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Manhã III
A mãe rugia horários e Angélica ainda não se decidira qual blusa usar. Com a pressão materna, decidiu-se por uma que evidenciava as marcas do sutiã de rendas. Olhou-se novamente no espelho, arrumou os cabelos e saiu do quarto.
Na mesa posta para o café da manhã, reclamou a falta do pão de glúten e leite desnatado. A mãe olhou-a de soslaio, esforçando-se para não responder. Deixou pela metade tudo que pegou para comer. Foi até o banheiro escovar os dentes. Repassou sua imagem no espelho até ser incomodada novamente pela mãe. Apressou-se, forçada, até a garagem. No carro, colocou seu material escolar no banco lateral. Abriu sua bolsa, conferindo o conteúdo. Tirou um batom e retocou seus lábios. Olhou-se no espelho, aprovando-se e saiu.
No caminho, nos sinais vermelhos, sorria generosamente para aqueles que a olhavam em flerte ou curiosidade. Um rapaz acompanhou-a com seu carro, ao lado, até um certo trecho, fazendo gestos para que ela parasse, para conversarem. Ela não recusou-o abertamente, mas também não o incentivou. Algumas buzinadas atrás acordaram-no e, ele, percebendo que não teria chances, seguiu seu caminho.
Colocou um cd no aparelho de som, marcando no volante, com os polegares, as batidas da música. Foi percorrendo as faixas sem chegar ao fim delas. Trocou de cd várias vezes, sem achar um que a satisfizesse plenamente. À medida que os retirava do porta-cds e desgostava deles, ia empilhando-os no banco do passageiro. Nas viradas do carro, eles caíam no piso. Ela tentou juntar os primeiros, esforçando-se para manter a atenção na direção. A posição incômoda fê-la desistir e deixou-os aonde estavam, deslizando uns sobre os outros, espalhando capas e proteções.
No estacionamento da faculdade, enquanto recolocava os cds em seu local, viu sua amiga Márcia chegar e esperou-a . Olhando-a aproximar-se, teve a certeza que ela tinha engordado um pouco nesses último dias. Podia imaginar a flacidez despontando nas laterais e centro do abdômen. Mais alguns meses e ela estaria aumentando as medidas de suas roupas. Se não se cuidasse, daqui a pouco estaria com as nádegas e seios caídos, invadida pelas celulites, sem coragem para usar um biquíni ousado. Seria decadente em uma idade que deveria ser mais atraente possível. Beijaram-se nas faces, em cumprimento.
Pedro abordou-as, colocando-se ao seu lado. Ele a xavecava desde que se conheceram e tinha uma conversa leve, solta, agradável mas ela o repelia nas suas investidas. Não era alguém para um futuro a dois. Era apenas um desses estudantes que conseguem uma vaga na faculdade, são sustentados a muito custo pelos pais e fazem bicos para equilibrarem o orçamento. Provavelmente daqui a alguns anos, após formado, ele tivesse uma situação melhor, com sorte, contatos e esperteza. Agora, era apenas um dos que lutavam para conseguir uma brecha de um raio de sol, em uma floresta cheia de árvores gigantes, que sufocavam os invasores de seu espaço, tirando-lhes tudo o que pudesse garantir o sucesso das sementes emergentes.
Marcos, porém, já era alguém para se investir. Era mais promissor, já estabelecido financeiramente pelas posses do pai. Não precisaria esforçar-se muito para se dar bem social e materialmente, pois já tinha uma base mais sólida. Marcos não precisaria ser muito inteligente, muito esperto ou muito bonito para se firmar. O ponto de saída de Pedro era muito mais atrás do que o de Marcos. Era muito pequena a probabilidade de que chegasse a ultrapassa-lo algum dia.
Saíram juntos algumas vezes, mas seu charme não fora suficiente para mante-lo ao seu lado. Tentava conquistar seu interesse definitivo provocando-o com certa sensualidade, sem cair no vulgar. Algumas vezes, tentou evocar um pouco de ciúme usando Pedro, mas ele não se enredava fácil. Haviam outras, também, o que dificultava seus objetivos. Marcos era o que se costuma chamar de bom partido e tinha muitas mulheres a disputa-lo.
Freqüentava a casa dele, tentando conquistar a simpatia da mãe, que se mostrava vagamente aliada. Sua própria mãe ajudava-a nesse sentido, reforçando uma amizade antiga, destacando a filha com uma lista de qualidades, ditas casualmente, tentando formar uma boa imagem dela. Raras vezes viu o pai dele mas não seria ele que a ajudaria. Os homens não tem preocupações desse tipo com seus filhos.
Juntaram-se a Eva e Marina. Foi a oportunidade para deixar de ser o centro de atração de Pedro. Empurrou-o para uma conversa com Marina. Os dois entretiveram-se com seus interesses comuns de livros e filmes. As três ficaram falando sobre roupas, liquidações e shoppings. Marcos passou por elas. Angélica cumprimentou-o com sorriso de sedução.
Léo e Haroldo juntaram-se ao grupo. Quando Melissa chegou esbaforida e atrasada, quase suada, seguiram todos para a sala de aula.