\n'; document.write(barra); } } changePage();
Primeira noite
A Ninsu me forneceu um carro até que eu tivesse créditos suficientes para comprar um. Deram-me um apartamento dentro do edifício padrão da empresa. Todos os funcionários que não tinham casa moravam naquele prédio. Era simples por fora mas prático por dentro. Os chips de identificação que carregávamos sobre a pele nos abriam as portas e cancelas. Pouco antes de chegar à portaria, uma câmera nos identificava visualmente, os guardas confirmavam a presença e seguíamos em frente. Trazer alguém que não pertencesse a esse mundo era quase impossível. Havia uma série tão grande de regras e protocolos que qualquer um desistiria da façanha. Mais complicado ainda era conseguir permissão para aqueles que não tinham os chips. Era necessário uma bateria tão grande de testes e confirmações que ninguém se atreveria a isso.
Toda a Ninsu fora projetada para garantir a segurança do prédio, das pessoas que ali trabalhavam e principalmente dos sistemas mantidos, criados e aperfeiçoados. Para nós, aqueles que vinham das escolas, era tão comum essas regras e protocolos, que jamais falávamos sobre o assunto. Era tão normal como comer, beber e dormir.
Exceto a área central da cidade, aonde alguns antigos moradores insistiam em permanecer com suas propriedades, as demais pertenciam à Ninsu. Todas as fazendas e pequenos sítios que margeavam o Jacaré-pepira faziam parte do patrimônio da empresa. Grande parte delas foram reflorestadas com as espécies nativas. Introduziram alguns animais, mas a maioria veio refugiar-se ali por conta própria. Por um decreto, foi estipulado que ali seria uma área de preservação ambiental, a qual foi dado o nome de Parque Nacional Ninsu. Curiosamente, a Ninsu ainda manteve o status turístico da cidade. Nos fins de semana ou nas temporadas, a cidade enchia-se do barulho característico dos visitantes. Em tudo se permitia andar, exceto nos locais em que a Ninsu mantinha como área de segurança. Mesmo para um zi, havia lugares em que não se podia entrar.
Câmaras ocultas e a descoberto existiam em profusão. Mesclavam-se à decoração e ao padrão de cada ambiente. Sensores eram corriqueiros. Você sabia aonde cada pessoa estava e, muitas vezes, o que estava fazendo. Localizar um zi era uma das primeiras lições que aprendíamos nas escolas. Todos tinham um nome, todos se conheciam e todos estavam nos lugares que julgávamos estar.
Chegando em frente ao meu apartamento, a porta abriu-se automaticamente. Por hábito, confirmei meu protocolo pela íris. Caminhei até o quarto. Aonde eu passava as luzes acendiam-se, apagando-se aonde eu deixara de estar. O apartamento era enorme. Joguei-me na cama em triunfo. De pé, como criança, pulava quase até o teto. Estava feliz. Muito feliz. Era tão bom estar ali.
Fui dar uma olhada no meu novo domínio. Era grande, bem grande, maior do que qualquer espaço que tive, mesmo quando estava nas ruas. Tinha computadores espalhados em quase todos os cômodos. Na sala tinha um que era o padrão que usávamos: três monitores e suas CPUs, com um único centro de comando. Liguei-o mais por hábito do que por vontade de usa-lo. Um computador ligado, mesmo inoperante, fazia um zi sentir-se menos só.
A voz avisou-me que sucrilhos pedia permissão para entrar. Dei consentimento e ele veio, junto com sua eterna caixa de cereais, os quais mastigava sempre um por um, não sem antes coçar a cabeça. Mastigava um e coçava a cabeça. Mastigava outro e coçava a cabeça.
- Eaê, grande zi. Gostou de sua nova casa?
- Bom demais, não?
- Se é. O meu apartamento fica ao lado. Quando quiser se comunicar, é só teclar. Não gosto muito do viva-voz.
- Os demais moram aqui?
- Acho que todos os zis moram aqui. Acho que tem alguns masters também, embora eles prefiram ficar na cidade. Sabe como é, não? Eles não gostam muito de se misturar conosco.
Os masters foram o que restaram da antiga geração. Eram uma espécie em extinção. Eram antigos programadores, analistas, hackers, trackers e alguns tinham sido lamers. Depois do @3 e do Nirvana eles ficaram inúteis. Tudo aquilo que tinham aprendido e faziam, desapareceu de uma hora para outra. Alguns deles, usando a humildade que julius_k tanto apregoava, foram para as escolas e tornaram-se zis, mas a maioria manteve-se em seu tempo e preferiu assim. O que eles tinham a mais que nós era a experiência acumulada durante os tempos antigos. Certas coisas nunca mudam e eles tinham esse conhecimento. A maneira mais fácil de reconhecer um máster era pelo nome. Todos eles tinham mais de um, acrescido pelo de sua família. Acho que eles precisavam de mais de um porque muitos deles tinham nomes parecidos. Um zi tem apenas um nome que é sua marca registrada. Apenas um é o suficiente para identificar uma pessoa. Tornaram-se uma espécie de consultores, embora extrair informações deles era como tentar sugar uma torneira vazia. O mais certo para um zi era aproximar-se deles com humildade, tentar ganhar amizade e, aos poucos, obter os dados necessários. A grande maioria tinha família e porisso preferiam as casas da cidade. Acho que eles nos odiavam pelo que éramos e nós não gostávamos no que tinham se tornado. Um verdadeiro zi nunca pára de aprender e, se algum dia disser para si ou para outros – Eu sei tudo! , deixa de ser um zi.
- Vamos, então. A balada nos espera.
- Só vou tomar um banho, disse eu, vendo sucrilhos coçar a cabeça.
A maioria dos zis não se preocupava muito com a aparência. Barbas por fazer, que vinham desde a adolescência, cabelos nunca cortados ou tratados, cabeças raspadas, sempre as mesmas roupas, usadas para dormir e trabalhar, eram fatos corriqueiros, mas alguns evitavam banhos diários e outras formas de higiene. Para evitar quebrarem as regras e protocolos, programavam a voz para avisa-los desses detalhes. Quanto a mim, a minha estada nas ruas provocou traumas de sujeira. Toda manhã barbeava os poucos pelos que a adolescência produzia, tomava um banho demorado, colocava perfumes e, sempre, roupas limpas. Muitos dos meus créditos iam para pagar os serviços de lavanderia e limpeza. Tinha pilhas de roupas quase iguais, mas fazia questão de troca-las todos os dias, quando não o fazia mais de uma vez. Se estivesse aborrecido, deitava-me na banheira ou ficava horas no chuveiro esperando que a água carregasse consigo todas as minhas preocupações.
Quando saí do banheiro, aprontei-me e fui para a sala. Sucrilhos estava sentado em frente ao computador disputando um game. Bati em seu ombro, mas ele parecia não querer sair da frente da tela.
- Só mais um pouco, ele disse.
Aguardei apenas alguns minutos até ele terminar uma fase. Esses jogos não tinham fim. Se deixasse, ele iria parar somente quando ficasse esgotado física e mentalmente. Ele ficou me olhando como se pedisse permissão para poder continuar. Tive que acorda-lo.
- Vamos para a balada!
Ele deve ter se lembrado do porque estava ali e, só então, saímos.
Descemos até a cidade. Fomos até o Zanzibar que agora chamava-se simplesmente zi-bar, ponto de encontro de quase todos os zis que não estavam varando a noite em seus apartamentos grudados em seus teclados e mouses. Tinha sido construído por um dos masters que decidira abandonar a profissão. Originalmente era um ponto de encontro deles, mas com o declínio de seu número e com o aumento dos zis, o dono fora adaptando-o para nós. Em todas as mesas havia monitores quádruplos, bem no centro. Se não fosse usado, ele acomodava-se por baixo da mesa, fechando-se com uma tampa. Grandes telas nas paredes mostravam clips de cantores e conjuntos consagrados pelos zis. A maioria das letras eram fáceis e simples, acompanhadas de uma melodia que não produzia grandes emoções. Você podia escuta-las por horas sem que a sua mente se perdesse dentro delas. Ainda havia alguns antigos flippers que eram o deleite dos masters e dos zis. Não havia necessidade de raciocínio, as regras eram simples demais e serviam como uma espécie de lazer relaxante.
A medida que entravamos fomos saudados por todos aqueles que não estavam no transe eletrônico. Era tão bom ser reconhecido, ser cumprimentado pelo nome e dizer o de todos eles.
Sentamo-nos em uma das mesas aonde já estavam mariacosta, bornfree e kaxorroloco. Fui batendo em suas mãos espalmadas, de acordo com o costume dos zis. Pedimos alguns energizantes e algo para comer. Os masters ainda mantinham o costume de ingerir bebidas alcoólicas, mas os zis preferiam manter-se plugados todo o tempo. Geralmente elas continham muita cafeína e outros estimulantes. Em pequenas doses eram saudáveis e podiam fazer um zi passar a noite e o dia acordado. Em grandes doses podiam provocar um banzo contínuo em que podíamos executar muitos serviços, mas dentro de um torpor em que tudo o que estava à volta deixava de existir e que acabava em um súbito desligamento e imediato sono. Podia-se dormir vários dias sem que algo pudesse nos acordar.
Uma das lendasnet que circulava era a do zi fissura que se empolgara com um jogo e quis ficar na tela até termina-lo. Mas esses jogos nunca têm fim e ele foi energizando-se para não dormir. Passou três dias completamente acordado em transe eletrônico. Quando deram pela sua falta, foram até seu apartamento. Ele estava duro de morto, ainda com as mãos no teclado. Dizem que, por causa disso, os altos teores de cafeína foram banidos do mercado. Mesmo assim, se um zi quisesse, podia-se comprar algo mais potente que o normal em alguns lugares ou com as pessoas certas. Mas, como dizia o grande julius_k, tudo pode ser bom ou ruim, desde que se saiba como e porque usar.
Mellojorge e sumosama chegaram e sentaram-se junto a nós.
- Grande zi, você vai estragar minha noite, disse para sumosama. Depois, para nós, acrescentou – ele não quer me deixar em paz.
- Estou vindo na humildade, grande mellojorge, pedir seus conhecimentos. Você tem que ter a humildade para passa-los para mim, disse sumosama.
- Já disse que vou transferir o que eu sei para você, grande sumosama, mas não hoje.
Sumosama dirigiu-se a nós.
- Ele não quer me ensinar só porque arrumou uma prainha para esta noite.
- Só quero esta noite, grande zi. Amanhã eu me empenho com você.
- Mas ela vai gostar de aprender junto comigo. Não seja chato. Ela nem chegou ainda!
- Eu sei, grande zi, mas acho que ela não vai gostar. Mellojorge fez uma pequena pausa – Ela é de fora.
Ficamos um pouco em silêncio, pensando. Não era comum um zi arrumar uma prainha de fora. Era muito mais fácil arrumar companhia entre nós. Os que vinham de fora não nos entendiam e nós não queríamos entende-los. Nenhuma ou nenhum zi se negava a um encontro, desde que não fosse nada permanente.
Mas, mellojorge, assim como mariacosta, vinha de uma família. Ele não era com nós que tínhamos vindo das ruas. Era até compreensível que ele quisesse sair com uma prainha de fora. Também, e isso me deixava com um pouco de inveja, ele era desembaraçado, bem falante, não se vestia como um de nós e passaria facilmente por um deles.
Sumosama se deu por derrotado e saiu da mesa à procura de um flipper.
Quase dei uma vaca quando vi betazeta aproximando-se. Achei que era a prainha de mellojorge. Ela estava de saia, com uma leve maquiagem (havia um leve borrão de batom em seu lábio) e cabelos soltos. Não se parecia com a betazeta de cabelos presos por grampos, seios e formas escondidos por uma roupa larga, que subira em cima de minha cadeira, querendo parecer provocante. Ela sentou-se ao meu lado, não sem antes beijar-me de leve na boca. Fiquei embaraçado com as batidas que os zis deram na mesa, como se ela fosse um tambor.
Logo depois, mellojorge saiu da mesa para encontrar-se com a sua prainha de fora que acabara de chegar.