Medicina

Medicina

O Dr. Afonso olhava as radiografias com prazer. Inexistiam falhas nos ossos e as cartilagens pareciam como se fossem novas. Aquele novo medicamento estava dando resultado. Não só as radiografias mas também a aparência dos clientes mostravam a realidade de seu sucesso. O inconveniente para o paciente era a aplicação diária de injeções de dezoito a vinte e quatro meses. Apesar disso, ainda não conseguira descobrir porque o remédio somente fazia efeito em parte dos pacientes. Alguns tinham eliminada completamente a doença enquanto outros ainda a tinham em progresso degenerativo. Era difícil explicar mas deu de ombros – não era cientista. Era apenas um médico que tivera a sorte de aventurar-se com um produto ainda em fase de experimentação e que estava dando resultados.

Quis recusar a oferta do vendedor, quando este veio com uma proposta de usar seus pacientes como parte do estágio final das experiências com o medicamento. Além do risco, havia o empecilho do preço. Era muito caro. A maioria de seus pacientes não teria condições de sustentar o tratamento por períodos longos. Além do mais, não queria arriscar o pouco de reputação que conseguira na área. A concorrência era grande e manchas no desempenho não ajudavam a mante-lo naquele nível.

Agora estava mais contente. A certeza da cura, o tempo de tratamento e o alto valor envolvido iriam torna-lo rico. Quem não gastaria até o último centavo para se ver livre da dor? Mesmo aqueles velhos aposentados e antigas viúvas de rostos amarrotados que freqüentavam seu consultório, fariam o impossível para transformarem suas parcas aposentadorias em dinheiro exclusivo para ele. Com o tempo, poderia conseguir clientes de maior poder aquisitivo que não se furtariam em pagar o valor que representa uma cura.

Um pequena coisa o incomodava; as mudanças não se faziam sutis, vinham de supetão. O paciente mantinha um período sem mudanças e, inexplicavelmente, aparecia com todas as articulações e ossos restaurados. Parecia um milagre, se fossem possíveis.

Não só a ossatura mas, também, os músculos pareciam adquirir uma nova consistência. Não se disporia a enfrentar aquele velho sentado em sua cama, aguardando suas considerações, em uma partida de futebol. Ele parecia mais rijo do que jamais fora. Notara a agilidade dele no caminhar e instalar-se na mesa para exames. Não se parecia em nada com aquele senhor que nos dias dos últimos anos que aparecia ali, regularmente, claudicante e encurvando-se mais a cada dia. Embora o rosto fosse o mesmo, o corpo parecia ter adquirido uma nova força. Talvez tivesse que reduzir a dosagem e regularidade do medicamento para mante-los por mais tempo como pagadores do tratamento ou, então, estabelecer algum preço mais alto pela cura. Não estudara medicina para fazer o bem para a humanidade. Estudara para ganhar dinheiro e somente para isso. Cuidar da saúde dos outros é o melhor negócio do mundo. Cedo ou tarde todos precisam de cuidados e, quando chega essa hora, paga-se qualquer quantia para se curar. A simples promessa ou possibilidade de cura provoca nas pessoas credulidades e despreendimento quanto ao resto. Pensa-se somente em recuperar o que se perdeu. Aí, então, nada mais importa. Se alguém acredita que pode sarar através de rezas, donativos, remédio e tratamentos miraculosos, fará de tudo para sentir-se curado, mesmo que a doença esteja apodrecendo seus corpos. Mas, para se ganhar dinheiro com a doença não se pode cura-la definitivamente. Deve-se fornecer paliativos ou tratamentos que obriguem o paciente a gastar. Muitas vezes pensou se os laboratórios e centros de pesquisas não teriam as respostas para todas os problemas físicos. Se tivessem, deveriam estarem guardadas a sete chaves, sendo reservadas a poucas pessoas. Uma cura rápida não gera lucros. Uma cura demorada produz ganhos. Mais tarde, pensaria em como resolver esse problema.

Rui, sentado na cama, observava aquele médico idiota olhando para aquelas incompreensíveis radiografias. Ele não sabia de nada, de coisa alguma. Era apenas um desses doutores em que temos que confiar nossa vida para que a dor não a transforme em um inferno. Definitivamente, ele não sabia de nada.

Não existem remédios milagrosos que renovem a velhice. Não existem tratamentos que possam fazer com que induzam nossas células a regenerarem-se da mesma forma que fazem até o término de nossa juventude. Em algum ponto, em algum lugar, elas se cansam daquele corpo e não trabalham mais como deveriam. Produzem menos e piores filhotes que não trazem todas as qualidades das mães. São células relapsas que produzem o que chamamos de envelhecimento.

Não existem remédios mas podem existir milagres. Existem forças que não conhecemos que produzem resultados que esperamos. E uma dessas forças que comandam nossas células, estava dentro daquela menina de cabelo vermelho que os atendia na chegada. Tinha certeza que era ela que eliminara suas dores de velho.

Chegara em dias anteriores tão roído pela dor que quase não conseguira levantar-se da cadeira, na sala de espera, quando fora chamado para mais uma daqueles consultas intermináveis. Ela fora ajuda-lo, segurando-o pelo braço. Sentira algo percorrer suas entranhas e abalar seus ossos. A dor passara imediatamente. Levantou-se como há muito não fazia e seguiu até a sala do médico sozinho.

Não relacionou nada até sentir que, nos dias seguintes, não caminhava mais com dificuldades. Devagar, voltara a dar seus passeios pelos parques, cada dia menos temeroso em cair ou fatigar-se demais. Já não necessitava de ajudas para sair da frente da televisão e deitar-se na cama. Era humilhante demais ter que pedir braços aos filhos para sair de uma cadeira ou de uma cama. Até ensaiara alguns chutes com o neto mais novo. Seus músculos voltaram a ter a mesma consistência de quando era jovem, até um pouco mais. Até o filho mais novo, metido a esportista, deixara de remedia-lo, após uma pequena corrida no parque. Ele, esbaforido, suado, parara no meio do caminho, enquanto que, um velho e aparentemente alquebrado pai, ainda mantinha o pique, sem sinais de cansaço. Voltara a dançar, a passar as noites de sábado no clube de veteranos, aonde recuperou a coroa de rei da valsa. De estorvo passara a ser orgulho da família. Isso era bom, bom demais.

Só teve a certeza de que era a menina de cabelos vermelhos que produzira aquele milagre nele quando contou ao amigo Peres que, na crença dos que sofrem e procuram ajuda em qualquer canto, foi até o consultório e fez-se de vítima para poder ser tocado por ela. Algo também acontecera com ele e com os mesmos resultados. Deixaram de serem companheiros de sofrimentos e voltaram à antiga amizade de farras e cumplicidade.

Mantiveram entre si um segredo que, talvez, nem mesmo a menina de cabelos vermelhos soubesse.