Tarde I

Tarde I

Dentro daquela rotina e voz tediosa dos subalternos, a empregada perguntou-lhe se iria tomar o café da manhã. Diante da negativa, inquiriu do almoço. Também não. Iria para o clube e ficaria o dia por lá.

A cama já estava provocando-lhe dores nas costas de tanto ficar deitado. O lençol estava mostrando-se áspero pela sua permanência ali. Levantou-se, forçando as pernas duras pelas inatividade e foi até o banheiro. Pelo espelho viu sulcos no rosto e no peito, provocados pelas dobras dos lençóis. Os cabelos desalinhados e os olhos baços completavam o quadro de lassidão no qual se encontrava.

Entrou no box e ligou o chuveiro. Apoiou-se na parede com as mãos para que o jato batesse diretamente em seu rosto. Desligou o aquecedor para que a frialdade atravessasse a pele e lhe desse um pouco de ânimo. A água não queria lavar a preguiça de seu corpo.

Pensou em passar na Leagus, mas se encontrasse seu pai ali, ele o faria lembrar-se de suas "grandes responsabilidades como seu sucessor" e estragaria seu dia. Ir direto ao clube seria melhor. Ligou para Frederico marcando uma partida de tênis. Pegou raquete, bolinhas e foi para lá.

Sentou-se na mesa do bar externo, bebericando uma água mineral, observando as poucas pessoas que estavam nas piscinas. Algumas mulheres que estavam tomando sol já estavam fugindo dele por causa de sua intensidade. Poucas mães brincavam com seus filhos e um homem, debaixo do guarda-sol, absorvido em uma leitura, parecia indiferente.

Trocaram beijos, aperto de mão, e sentaram-se. Arrastaram uma conversa quase sem assunto e sem opiniões. Diálogos preguiçosos de tardes em clubes. Silvana tentou uma atenção maior de sua parte. Qualquer frase que dizia era impressa em seu rosto como admiração, surpresa ou respeito. Ela queria impressiona-lo. Queria atrai-lo. Antes de qualquer frase, tocava com as pontas dos dedos em seus braços, ou, mais raro, em sua coxa. Tentava seduzi-lo de forma permanente. Silmara ajudava-a mantendo a atenção de Frederico. Queriam produzir um clima de conversa de casais.

Kiko Nunes era escolado nessas tentativas. Sabia que o pai delas estava quase falido e que estavam apenas procurando alguém em quem se encostar através do casamento. O clube estava cheio dessas figuras que tentavam evitar um rebaixamento financeiro e social. Não se arriscaria com ela, nem que fosse por uma boa transa, porque sabia que, após uma noite, ela o consideraria como alvo fácil e não desgrudaria dele tão facilmente.

Entediado, querendo livrar-se delas, propôs uma partida de tênis para Frederico. Silmara adiantou-se, batendo palmas, acrescentando que seria bom jogar em duplas. Não seria tão fácil livrar-se delas.

Na quadra, Silvana colocou-se na frente. A pequena saia mal encobria o shorts entrado em suas nádegas. Ela assumia posições exageradas, reforçando o visual de seu físico, de modo quase erótico. Vê-la arqueada, de pernas abertas e retas, era quase um convite. Por alguns momentos ficou exasperado, misturando vontades sexuais e um desejo enorme de dizer-lhe que não a queria. Concentrando a atenção no vai e vem da bolinha, retomou a brancura mental em que se mantinha a maior parte do tempo, sem pensamentos, sem emoções.

Silmara era uma excelente jogadora; ele o sabia; mas errava mais que o normal. A cada ponto ganho, Silvana sorria para ele. Quando ganharam o primeiro set, ela saltou sobre ele, abraçando-o, forçando as pontas dos seios em seu peito.

Foi um jogo longo, administrado por Silmara, que alternava os ganhadores, mas que lhes deu a vitória em uma falha que só poderia ter sido proposital. O troféu foi um longo abraço em que sentiu toda a estrutura física de Silvana. Os desejos voltaram mas a certeza de que não conseguiria livrar-se dela, depois de uma noite, também. Retribuiu distanciadamente, para lhe dar a certeza de que não deveria desperdiçar seu tempo em tentativas com ele.

Voltaram ao bar. Kiko estava esperançoso de desagregar as duplas com a chegada de outros amigos. Ninguém apareceu e ficaram apenas os quatro a conversarem, no mesmo esquema anterior. Por mais que ele tentasse generalizar a conversa para um assunto de interesse geral, Silmara, delicadamente, voltava a conversa para um tom mais íntimo de casal. Ela era uma mestra em atividades sociais e conduzia a todos da maneira como queria. Ele tinha que reconhecer que era apenas um joguete nas mãos dela, sem muitas chances de alterar o rumo da conversa, exceto através da indiferença, contra a qual Silvana se debatia.

Com a noite chegando, Silmara impôs uma ida a uma casa noturna na próxima sexta-feira. Dança e bebida para apaziguar a alma, pensou kiko_nunes. Tentou recusar mas não lhe vinham à mente possíveis compromissos ou desculpas. Frederico, ansioso por uma noite com Silmara, acertou todos os detalhes por ele.