Manhã I

Manhã I

Marta Moura ficava enfastiada nessas reuniões idiotas: homens tentando mostrar capacidade em puerilidades. Debatiam assuntos procurando soluções surpreendentes ou apenas querendo expor outros ao ridículo, tentando desviar a atenção de suas falhas. Não raro, perdiam-se do assunto original, esquecendo o objetivo verdadeiro.

Havia um padrão, um roteiro quase inalterado: alguns problemas surgiam, as rotinas se desfaziam, hostilidades apareciam e alguém convencia o chefe a marcar uma reunião. Todos enchiam-se de papéis, gráficos, representações e testemunhos contra os demais, assegurando que em seu setor não ocorriam falhas, apenas nos dos outros.

Sempre começavam tensas, com as pessoas procurando se exporem o menos possível. Em determinado momento, alguém indicava falhas em algum ponto que não era de sua autoridade, fazendo com que ocorresse uma reação contrária de imediato. Quando chegava ao nível de simples disputa verbal, o chefe batia na mesa, tentando restaurar a ordem. Acusações e defesas, pilhas de papéis, café e água na mesa, isso resumia uma reunião.

Muito antes de sua idade atual, quando era convocada esporadicamente, sentia os ânimos acirrarem-se pela sua presença. Ainda não aprendera a se vestir no meio termo que define uma executiva: sobriedade sem deixar de mostrar suas feminilidades. Aparecia vestida como mulher, com as suas exuberâncias. Quando algum deles produzia alguma frase de efeito ou mostrava resultados miraculosos, a olhava diretamente como um flerte. Talvez machos instintivamente competindo por uma fêmea.

Mas uma mulher, sozinha em meio a tanta testosterona, tem que se adaptar para não ser vista apenas como uma mulher. Ela tinha o poder; podia escolher qualquer um deles, mas preferiu ser vista como um deles. Queria ser vista como detentora de territórios e poderes. Mudou suas roupas e seus hábitos. Prendeu o cabelo que amava tanto, mas não esqueceu-se de deixar pequenos talhos e tecidos colados ao corpo para evidenciar sua condição. Misturou-se a eles, sem deixar de ser ela. Então, passou a novas graduações.

Homens não crescem nunca, sempre continuam meninos, com suas brincadeiras, folguedos e pequenas guerras entre si. Mulheres são práticas, mestras na sobrevivência. Elas tem que manterem suas proles longe dos azares da vida, porisso tem que serem fortes. Isso está escrito em seus genes.

Os homens são educados por mulheres. Talvez a figura materna seja a que eles mais temam ou respeitem. Sobriedade na voz e verbos imperativos ditos por mulheres conduzem homens em seus caminhos. Mas, elas se perdem quando confundem seus destinos com os dos homens que amam. Elas se perdem quando passam a dependerem exclusivamente das habilidades de seu par. Elas se perdem quando se esquecem que também são indivíduos.

Fez um ato deslocado de soltar os cabelos para fugir da monotonia da reunião. Sentiu-os roçarem sensualmente em sua nuca e pescoço. Os homens detiveram-se por instantes, olhando-a novamente como fêmea. Voltou à neutralidade prendendo-os devagar, casualmente, saboreando o fascínio que exercia sobre eles.