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Encontro
A choperia estava lotada. As vozes das pessoas lotavam o ambiente em um murmúrio confuso de festa. Não se distinguiam as palavras, apenas o ouvia-se o rumor álacre daqueles que querem um pouco de alívio das tensões do dia. Ouvia-se tinidos de vidros batendo contra vidros e o som chocho contra a madeira das mesas e balcão. Os garçons faziam malabarismos da profissão desviando-se dos que estavam em seu caminho, equilibrando perigosamente as bandejas por sobre a cabeça dos fregueses. Pensou na graça de uma situação se houvesse a queda de uma delas em alguém. Haveria correrias para limpar as pessoas e o local, com desculpas anexas ao processo. Alguém deixou um copo cair no chão produzindo piadas ou frases inerentes à situação. O leve tumulto concentrou a atenção de Júlio por instantes. Achou que não era o local mais adequado para uma conversa íntima. O ideal Júlio, seria estar em um local mais reservado, aonde pudessem falar com menos volume e mais intensidade.
Reviu as frases que gostaria de falar para marired e as respostas que gostaria de obter. Eram palavras tépidas, cheias de significados e esperanças. Nesse diálogo interno, havia simbiose e permeabilidade. Nada seria diferente de seu significado pleno e tudo se encaixaria como blocos de formas complementares. Se kiko_nunes estivesse certo e, se ele realmente pudesse ver o que aconteceria na frente de todas as vidas, marired se juntaria à sua alma.
Ainda atento ao resto do tumulto e com a mente perdida dentro de si mesmo, levou um susto quando a viu em sua frente. Era sua red sonja, sua guerreira. Suas frases fabricadas evaporaram e sentiu-se um inepto. Conseguiu balbuciar um olá misturado com uma boa tarde estranha. Ela sentou-se à sua frente, com as mãos sobre a mesa, tomando antes, o cuidado de deixar a pequena mochila pendente ao espaldar da cadeira.
Podia-se divisar sua armadura ninsuana debaixo da pele morena. Ela poderia feri-lo facilmente com suas armas de recusas e negativas. Ele, um Lorde da Guerra, não poderia suportar rasgos em sua amplidão de desejos de carinho. Seria derrotado mesmo que pudesse vence-la.
Júlio desviou o olhar profundo para sua boca, evitando seus olhos. Perdeu-se dentro de si. Não sabia mais como iniciar um diálogo. Perpassou-lhe a forma de atingi-la vendo o que se passava na sua mente. Estendeu a mão sobre a mesa, tocando a dela. Imaginou uma descarga elétrica varrendo seu cérebro mas nada aconteceu. Ela era imune a ele! Não podia percorrer as trilhas de seu pensamento! Não conseguia vislumbra-la por dentro!
Ele acordou para a realidade quando ela delicadamente retirou as mãos debaixo da dele.
A paralisia estava começando a tomar conta de julius_k. Fez um esforço terrível para soltar palavras vacilantes.
Ele podia sentir o desconforto dela. Queria estar longe dali naquele instante. Estava represando demais suas palavras. Elas poderiam explodir e sair sem nexo ou sentido, estragando qualquer tentativa de aproximação. Achou melhor deixa-la à vontade, sem pressões. Começou a perguntar sobre ela, de modo casual. As pessoas sentem-se melhor quando falam de si para os outros. Elas querem ser ouvidas e entendidas, estejam certas ou erradas. A necessidade de comunicação do ser humano é biológica. Não se pode lutar contra ela. Queremos mostrar o que somos para que as pessoas nos tratem com queremos ser tratados. Talvez, porisso, detestemos os calados, os quietos, aqueles que falam pouco de si. Eles não nos dão dicas de como devemos nos relacionarmos com eles. É nosso instinto de proteção atuando, pois não sabemos se estamos agredindo ou se seremos agredidos. Em algumas prisões do planeta, os detentos são colocados em celas individuais e proibidos de falarem a não ser por ordem expressa de seus captores. A pena não é os anos de encerramento e sim a incomunicabilidade.
Mas, a solidão auto-imposta e temporária também faz parte da santidade e da afirmação sobre nós mesmos. Os momentos de quietude, aqueles nos quais somos obrigados a estarmos somente com nós mesmos, aqueles que nos obrigam a pensar sobre direções que devemos tomar e o que devemos fazer, são os mais terríveis. Sem ninguém a fornecer um caminho ou pensamento, excruciamo-nos em espremermos soluções próprias e resoluções. Mas elas vem como um rio tímido que nasce na montanha e procura escoar-se entre rochas. Quando encontra uma depressão, ele acumula-se para ter um nível suficiente para descer novamente. Quando bate em um obstáculo, ele contorna-o para poder seguir seu caminho. Aos poucos, quando encontra outros rios de pensamentos, ele junta-se a eles para adquirir mais forças. Mais abaixo, nas planícies, é quase um caudal. Em sua trajetória vai adquirindo energias de outros, até chegar ao grande oceano do pensamento humano. É o momento supremo em que deixamos de sermos únicos e passamos a sermos o todo.
Ele quase não a ouvia, embevecido pelo seu rosto e seus gestos. Gravou-os repetidamente em sua mente, querendo mante-los sem corrupção em seus arquivos. Marcou palavras esparsas, fantasiando sobre elas, criando imagens e situações que sabia serem apenas virtuais. Ela estava absorta em si mesmo, aberta a divagações e discorrendo sobre si. Júlio percebeu que estava sendo usado apenas como um ponto de atração para desabafos. Se outro estivesse em seu lugar, ela falaria as mesmas coisas. Estar perto dela já era mais que suficiente, porisso, não se incomodou.
Ela saiu de si quando percebeu o vazio que se formava na choperia e a noite mostrava-se lá fora. Olhou o relógio mostrando surpresa, dizendo que já era tempo de ir embora. Ele insistiu para que ficasse mais (ainda nem falara de seus sentimentos). Ela recusou argumentando sobre horários de serviço. Ofereceu-lhe uma carona que, um pouco relutante, ela aceitou.
Tentou ser gentil abrindo a porta do carro mas esqueceu-se do alarme. O som estridente fez com que sentisse-se um idiota. Desligou-o e abriu a porta para que ela entrasse. Mais calada, ela foi indicando o caminho de avenidas e, depois, de ruas sinuosas e mal iluminadas. Entraram em um condomínio que alguns chamam de populares para mascarar a distância dos centros comerciais e a feiúra provocada por orçamentos baixíssimos. Nas ruas, grupos de jovens vestidos de acordo com a sua tribo, riam e falavam alacremente. Alguns idosos recostavam-se em cadeiras tentando fugir do calor de dentro dos apartamentos. Podia-se ouvir o som alto das televisões e dos cds que mesclavam tipos variados de música. Cada um parecia querer impingir seu gosto a outro através do alto volume. Finalmente, ela indicou-lhe um edifício mais afastado. Ele parou e desligou o carro. Tinha que ser agora, tinha que lhe falar.
Ela se despediu e fez menção de sair. Ele segurou-a delicadamente pelo braço, dizendo para que ficasse um pouco mais. Queria lhe falar mas nenhuma palavra saía. Olhou-a fixamente nos olhos, segurou-a com carinho e beijou-a. No início, ela consentiu, deixando-se ficar inerte. Quando começou a corresponder, subitamente afastou-o, mostrando-se surpresa, tentando descobrir o que estava acontecendo. Aqueles olhos em julius_k pediam explicações. Ele somente conseguiu balbuciar desculpas. Ela, com civilidade, tentando afastar o mal-estar reinante, despediu-se com um beijo em seu rosto, dizendo algo que ele não aceitava escutar. Acompanhou-a com seu olhar, enquanto ela desaparecia pela porta do prédio.
Fora infantil demais. Não avaliara a situação corretamente. Deveria ter deixado sua estupidez para mais tarde, quando ela pudesse aceita-la. Saiu devagar com o carro, tentando manter o controle. Ela não deveria escutar sua raiva através do som de uma rápida saída do carro. Um pouco mais longe, deu vazão a sua agressividade, passando velozmente por entre os jovens que estavam nas ruas. Escutou gritos distantes de protestos. Eles que fiquem nas calçadas, pensou.
Acelerou o máximo que podia, desprezando todos os sinais pelos quais passou. A noite parecia mais escura. Não existia luz suficiente para ilumina-la. Nem com a chegada do sol ela se dissiparia. Entrou no trevo que conduzia à estrada rangendo os pneus que tentavam manterem-se ao solo. O carro abaixou-se lateralmente procurando apoio na curva inclinada. Se ela fosse um pouco mais longa, teria que contar com a sorte para ficar vivo. Entrou na estrada com mais força, fechando o veículo que vinha pouco antes. Não lhe deu atenção, acelerando até encostar o pé na lata.
Saiu do transe quando deparou com as luzes do pedágio. Reduziu o máximo que pode. Quase avançou por sobre a cancela. A cobradora olhou-o com reprovação. Olhou ao redor para ver se havia rodoviários, pensando em uma possível multa ou repreensão. Um carro estava estacionado pouco alem mas o guarda parecia estar dormindo. Pagou e seguiu adiante, mais devagar, desta vez.
A sensação de impotência estava batendo, tentando entrar em seu peito. Existia um pedaço de metal afiado vasculhando uma fraqueza em sua pele, tentando enterrar-se em sua carne. Fingiu que a dissipou, tentando canalizar seus pensamentos para qualquer ponto em que marired não estivesse. Mas, por mais estéril que fosse o terreno em que eles pousassem, ela surgia do nada arrastando-os para si. Divagava sobre elétrons e neutrons, e ela aparecia no meio dos átomos. Sonhava com rpgs e, ela, com sua armadura ninsuana, repentinava-se combatendo monstros. Até na escuridão além dos faróis, ela flutuava em todas as direções. A solidão auto-imposta podia significar santidade mas a solidão da falta de amor doía demais.
Chegando em casa, jogou as chaves e documentos por sobre a mesa. Sentou-se à frente do computador, refúgio de solitários, procurando concentrar-se na produção de um jogo. Quatro ou cinco teclas foram acionadas em um espaço de tempo muito longo. Percebendo que não produzia nada, resolveu transformar o combatente principal em uma heroína. Procurou um corpo de mulher. Remodelou-o até achar que estava perfeito. Alongou as curvas, deu-lhe pernas mais longas e braços mais delicadas. Assentou cabelos curtos, quase channel e tingiu-os de vermelho. Deu-lhe um sexo sem pelos e seios firmes com bicos, cobrindo-os com uma vestimenta elástica e aderente, deixando as coxas e partes dos seios a descoberto. Pronunciou as curvas das nádegas, acrescentando uma bota leve e da cor da armadura. Embora soubesse que não as necessitasse, deu-lhe como armas uma espada e um arco. Uma aljava às costas e com a tira passando pelos seios completou o conjunto. Uma marired virtual não lhe bastaria, mas amenizaria o sofrimento de não ter uma maria cecília ao seu lado.