julius

julius_k

Maria Cecília pululava na cabeça de julius_k como se fosse um vírus renitente. Tentava apaga-lo da mente mas sua imagem sempre voltava. Precisava descobrir em qual arquivo ele se instalara, deleta-lo e substitui-lo por um que não estivesse infectado. Queria sua antiga concentração de volta.

Surpreendia-se tendo sonhos acordados com ela, aonde não faltavam heroísmos e ardentes entregas. Cínico consigo mesmo, olhava-se no espelho tentando achar um traço de adolescência em seu rosto, uma espinha que fosse. Somente via um homem feito, muito mais velho que ela, sem atrativos especiais para uma sedução. Era um quixote procurando uma red sonja guerreira, incabível em qualquer literatura, jogo ou mente humana. Ela era o ápice de uma juventude e ele era o começo da decrepitude. Haveria algum intervalo em que seus tempos pudessem se encontrar? Existiria algum tipo de relação aonde pudessem se encaixar? Talvez apenas em seus sonhos idiotas de mentor de rpgs.

Também havia o fator 2k que tinha que levar em consideração. Não saberia o que aconteceria se a tocasse. Tinha medo de que, ao instalar a mente dela dentro da sua, descobrisse todas as variações infinitas que produzimos em pensamentos. Os homens valem pelo que fazem mas até efetivarem uma ação suas mentes produzem um trilhão de alternativas, anseios, desconfianças, pensamentos conflitantes e uma gama de sentimentos contraditórios. Temia a dor que seria produzida pelo que ela pensaria a seu respeito. Queria apenas aquilo que costumamos chamar de amor, traduzido em atos, sem o conhecimento das contradições do que pensamos sobre os nossos pares. Não queria disseca-la, apenas ama-la e ser amado.

Aquele sujeito que o levara até a 2k deveria ter-lhe dito o que aconteceria. Não tivera chances de recusa, se pudesse existir alguma. Ele retirara sua liberdade ao lhe dar aquele poder estranho. Estava deixando de ser ele mesmo e, em breve, nada restaria do que era. Apenas os sonhos que marired produzia em sua mente afirmavam sua identidade, de que ele era, ainda, julius_k.

Estava seguindo os conselhos de kiko_nunes, deixando, aos poucos, a reclusão maior em que se instalara. Permitia-se, devagar, sair pelas ruas ou interagir socialmente. Evitava o toque a não ser quando achava que valia o risco. Se alguém se mostrasse interessante, tentava sorver o que elas possuíam de mais íntimo: seus pensamentos e conhecimentos. Quase sempre não o eram. Na maioria das vezes, as pessoas eram apenas mais que comuns com os mesmos padrões de outras. Grande parte do conhecimento que tinham beirava apenas o normal, nada que acrescentasse muito ao que sabia. Se entusiasmara por uns dias com as profissões, tentando se tornar um master em todas as áreas. Aos poucos foi arrefecendo o ânimo, percebendo que poucos eram os segredos além daqueles adquiridos pela experiência ou bancos escolares. Quase todos limitavam-se a fazer o que lhes tinham sido ordenado, sem os questionamentos que incitam as descobertas.

Ultimamente tinha aprendido a manter o que recebia sob o domínio de sua mente. Seu cérebro tinha uma espécie de programa mestre que buscaria, quando necessário, os arquivos baixados em sua mente. Era eficiente, quando não se deixava influenciar pelo que recebia. No começo, os impactos foram tão fortes que adquirira as personalidades das pessoas que contatara. Chegou a pensar que nunca mais seria ele mesmo, que mudaria de acordo com os downloads, que nunca mais poderia ter uma personalidade própria. Agora, ainda não com total controle, podia receber o que cada mente continha sem afetar sua maneira de ser e pensar. Precisava apenas estabilizar o domínio que tinha e isso era uma questão de tempo.