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marta_moura
Pela primeira vez em muitos anos, marta_moura pediu férias. Não era o tipo de coisa que gostaria de fazer mas não viu muitas alternativas. Estava ficando insuportável a sua situação dentro da empresa. Irritadiça e ermitã, deixou de se coadunar com o cargo que exercia. Chegou a conflitar com o diretor geral, altercando-se e quase provocando sua demissão. Não se deve bater de frente com aqueles que detém o poder sobre nós. Embora soubesse que exercia um fascínio sobre ele, não suportou a quantidade de sonhos que ele desenvolvia dentro de si, usando-a como parceira.
Conviver com os pensamentos das pessoas podia ser útil mas era depressivo saber o que as pessoas pensavam umas das outras. Não havia carinhos, admirações ou sentimentos bons. Existia apenas o uso, a subserviência forçada, a desconsideração. As pessoas estavam juntas unicamente para sobreviverem e dentro disso apenas o intuito da escalada social. Todos queriam serem chefes da matilha, patriarcas ou detentores das primeiras bocadas em uma carcaça abatida por todos. Mas não eram somente os outros, ela também pertencia a esse contexto. Era mais um animal correndo atrás de carne, esperando o dia em que seria aquela que primeiro escolheria qual parte devorar. Era para isso que ela vivia: caçar junto com outros até impor-se como a matriarca de um clã.
Matar, comer, reproduzir-se, morrer, ser devorada por outros da pirâmide alimentar, seria o único sentido da vida? Nascemos apenas para nos alimentarmos e servirmos de comida para outros animais? Era isso o que nos restava depois de milhares de anos de evolução? Somente isso era o que sobrava dentro dos pensamentos das pessoas. Mas agora, elas tinham aumentado suas necessidades. Agora precisavam de mais itens de sobrevivência como eletrodomésticos ou formas caras de transporte. Precisavam mostrar aos outros que tinham sobreposto alguns degraus sociais. Precisavam afirmar-se individualmente dentro de uma massa cada dia mais sem identidade e sem nomes.
Tinha sido criada e se criou dentro desses conceitos. Sempre lhe pareceu que não havia outras alternativas. Sempre achara que era o único caminho. Agora tudo lhe parecia tão insípido, tão incolor, tão sem sentido. Se, ao menos, pudesse conversar com alguém sobre isso, dizer o que sentia e o que pensava. Se encontrasse alguém que lhe desse uma visão ou orientação sobre um caminho, poderia reequilibrar-se, mas não havia ninguém com quem compartilhar esse tipo de sentimento. Aqueles que a rodeavam, a julgariam fraca e desprovida de senso, além do que tinha medo de expor-se a eles. Pensou em julius_k e kiko_nunes mas não os tinha encontrado. Eles estavam desaparecidos do mapa de seu mundo e foram infrutíferas as tentativas para localiza-los.
Por enquanto, tentaria aproveitar as férias de maneira reclusa, tentando aprender sobre o que tinha recebido. Quando a coragem voltasse, iria procurar julius_k ou kiko_nunes.