Manhã II

Manhã II

Maria Cecília encolheu-se o mais que pôde no exíguo espaço. Em pé, braço levantado segurando o varão do ônibus para não cair, colocou-se colada a um dos bancos, a perna direita entre o passageiro sentado e o banco da frente, a outra no corredor. Com a mão direita segurava a alça da bolsa, prendendo-a contra o corpo com o cotovelo.

A cada solavanco, o sujeito que estava atrás encostava-se nela, levemente. Sentia seu cheiro de suor repisado e o de cachaça recente. Queria afasta-lo de si, mas o ônibus estava terrivelmente lotado. Outros passageiros subiam continuamente, empurrando os demais para a frente, mas ele não se movia. Presa entre os bancos e ele, guardou a raiva para si, esperando que seu destino chegasse logo.

Em um dos bancos, um rapaz lia um livro por sobre um caderno. Talvez tivesse prova na escola. Maria Cecília não podia deixar de pensar em como ele conseguia ler com tantos movimentos bruscos. Vez ou outra um celular tocava e todos convergiam seus olhares para aquele ponto. Na maioria das vezes não havia discrição em quem o atendia sobre o assunto. Falavam alto tentando se fazerem entenderem ou apenas para mostrarem-se. Podia-se imaginar o que dizia quem estava do outro lado da linha pelas respostas ou pelas frases do dona ou dona do celular.

Os que pegavam o lotação no começo da linha, sentavam-se junto à janela, evitando aquele roça-roça dos que ficavam na linha do corredor. Os que passavam, não raro, batiam suas pernas em cotovelos desavisados.

Sentia perfumes baratos e abundantes, misturados com toda gama de cheiros humanos. Parecia não haver limites para essa miscelânea. Tinha sorte quando ficava perto de alguém inodoro ou com aquele leve odor de banho matinal.

O comum era aquele mirar distante que coisificava todos ao redor. Ninguém se olhava de frente. Talvez isso fosse considerado uma ameaça ou envolvimento. Aquele espaço que determinamos como que exclusivamente nosso era constantemente invadido. Talvez pelo fato de saber que era um situação provisória e de curta duração, as pessoas procuravam amorfar-se como se fossem objetos tentando evitar agressões ou revides.

Mais raro eram conversas dentro do lotação. Talvez vizinhos ou amigas da rua, que tiravam o dia para bater pernas. Podia-se perceber que não eram habituais pela sua alacridade e indiferença ao desconforto. Estavam apenas de passagem e não sentiam o peso da obrigatoriedade de enfrentamento diário daquela situação.

Quando você coloca ratos demais em um pequena caixa, eles tornam-se mais agressivos e vão eliminando-se mutuamente até que o espaço seja suficiente para cada indivíduo. Precisamos de contato mas também precisamos de privacidade, de um território somente nosso. Empilham-se pessoas em exíguas moradas, as espremem em coletivos e ainda querem que se comportem como gente normal. A moral dos que podem, que é dada aos que não podem, é muito estranha. Faz-se o mínimo para que a panela de pressão não exploda e surpreendem-se quando algum ato isolado de selvageria é cometido contra eles. Aí eles se perguntam o por quê e não conseguem atinar com as respostas. Aí eles dizem que é preciso fazer algo mas não conhecem outra maneira além da violência, e tentam colocar mais um ferrolho na panela para que ela não arrebente o teto de suas casas. Mas esse ferrolho é suficiente apenas para aquele momento, pois a pressão continua subindo, subindo e subindo. Logo vão precisar colocar outro e mais outro, até que não exista mais espaço para eles e reste somente a certeza de que tudo irá pelos ares.

Quando chegou ao seu ponto de parada, sentiu-se novamente como a secretária do Dr. Afonso, reumatologista, cuidador de ossos e tendões. Saindo do lotação, alisou sua saia e blusa, querendo recompor-se e eliminar aquela sensação de sujeira que lhe ficara.

Foi até uma lanchonete comer um pão de queijo e tomar uma média. No espelho angular perto do teto viu-se levemente arqueada. Endireitou-se. Postura é primordial. Seus cabelos curtos e batidos tinham o vermelho amarronzado das tinturas. Sentia-se deliciosamente chique e vulgar com aquele corte e cor.

Foi até o consultório olhando as vitrines que expunham desejos e transeuntes distorcidos.