Zi

Zi-bar

Fui ao zi-bar a noite. Naquele dia ainda estava ativado e as novidades ainda existiam. Saudei os zis que não estavam em transe diante das máquinas. Achei kaxorroloco e mariacosta sentados a uma mesa. Fui até lá. Pouco depois, mellojorge e sua inseparável companhia, sumosama, chegaram. Perguntas ávidas de sumosama e respostas pausadas de mellojorge pareciam a única conversa presente. Os demais e eu, estávamos absortos dentro de nós.

Quando a prainha de fora de mellojorge chegou ficamos um pouco embaraçados. Ela sentou-se ao lado dele, enquanto sumosama exigia sua atenção, do outro lado.

-          Flare, flare, grande sumosama. Ela não gosta destes assuntos, disse mellojorge, colocando a mão sobre o braço da prainha.

-          Podem continuar. Não me incomodo, respondeu ela.

 Achei um pouco inusitado alguém de fora não se incomodar com nossas conversas. A maior parte dela eram códigos, abreviaturas, palavras em outras línguas ou neologismos criados por nós. Dificilmente alguém de fora as entenderiam. Talvez ela quisesse apenas agradar mellojorge ou quisesse enturmar-se. O cabelo curto e as roupas largas mostravam que ela devia fazer parte daquela tribo que tentavam ter um visual parecido ao nosso. No entanto, percebia-se claramente que ela não era uma zi. As cores de suas roupas combinavam, eram novas e ela trazia colar, brincos, anel, pulseira; acessórios estes que não faziam parte de nenhuma indumentária zi. Devia ser bonita, mas a luz difusa do ambiente não me deixava ver com clareza seus traços. Ela colocou o cotovelo na mesa e apoiou seu queixo na mão, querendo demonstrar interesse na conversa.

 No dia seguinte, algum zi (talvez kaxorroloco), fez um cartoon em que mellojorge e a prainha de fora transavam, enquanto sumosama, de joelhos e com os braços na cama, fazia perguntas intermináveis para ele. Para nós foi hilário, mas sumosama não gostou, porque ficou fuçando o sistema procurando de onde tinha saído a emissão inicial, descobrindo que tinha sido de seu próprio computador. Foi o momento de fúria, porque nenhum zi gosta que mexam em seu equipamento. Depois disso, a brincadeira perdeu a graça.

 A noite estava fraca, com poucos zis circulando. As horas foram passando e eu ainda tinha um pouco de esperança de que betazeta surgisse. Talvez ela quisesse ser minha prainha por mais uma noite. Ela não veio. Fiquei levemente decepcionado, mas, no fundo, sabia que ela não iria sair novamente comigo, a não ser em algum dia eventual, que seria da escolha dela e não minha. Os zis e as zis eram assim mesmo, com frágeis laços afetivos, sempre juntos, mas eternamente enclausurados dentro de si.

 Aborrecida, também, com a noite, mariacosta encetou conversas sobre o sistema que estava aperfeiçoando para a Nexus. Estava sendo assessorado pelo máster José Rodrigues de Faria. Ele era um daqueles que forneciam informações vagas e imprecisas, querendo se fazer de poderoso diante dela. Ela estava atrasada em seu cronograma e estava preocupada com isso. O tempo pessoal de um zi é inexistente. Nunca sabíamos as horas ou o dia em que estávamos, mas descumprir um prazo de programa era motivo de reprimenda e vergonha. Nenhum de nós gostaria disso.

 Como eu lhe disse que já tinha estudado um sistema parecido, ela me convidou para ir até seu apartamento para que pudesse dar uma olhada nele. Aceitei, mas desta vez fui com meu carro e paguei a conta. No dia anterior, descobri, pelo rastreador, que tinha deixado meu carro no zi-bar e pedi para o chefe da segurança mandar alguém busca-lo. Ele fez que sim, mas o vi afastando-se, balançando a cabeça, tentando entender como alguém consegue esquecer um veículo.

 Quando chegamos, ela deu chutes no ar, jogando longe os tênis folgados. Tirou a calça, desabotoou o sutiã, ficando de calcinha e camiseta. Até ela sentar-se à frente do computador, achei que ela queria me ter como sua prainha. Mas não era nada disso, não. Devia apenas ser um hábito dela, assim como os cereais de sucrilhos, os ternos de mellojorge, os chocolates de sumosama, os chicletes de kaxorroloco, o telescópio de betazeta e meus constantes banhos.

 Varamos a noite refazendo alguns pontos e acrescentando outros. Passei os demais dias da semana indo direto do trabalho para o apartamento de mariacosta. Ela forçou um pouco mais com o máster para conseguir mais dados. Junto com o que eu tinha aprendido e somando a rapidez de mariacosta, tivemos um grande avanço na preparação do sistema. Quando percebi que não havia mais necessidade de estar junto, deixei-a terminar sozinha. Meses depois, fiquei muito feliz quando ela me deu alguns créditos em sua biografia por tê-la ajudado.

 Desnecessário dizer que passei a semana inteira na base do E+. Quando o sono vinha forte demais, deitava-me no carpete da sala quase aos pés dela e dormia uma ou duas horas. As vezes, era ela quem dormia um pouco ao meu lado, quase sempre em posição fetal. No fim de semana, quando já sabia que não estava sendo mais necessário, resolvi colocar meu sono em dia. O E+ já estava mostrando seu lado escuro. Eu estava tendo pequenas alucinações e perdera totalmente a noção de tempo e espaço. Tudo parecia vago e meus sentidos estavam embotados. Quando alguém falava comigo, as palavras demoravam para fazer sentido em meu cérebro. Quando elas saiam de minha boca, era de forma confusa e monossilábica. O que me rodeava parecia ir e vir de maneira distorcida. Algumas coisas demoravam demais para acontecer e outras surgiam como um flash. Tinha que dormir um pouco e o fiz durante o sábado e domingo. Simplesmente apaguei, só despertando ao som da voz, na segunda-feira de manhã.