\n'; document.write(barra); } } changePage();
Torturas
Certas coisas são difíceis de suportar para um zi. Uma delas era a primeira hora do dia. Neste momento, ditavam as regras e protocolos, éramos obrigados a fazer uma sessão de exercícios dentro do ginásio da Ninsu. O grande julius_k dizia que uma mente disposta precisa de um corpo saudável. Isso era algo que não discutíamos mas também não gostávamos.
No ginásio, eu podia ver, dentro dos olhos dos zis, o brilho de E+. Acho que todos tinham tomado uma dose extra antes de virem trabalhar. A maioria tinha vindo direto do zi-bar ou teriam passado a noite fuçando a net à procura de algo vago.
O que mais detestávamos, alem das sessões em si, eram os TFs. Acho que, de todas as tribos e grupos, eram os que mais odiávamos. Abominávamos esses treinadores físicos. Os seus músculos definidos, pele bronzeada e um sorriso permanente tentando arrebanhar simpatias, contrastavam demais com nossas peles baças, costelas estampadas em nossos peitos e nossos ensimesmamentos.
Durante uma hora eles detinham o poder sobre nós. Podia-se sentir um certo desprezo deles por nossas figuras. Eles andavam com roupas colantes mostrando reentrâncias e saliências. Usavam tênis com amortecedores e meias grossas. Seus cabelos pareciam eternamente fixos por gel. As TFs, geralmente, prendiam os cabelos em forma de rabo de cavalo. Sempre tinham mais de um nome, mas costumavam abrevia-los de forma com que se tornassem suaves. Chamavam-se Pat, Lu, Fê, Rod e etc.
Os TFs sempre procuravam impressionar as zis com seus corpos e suas conversas leves. Estavam sempre ligados aos acontecimentos do dia e da mídia, embora se preocupassem mais em falar de si do que do resto do mundo. As TFs desfilavam em nossa frente como se quisessem mostrar algo que jamais teríamos. Sempre procuravam ficar em posições que destacassem suas partes sensuais. Estavam sempre alertas aos nossos olhares como se buscassem uma platéia. Qualquer atenção de nossa parte e elas se esmeravam mais em exibir seus dotes físicos. Geralmente, evitávamos olhar para qualquer coisa que não fosse o teto ou as paredes, tentando apenas ouvir as vozes deles com suas tentativas de provocar algum entusiasmo de nossa parte.
As frases mais ouvidas eram do tipo – Vamos lá, minha gente!, - Força! Também falavam em superar limites e a dor. Citavam partes do corpo que desconhecíamos tais como bíceps, tríceps e panturrilhas. Pelo que eu saiba, nenhum zi de respeito saberia localizar essas coisas em seu próprio corpo.
Viviam eternamente em dietas. Comiam muitas frutas e verduras, o que para um zi era estranho. Não saberíamos distinguir algo comestível que viesse fora de uma embalagem, de um bandejão ou de um prato colocado à frente. Conselhos sobre alimentação e exercícios faziam parte de sua eterna lengalenga. Tomavam diuréticos, esteróides e anabolizantes. Mediam constantemente seu teor de gordura e pesavam-se compulsivamente. Ao mesmo tempo, consumiam produtos com excesso de calorias para poderem suportar algum treinamento físico acentuado ou disputas entre eles. Era raro encontrar algum que não se vangloriasse de ter recebido um título, uma medalha ou algum troféu.
Essa combinação de dietas e produtos químicos produziam um estranho fenômeno. Eles ficavam bonitos, com aspecto saudável e tinham uma força incomum. Em longo prazo ficavam frágeis por dentro e suscetíveis a complicações. Muitos deles usavam tensores nas articulações, faziam fisioterapias e se entupiam de analgésicos. Era comum morrerem jovens, principalmente do coração. Acho que nunca vi um TF velho.
Suas músicas eram compostas por longas cadências repetitivas que geralmente envolviam alguma coreografia. Por um certo tempo, tentaram nos ensina-las mas desistiram com os nossos movimentos propositadamente desastrados e desuniformes. Suas biografias eram quase que padronizadas. Algumas fotos de rosto e de corpo inteiro, aonde tinham estudado, as academias ou empresas por onde tinham passado, seus nomes e apelidos, suas medalhas e troféus, compunham a sua descrição. Nada que se comparasse às dos zis.
Uma das lendasnet era a de que o zi proteus_c tinha conseguido craquear o programa de segurança dos apartamentos e que, quando um TF se identificava, o trecho da música de Haendel em que o coro cantava “aleluia, aleluia, aleluiaaa” era disparado por todos os falantes do edifício. Se fosse verdade, deveria ter sido cômico.
Apesar de tudo, durante essa hora do dia, que demorava demais para passar, eles detinham o poder sobre e, também por isso, os odiávamos.
Ao fundo daquelas longas filas de zis desinteressados, sumosama, apoiando-se nas palavras que mellojorge lhe dissera no zi-bar, crivava-o de perguntas intermináveis. Vez ou outro o TF pedia-lhes um maior empenho.
Tentei cruzar olhares com betazeta mas ela já tinha voltado ao seu mundo. Talvez um dia ou outro ela voltasse a sair comigo, mas por ora, ela queria apenas saber dela.
Foi enfadonho e até um pouco nauseante, principalmente quando o TF me levou para a frente do grupo para me apresentar aos demais zis. Percebi no brilho que o E+ produzia nos olhos deles um certo ar de troça voltado para o TF. Será que ele não sabia que meu nome circulava pela net, que eu tinha uma biografia e que eu já era conhecido pelos demais? Ohoh! Ser prego tem muitas inconveniências!
Depois de quase um século fomos dispensados. A maioria dos zis voltou para suas mesas da mesma maneira como tinham chegado. Eu e mais alguns poucos fomos para o banho. Mellojorge e sumosama instalaram-se em chuveiros paralelos. Eu escutava a água cair entremeada de perguntas ávidas e respostas em tom condescendente.
Embora essa rotina diária já viesse da escola, nunca me acostumei a ela.
Fui até minha sala. A voz me avisou que deveria estar no Treinamento em meia hora. Fiquei jogando esperando o tempo passar. Bornfree veio buscar mellojorge, sumosama e eu. No caminho, sumosama continuava com seu rol de perguntas a mellojorge. Fomos colocados em salas separadas porque cada um tinha que aprender coisas distintas.
O treinador me esperava. Já conhecia sua biografia. Era um zi que não tinha tido muito sucesso chamado pedropaulo. Provavelmente fora destacado para ser treinador porque não tinha tido muito sucesso em suas produções. Embora gostássemos de aprender e fossemos obrigados a ensinar o que sabíamos, ser treinador significava um truncamento em qualquer carreira.
Ele jogou em cima de minha mesa uma pilha de manuais. Não gostava muito de papel. Preferia lê-los no monitor, mas desde o @3 havia a obrigatoriedade da impressão. Os vírus não podem contaminar dados em papel.
Ele começou uma preleção enfadonha sobre o Nirvana que me fez retornar aos primeiros dias de aula na escola. Minha mente começou a vagar por mundos estranhos enquanto me esforçava em parecer atento. Quando ele entrou no Módulo G, comecei a fazer perguntas que, invariavelmente, eram respondidas com o chavão – O sistema é automático. Não temos acesso a esse ponto.
Acho que ele percebeu meu aborrecimento e tentou parecer mais dinâmico, mas não adiantou muito. Quando chegou a hora do almoço foi um alívio para ambos.
No caminho do refeitório nos agregamos a sumosama e mellojorge que entupiam seus treinadores de perguntas. Eu e pedropaulo caminhávamos no silêncio daqueles que não tem nada a dizer. Invejei os dois porque gostaria de estar em transe como eles. Mas tinha que me controlar até chegar minha chance. Minha vinda tinha dado a oportunidade de evolução para sumosama e mellojorge e eu também tinha dado um passo a mais em minha biografia pois agora fazia parte da matriz da Ninsu. Todos têm que começar do principio. Pular etapas pode nos obrigar a termos que voltar à procura de algo que deixamos para trás.
O refeitório não estava muito cheio. Alguns zis preferiam comer diante de seus monitores. Com certeza, sucrilhos estaria com sua eterna caixa de cereais e coçar de cabeça diante de seu computador.
Com seu notório apetite, sumosama engolia rápidas garfadas de uma montanha de comida, pausadas apenas por perguntas e mais perguntas, ora dirigidas a seu instrutor, ora a mellojorge, que, pacientemente, as respondia. Em um canto, betazeta, olhava fixamente para seu prato, separando pequenas porções, comendo algumas e deixando outras. Pensei em ir até lá, mas ela parecia absorta demais em seus pensamentos. Um zi não gosta de ser incomodado em sua unicidade. Além disso, ela já tinha deixado claro que a noite tinha se acabado e com ela qualquer chance de algo mais duradouro que uma simples noite.
Mal terminado o almoço, sumosama e mellojorge, com seus respectivos instrutores, voltaram para suas salas de treinamento. Não quis ferir o orgulho de pedropaulo e sugeri o mesmo. Voltamos para a nossa sessão.
O peso da comida somado à insipidez estavam me provocando sonolências. Para me ativar, perguntei a pedropaulo se não queria jogar um pouco, a título de descontração. Ele aceitou. Foi bom porque passamos os outros dias restantes jogando, o que fez com que o tempo passasse rápido e pudéssemos cumprir nossa agenda.