Isolamento

Isolamento

A mãe de Angélica estava tentando retira-la daquele isolamento estranho. Embora não gostasse que ela desperdiçasse o tempo percorrendo lojas com as amigas, também não queria que ela ficasse como estava: trancada no quarto. Chegou até a pensar que fosse por causa de Marcos, mas eliminou a idéia lembrando-se de como ela fora educada para não viver paixões. Nenhum homem a abalaria. Ela, como si própria, teria um lar confortável, com um marido provedor de bom nível econômico, talvez um filho para dar continuidade aos genes e selar definitivamente um casamento. Uma vida sem muito atropelos, com amigas para algumas saídas, e, de vez em quando, uma pequena aventura sem conseqüências. Era o melhor que podia imaginar para ambas.

Pensou em leva-la para algum analista ou psicólogo mas isso poderia prejudicar a imagem dela junto às amigas e namorados. Quem iria querer relacionar-se com alguém que tivesse um parafuso a menos? Definitivamente, não. Provavelmente era apenas alguma fase passageira, uma confusão característica dessa idade ou algum vacilo. Nada que não pudesse controlar.

Quando notou que ela estava perturbada, quis trocar algumas frases com o marido sobre o assunto mas ele escondeu-se atrás do jornal e da televisão. Não era um assunto para ele resolver. Cabia a ela, como mãe e esposa, resolver os problemas da prole e da casa. Ele já tinha muito que fazer para garantir que a vida continuasse como estava ou torna-la mais confortável. Tinha negócios para resolver e não poderia perder tempo com isso.

Enquadrou-se no seu papel e tentou resolver a situação. A primeira providência foi fazer com que ela retirasse aquelas luvas horríveis que vestira. Não faziam parte de nenhum vestuário dos trópicos. Ela pareceria mais sã sem elas. Angélica relutou demais porém consentiu.

Levou-a para fazer compras no shopping, pensando em distrai-la, mas ela parecia horrorizada cada vez que tocava uma peça de roupa. Experimentou uma e desistiu em definitivo. Ficaram mais algum tempo olhando vitrines e, logo, Angélica convenceu-a a voltarem para casa. Enfurnou-se em seu quarto assim que chegaram.

Nem mesmo a companhia forçada das amigas, convidadas por ela em uma tarde, fez com que Angélica saísse de seu estranho mutismo. O que estaria acontecendo com ela?

Não tivera mais filhos, pensando nas conseqüências de nova gravidez. Não queria perder o resto da vivacidade e esbeltez de seu corpo. Além do mais, ficara nove meses como uma decrépita, sem vontades além das que tinha de se livrar logo daquele estado. Soubera de aventuras do marido nesse período e não queria correr riscos de ganhar status de separada. Não lhe caía bem. Apostara no sucesso de sua única filha e não poderia deixar que tudo se perdesse por alguma mania ou fase dela. Nascera uma vencedora social e não iria deixar que sua filha também não tivesse sucesso.