Betazeta

Betazeta

Betazeta me levou no seu carro até seu apartamento. Não me lembrava se tinha vindo com o meu ou se estava de carona. Mas isso não tinha a menor importância. Se o meu carro estivesse no estacionamento do zi-bar, eu pediria para algum segurança busca-lo durante o dia. Também não me lembrei de quem tinha pago a conta. Estava tão perdido dentro de mim que esqueci o que rolava por fora. Também não me preocupei muito. Antes de entrar, todos tinham se identificados pela íris e, com certeza, o dono já devia estar enviando a solicitação para débito em nossas contas.

 Entramos no apartamento. Era igual a todos os outros, com a mesma disposição de móveis e computadores. Resolvi tomar um banho. Fui aumentando a temperatura até sentir um torpor relaxante. Fiquei minutos debaixo daquele calor até não suportar mais. Lembrei-me que tinha que estar ativo e solicitei uma ducha fria. Imediatamente a água tornou-se gelada e o choque térmico me energizou de novo. Saí tremendo do chuveiro. Enxuguei-me e amarrei a toalha em meus quadris.

 Fui até a cozinha. A porta da geladeira estava aberta e um led vermelho piscava, exigindo que ela fosse fechada. Peguei um energizante e fechei-a, antes que a voz nos obrigasse a fecha-la, com a sua insistência monótona. Betazeta estava escorada junto a um pequeno balcão tomando um energizante. Pelo tipo de lata, devia ser um E+.

 - Estou com sono. Preciso me manter ativa. Faz alguns dias que não durmo, ela disse, olhando para algum ponto vago.

 Assenti com a cabeça. Nada mais comum para um zi.

 -          Fique à vontade. Só vou tomar um banho, disse-me, olhando em minha direção, em algum outro ponto vago.

 Fui até o quarto dela. Era simples, com um visual leve e poucos objetos. Exposto havia apenas um porta-retrato com a foto de betazeta e um castiçal no formato de um anjo com uma harpa, em tons gelo e ferrugem, com velas aromáticas. Um computador estava assentado em uma mesa de mogno claro, quase marfim. Uma grande televisão estava pendurada em uma parede por um suporte perto do teto. Uma das paredes tinha sido pintada de azul (as demais eram brancas) e nela estavam engastadas estrelas de gesso e uma meia lua, pintadas de prata. Não tinha tapetes ou cortinas porque, mais tarde eu soube, ela era alérgica. Junto à janela, um telescópio apontava para cima. Tentei olhar o céu, mas a lua cheia impedia, com sua luminosidade, que eu visse as estrelas.

 -          Gosto de ficar olhando o céu, disse betazeta.

 Levei um susto. Não a tinha visto chegar. Estava displicentemente nua, tentando secar os curtos cabelos, esfregando-os com uma toalha. Quando julgou que tinha tentado o suficiente, largou-a sobre o chão e foi até onde eu estava. Com as mãos, suavemente, me empurrou para a cama, deitando-me de costa.  Sentou-se sobre minhas coxas, curvou-se sobre meu magro peito, tocando-o levemente com a ponta do nariz.

 -          O grande zi está cheiroso, disse-me.

 Acho que transamos duas ou três vezes. Não me lembro. O dia estava tão cheio de emoções e novidades que meu cérebro recusava-se a manter-se ordenado. Não havia clareza em nada que eu fazia. Parecia que uma nevoa embaçava meus sentidos, meus atos e minha memória.

 Estendida de bruços, com as mãos apoiando a fronte como um travesseiro, olhando para o outro lado, ela me tirou de um quase sono, com suas palavras. Na penumbra do quarto eu ainda podia divisar suas nádegas achatadas.

 -          Gosta do céu, grande zi?

 Nunca pensara nisso. Passara uma parte da vida tentando sobreviver e a outra na frente de um monitor.

 -          Não sei, grande zi. Acho que nunca olhei para ele, respondi.

 Ela estava vagando em alguma bruma.

 -          Quando estava nas ruas, a única coisa que podia me proteger era a escuridão. Quando parecia que eu nada podia enxergar e o medo surgia, eu olhava para os céus e ficava contando as estrelas. A noite passava rápido. Mas quando vinha o dia, eu ficava exposta e sem abrigo. As ruas são cruéis, especialmente para uma menina e os homens podem ser ruins, muito ruins, com uma menininha.

 Beijei-a no ombro, fiz com que ela se virasse e pousasse sua cabeça em meu tórax, como se meu magro peito pudesse defende-la de qualquer coisa. Ela aconchegou-se a mim, pousando uma das pernas nas minhas coxas e encostando-se quase inteira. Era bom sentir o calor dela. Comecei a afagar seus cabelos quase secos.

 -          Bom foi o dia que julius_k me tirou de lá. Na hora pensei que ele era apenas mais um deles. Segui-o mais por medo do que por vontade. Era dia e eu estava exposta. Queria muito sobreviver e faria qualquer coisa por isso. Se a sorte existe, acho que a tive naquele dia. Ele me deu chances.

 Era a história de muitos zis, daqueles que não vinham das famílias.

 -          Aconteceu comigo também, grande zi. Ele também me deu chances. Não devemos deixar que o passado impeça nosso futuro, disse, repetindo uma das frases de julius_k.

 Ficamos enroscados até o sol entrar pela grande janela. Ela pulou da cama e foi vestir-se. Tomei um rápido banho frio, mas desta vez não foi o suficiente para me deixar plugado. Betazeta me jogou um E+. Não gostava de beber aquilo porque sabia de seus efeitos, mas julguei que não tinha outra solução. Em poucos minutos, senti meu cérebro fervilhar.

  Ela agarrou minha nuca e me beijou na boca.

 -          Hoje você foi minha prainha, mas a partir de agora não é mais. Essa noite foi nossa mas ela terminou. Bom?

-          Bom, grande betazeta. Você foi maravilhosa.

 Ela sorriu e me levou de carro até a Ninsu.