuca e beijando minha boca. Os zis bateram palmas enquanto eu me sufocava pelo imprevisto. Avermelhei-me em tons fortes e fiquei sem saber o que fazer. Fui salvo novamente pela bornfree que arrastou-me por outros corredores. Ainda ouvia assobios, aplausos e alguns sapateados. Virei-me para ver o tumulto e betazeta mandou-me um outro beijo, colocando-o na palma da mão e soprando-o em minha direção. Fiquei mais sem jeito ainda com o acréscimo que esse gesto produziu no estardalhaço.

 -          São um bando de felizes, disse bornfree rindo. Não se preocupe com a betazeta. Ela sempre faz isso com os novos que chegam aqui.

 Ela me conduziu até uma sala aonde um zi estava debruçado sobre a mesa, como se estivesse dormindo. Era sumosama. Eu também o conhecia. Neste mundo em que predominavam os esquálidos, ele também se destacava por seu enorme corpanzil que recheava completamente o assento de sua cadeira. Bornfree colocou a mão sobre o ombro dele que produziu , imediatamente, um estremeção. Ele tateou a mesa à procura de seus óculos. Quando finalmente achou, encarou-me com um certo sorriso. Levantou-se com certa dificuldade e cumprimentou-me dentro do protocolo.

 -          Chegou o dia de minha libertação? perguntou a bornfree.

-          Acho que sim, disse bornfree, rindo da observação. Este é o ....

-          Claro que sei quem é o grande zi. Todos aqui o conhecem. Até fizemos um estudo sobre ele e concluímos que mais cedo ou mais tarde ele seria admitido na matriz.

-          Bem.... ele está aqui. Ele terá um treinamento mais profundo depois. Por enquanto, você deve transmitir a ele o que você sabe a respeito do Módulo G.

-          Isso vai ser muito fácil, disse sumosama, rindo.

 Bornfree deixou-nos. Sumosama apontou-me a cadeira com um gesto.

 -          Sente-se e fique à vontade.

 Os três monitores à frente rodavam números de algum arquivo.

 -          O que eu faço agora?

-          Basicamente nada. Tem que sentar e ficar esperando que algum hacker sem noção de perigo tente invadir o sistema. Se ele fizer isso, o satélite vai localizar o ponto de emissão e vai acionar algum posto de segurança próximo da área. Se capturarem o hacker, vão lhe enviar todos os dados do equipamento dele e você vai ter que analisar o programa que ele criou para tentar invadir o sistema. Depois, você deve enviar para o julius_k para que avalie e tome as medidas necessárias.

-          Só isso?

-          Aqui é o tédio, grande zi. Se gostar de ler, vai aproveitar o tempo. Busque os arquivos da biblioteca. Se quiser o papel, vá até lá. Se quiser brincar na net, fazer programas ou jogar, use o computador atrás de você. Nunca use a rede para isso. Bom?

-          Bom. Só isso?

-          Só isso, grande zi. Aqui é o por onde passam os pregos, sem querer ofender, grande zi.

 Prego era o termo que usávamos para os novatos. Não gostei por ele ter me dito isso. Era quase uma ofensa. Ele percebeu meu desconforto e tentou se desculpar.

 -          O grande julius_k diz que precisamos ser humildes para podermos aprender. Quem acha que sabe tudo fecha-se para novos conhecimentos. Não é assim? Em breve alguém virá substitui-lo. Sua vinda aqui está me dando a oportunidade de prosseguir. Você também terá essa chance. Basta ter um pouco de paciência. Perseverança somada às nossas outras qualidades gera frutos, não?

 Concordei com ele. As palavras de julius_k estavam grudadas às nossas mentes indelevelmente. Mesmo que achássemos que não eram verdadeiras, um dia descobríamos que faziam parte de uma verdade universal da qual ninguém pode escapar. Tentei puxar conversa.

 -          Eaê, grande zi. Qual seu próximo passo?

-          Vou substituir o almofadinha na Rede de Bancos. Ele foi convocado para o setor de Monitoramento.

-          Ele vai trabalhar com o grande kiko_nunes?

-          Vai sim, grande zi. Ele vai fazer coisas que ninguém fez antes.

 Betazeta apareceu na porta, segurando o batente, com o rosto dentro da porta e o corpo para fora.

 -          Vim lhe dar as boas vindas, grande zi.

 Ela entrou na sala, girou minha cadeira e sentou-se nos dois braços da cadeira por sobre mim. Fiquei aterrado com a posição em que ela se colocou. Retesei o corpo como se quisesse fugir.

 -          O grande zi está com medo de mim?

 Não tive palavras. Devia estar vermelho e, com certeza, estava paralisado.

 -          Hoje os zis vão dar as boas vindas a você. Vamos para a balada. Depois você vai ser minha prainha. Mas só hoje. Bom?

 Ela agarrou minha nuca novamente e beijou-me. Senti a saliva dela e sua língua procurando a minha.

 Acho que respondi porque ela saiu de cima de mim e foi embora. Olhei para sumosama procurando uma resposta.

 -          Não se preocupe com a betazeta. Ela faz isso com todos os pregos. É só essa noite. Depois ela vai te deixar por si. Ela gosta de parecer caliente. Só isso.

 Ainda fiquei sem entender. Sumosama respondeu-me quase aborrecido.

 -          O grande julius_k nos diz que temos manter nossa unicidade e nossa individualidade. Ambos devem coexistir dentro do contexto, sem que um afete outro. Desde que não haja prejuízos para os outros, podemos fazer o que quisermos.

 Ainda estava aturdido. Sumosama foi mais benevolente.

 -          Todos temos comportamentos diferentes. Betazeta gosta de parecer caliente. Não vá dar vaca nela porque ela vai tornar-se uma grande amiga sua, depois. É a mania dela. Que mal existe nisso? Você vai divertir-se e ela também. Ninguém vai sair no prejuízo, vai? Só não podemos infringir as regras báscias e os protocolos. Bom?

-          Bom, disse eu, tentando sintonizar-me com aquilo.

 Sucrilhos surgiu em seguida, com sua eterna caixa de cereais. Colocava-os maquinalmente na boca, um por um, e os mastigava lentamente.

 -          Grande zi, hoje vai ter balada para você. Depois do expediente, vamos para a cidade festejar. Tem um barzinho bom, aonde os zis sempre vão. Você vai gostar.

-          Bem estou indo, grande zi. Vou procurar o almofadinha, disse sumosama, saindo da sala.

 Fiquei um certo tempo com o sucrilhos. Depois dele vieram os outros zis que conversaram e brincaram comigo. Meu dia passou rápido.