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Encontro II
Kiko Nunes tinha conseguido dobrar marired com muita conversa. Ela não queria nenhum outro encontro com julius_k. Tinha suas razões, dizia, mas acedeu forçada pela insistência.
Desta vez julius_k levou-a no La Bejana, um local mais calmo e próprio para conversas mais íntimas. Foi busca-la próximo à sua casa, longe dos olhares dos curiosos do condomínio, no sábado à noite. Ela entrou no carro, instalando-se quase próxima à porta mas a curvatura do banco fê-la aceitar a posição natural de passageiro. Podia-se perceber que ela queria manter uma certa distância.
A guerreira de armadura ninsuana vacilou quando o garçon deixou o menu. Olhando por sobre o cardápio, julius_k viu a dificuldade que ela tinha em escolher o prato. Delicadamente, sugeriu a especialidade da casa, tecendo elogios ao sabor. Ela consentiu, quase em alívio. Ela estava desconfortável, sentada na cadeira, não sabendo o que fazer com as mãos ou com os olhar fixo de julius_k sobre ela.
No espaço de tempo entre a entrada dela no carro e aquele momento, a conversa tinha sido forçada e sem atrativos. Para soltar as palavras, ele pediu um vinho de sabor leve e agradável à maioria dos paladares. O álcool deixou-a mais à vontade e a ele menos tímido.
Na primeira vez, julius_k induziu-a a falar sobre si mas agora era ele quem teria que se mostrar. Começou a falar sobre o que fazia, tentando produzir pontos comuns de interesse. Falou sobre sua vida, suas esperanças, as noites quentes e frias que passava na frente do seu micro, produzindo jogos estranhos. Também lhe falou sobre sua guerreira com armadura ninsuana e armas rasgantes. Para não parecer um infantil, deu números de vendas e alguns valores, falou de mercados e estatísticas. Ela ouvia-o entre uma garfada e outra, quase sem perguntas. Se não fosse o fato de estar dentro de si, ele perceberia que as palavras chegavam apenas aos ouvidos dela, sem forças para produzir qualquer reação em sua mente. Ela apenas o ouvia.
Saindo de si, percebeu que quase não tocara na comida, enquanto ela já terminara. Comeu um pouco e afastou o prato quase cheio para o lado da mesa. Olhou-a para dentro de sua alma através de seus olhos mas não divisava o que queria. Havia uma barreira na opacidade deles, fruto do desligamento dela. Pensou em ser direto mas o garçon o interrompeu, perguntando se estavam satisfeitos. A pouca coragem que tinha reunido para declarar-se foi junto com os pratos que o garçon levou. Voltou-se para dentro de si, atento apenas ao seus pensamentos.
Acordou do silêncio quando ela disse-lhe que era o momento de irem-se. Jogou algumas notas por sobre a mesa, não querendo esperar que lhe entregassem a conta.
O retorno foi de um doloroso silêncio envolvido pela noite. Os faróis dos carros que passavam pareciam lanças de luzes que atravessavam seu coração. Suas defesas tinham caído; o campo de força que sobrara em volta de si apenas impediam sua morte. Não lhe restavam muitas vidas. Teria que fugir, reenergizar-se para voltar a atacar, mas a vontade de morrer, de afundar-se em poços de alcatrão, de pular abismos, mantinha-o de frente para o inimigo. Em breve, tudo estaria acabado. Game over.
Parou o carro em frente ao edifício aonde ela morava. Tentou um último lance. Sua voz lutou para ser ouvida.
Os olhos dela pareciam cansados.
Um por quê esganiçado saiu de sua garganta.
O dardo varou-o, produzindo um pequeno caminho em seu peito mas rasgando suas costas na saída. Tentou manter um resto de dignidade, numa mal disfarçada indiferença.
Ela sorriu e saiu do carro. Ele seguiu olhando apenas para a frente, evitando uma última imagem de marired. Manteve a velocidade do carro baixa, procurando mostrar a si mesmo um controle que não existia. Disfarçou pensamentos, argumentando e teorizando sobre o que acontecera mas a emoção ganhou pontos sobre seu corpo. Parou o carro em um local aonde não pudessem vê-lo, colocou as mãos sobre o volante e chorou todos os rios do mundo. Sentiu o gosto das céleres lágrimas em sua boca e a congestão em seu nariz. Estava tentando extrair suas amarguras através das águas. Águas que deveriam ser iguais a de todos os desesperados do mundo.
Quando secou, uma paz desceu sobre ele. A paz dos que não tem mais nada a perder. Respirou fundo, olhou para a noite carregada de negro, a estrada vazia. Não havia mais nada a fazer. Tinha que assumir aquilo para o qual alguém o destinara. Se ele era um dos que tinham que morrer, então que assim fosse. Se ele era um daqueles a quem se reserva um dever, então que assim fosse. Se ele era um daqueles a quem a solidão provoca atitudes, então que assim fosse.
Kiko Nunes tinha razão: no final, somente os homens das montanhas sobreviverão. Somente aqueles que estiverem longe dos mares da ignorância resistirão. Os puros, os que sabem usar da melhor forma o que os rodeiam, aqueles que mantém-se saudáveis de alma e procuram fazer com que seus corpos também sejam, sobreviverão. Estes sobreviverão. As montanhas sempre foram o refúgio dos perseguidos, dos que não podem defenderem-se da massa, das súcias. É nelas em que os homens valem pelo que são, não pela sua quantidade. As montanhas tiram de nós o tamanho que nos damos e nos reduzem aquilo que realmente somos. Elas nos dão a proporção exata de sermos humanos, quebram nosso orgulho mas produzem uma dignidade que antes não tínhamos. É nelas em que aprendemos a tratar aqueles que estão ao nosso lado como um igual. É nelas que descobrimos que, para sobrevivermos, dependemos de nós e de quem estiver ao nosso lado. Aprendemos a cooperar e não a usar as pessoas.
É, kiko_nunes tinha razão. Somente os homenscaius_c das montanhas sobreviverão. Aqueles de fazem de suas fraquezas suas forças, aqueles que aprendem a conviver com a imensidão do universo, aqueles que assumem o que realmente são, estes sobreviverão.
Não existe mais espaço para os solitários, os grandes heróis, os melhores momentos. Existe somente espaço para os que aprendem a conviver com os outros, aqueles que lutam suas pequenas batalhas anônimas e diárias, aqueles que amam os milésimos de segundos mais banais. Para estes existe redenção e futuro. Essa é a única direção para aqueles que não tem caminho.
Limpou o pouco de lágrimas que embaçava seus olhos e seguiu para casa.