\n'; document.write(barra); } } changePage();
De volta
Paulinho recusou-se terminantemente a acompanha-los. Já tivera uma lição da vez anterior e não queria arriscar-se. Melão se fez de relutante mas aceitou. Drena, a enfastiada Drena, sentiu meio-gosto de prazer com a meia-aventura e acompanhou-os.
Rodrigo e Angélica caminhavam de mãos dadas quando podiam. Quando não, Rodrigo a tocava nas costas com os dedos. Queriam proximidade, queriam unicidade. Kiko Nunes respirava fundo entre uma enxurrada de frases ditas para todos e para ninguém. Agora, falar era necessidade básica e premente para ele. Júlio mantinha um rosto sem expressões, caminhando ereto, afastando galhos com as mãos, evitando abaixar-se. Marta Moura, atrás de kiko_nunes, respondia-o com monossílabos. Maria Cecília, ficara em seu quarto, no seu apartamento, afastada daqueles ou daquilo que pudesse perturbar seu repouso semanal. Júlio sentia a falta e a presença dela em si. Drena, a enfastiada Drena, assumia um posto de comando que lhe foi dado automaticamente.
Já se escutava o rugir da 2K. De longe ela gritava seu domínio, gerando imagens nas mentes através do som.
O sinal de chegada foi quando o chão despencou e uma rápida vertigem de abismo tomou conta de todos. Lá ela estava, escorrendo pelas rochas, ainda sem mostrar sua eleza e poder. Sua grandeza só podia ser divisada por aqueles que se atrevessem a percorre-la.
Drena foi preparando os equipamentos para a descida. Quando terminou, ajudou Melão a descer.
Rodrigo e Angélica deram um passo à frente. Estavam ansiosos demais para voltarem a ser o que eram antes. Drena ajustou a cadeira no quadril de Rodrigo, fazendo-o descer. Logo em seguida, fez o mesmo com Angélica, que desapareceu pedra abaixo. Marta Moura adiantou-se um pouco, ficou estática e sentou-se. Queria e não queria.
Marta Moura pensou em seus dias de trabalho, achando-os quase tão inúteis quanto suas pretensões a respeito de sua vida. Por fim, sentou-se na grama. Kiko Nunes postou-se ao seu lado. Drena, tentando divisar o que acontecia lá embaixo, espichou um canto de olho e um ouvido para a situação.
Foi então que julius_k falou, talvez o seu mais belo discurso, que kiko_nunes nunca esqueceu e um dia reproduziu.
Muitos homens usam O Livro e se dizem enviados por Deus. Alteram suas palavras e usam-nas em benefício próprio. Eles fazem as pessoas acreditarem que Deus fará tudo por eles desde que rezem com fervor e contribuam para a opulência dos seus supostos enviados. Usam Deus para nos colocarem em uma situação passiva e sob seu controle. Deus não precisa do nosso dinheiro ou de nossas preces. Deus precisa de nosso trabalho e de nossa força. Preces somente tem sentido seguidas de ação. Aqueles que usam O Livro para seu próprio benefício que sejam, então, julgados por ele, dentro de sua severidade.
A pobreza provém da falta da educação e do conhecimento. Dê aos homens a sabedoria dos livros e a sabedoria do pensar e todos teremos riquezas.
Os que colocamos à margem do conviver são os que mais podem contribuir para nossa expansão. A rebeldia deles pode provocar mudanças em atitudes e pensares. Aceite as suas diferenças, analise seus pensamentos e palavras, una-os com aquilo que já tem e você crescerá.
Os fortes somente tem razão na existência se protegerem os fracos. Os que usam de sua força para a opressão, que sejam tratados ao seu próprio modo.
Temos que eliminar a hipocrisia de nossas vidas. Ela nos conduz a lugares sem saída. A lógica deve triunfar sobre argumentos provenientes da má interpretação dos fatos.
As terras prometidas, os novos mundos, as novas eras, sempre estarão um passo a nossa frente. Seu mundo é aonde você pisa. Esse é seu lar. Aonde você está é seu território e sua vida deve girar em volta de seus pés. Seus sonhos são o passo além. O que você faz hoje deve ser coerente com o você pretende fazer amanhã. Estar em um lugar não significa que você deva ser estático. A vida é movimento e para viver você deve percorrer todos os caminhos que quiser ousar.
Quando você descobrir que pode morrer, você começará a viver. Sabendo que tudo pode se findar, você aprenderá a fazer agora o que tem que fazer. Mesmo que você acredite que vai viver novamente em outra dimensão ou local, você tem que acreditar que o amanhã não existe e que ele pode não chegar. Seu maior presente são seus minutos. Tire proveito de todas suas alegrias e tristezas. É o que lhe sobrará quando estiver sozinho e sem esperanças.
Damos importância demais às nossas lágrimas. As lágrimas são ladras que nos roubam tempo precioso. Chore quando tiver que chorar mas faça o que tem que fazer. Que suas lágrimas sejam o combustível de suas ações.
As pessoas acreditam serem aquilo que possuem. Tirem suas coisas e elas não serão nada. Dê a elas uma alma e um motivo para viver e elas serão pessoas. Dê a elas algo em que acreditar e elas aprenderão a viver além de si próprias.
A natureza exige que se evolua. Chegou o tempo de trocarmos o nosso corpo e nossa mente. As portas se abrem e fecham lentamente, mas são inexoráveis. Aqueles que a transporem ficarão, os que se deixarem aquém farão apenas parte de uma história antiga.
As portas estão ao longo de todo caminho. Aqueles que devem morrer são os que tentarão abri-las. Cada porta exigirá sacrifícios. Os que conseguirem não devem se esquecer daqueles que não tiveram sucesso mas aplainaram um pedaço do terreno. Uma estrada é feita por etapas.
O planeta está pequeno demais. Os vales, os rios, as barreiras humanas, não podem mais separar as pessoas. Que cada um seja diferente mas que todos sejam iguais na humanidade.
O homem ama a vida mas somente descobre isso quando encara a morte. As transformações que sofremos surgiram da morte. Quando alguém morre atropelado, descobrimos que aquele local era perigoso e precisava de um sinal. Um ditador chacina milhões e somente então descobrimos que ele precisava ser retirado do poder. Pessoas morrem e somente depois descobrimos o que precisamos fazer para que outros não pereçam de modo igual. Precisamos aprender a vislumbrar o futuro, as possibilidades. Não devemos deixar ao acaso aquilo que sabemos em nosso íntimo que acontecerá. Precisamos crer em nós mesmos e agirmos na hora adequada.
Amamos o sacrifício de outros em prol de nossas causas porque isso nos livra da culpa de não termos agido. Julgamos que essas pessoas nos são superiores porque fizeram aquilo que nós próprios deveríamos termos feito. O sacrifício de outros deve servir de exemplo para ação e não somente para adoração. A verdade é que o próximo passo em nossa evolução implica necessariamente em fazermos o que tem que ser feito. A responsabilidade é nossa. Quem tem que agir somos nós.
Não queremos ver o desespero dos oprimidos. Quando eles se revoltam, tentamos trancar nossas portas e colocamos grades em nossas janelas. Achamos que isso impedirá que soframos a violência que eles sofrem. A verdade é que eles não tem nada, mas tem quantidade, tem volume. Quem pode segurar águas de uma represa quando elas rompem as barreiras? Quando o mar dos necessitados se revoltar, não existirão locais seguros. O mar invadirá o que quiser e somente então nos perguntaremos o que deveríamos ter feito para isso fosse evitado. Mas nesse tempo não se poderá fazer mais nada. O que tem que ser feito é agora.
Para alguém ganhar muito, muitos tem que perder. Muito deturpa as pessoas, nada gera revoltas. É justo que todos ganhem o seu quinhão justo e aprendam a se satisfazer com isso.
Chegamos ao máximo em que uma espécie pode evoluir. Estamos no topo da cadeia alimentar mas chegou o tempo de mudar para que não pereçamos. Toda vez que uma espécie atinge o máximo de sua capacidade, ela se torna altamente destrutiva e consequentemente autodestrutiva. O tempo do homo sapiens acabou. É o momento de sairmos dessa casca e construirmos outra para podermos seguirmos em frente. As barreiras que nós colocamos para nós mesmos somente poderão serem removidas através da evolução. Evoluir significa melhorar, recriar-se, adaptar-se, ser diferente do que existe.
Cada passo que se der, de agora em diante, que seja para acrescentar um pouco mais de caminho aos nossos pés.
Drena, ouvidos atentos, olhos no abismo, pensou consigo mesma:
"Ê, gostosura de fim de mundo..."