Tédio

Tédio

 Entendi a pressa de sumosama em sair do Módulo G. Era o tédio total. Nada a fazer alem de ficar olhando para um monitor esperando alguma eventual tentativa de invasão, que seria detectada automaticamente e com medidas de segurança já embutidas no programa.

 Tentei um jogo com o pedropaulo, mas ele já tinha voltado para seus trabalhos. Betazeta e mariacosta nem responderem minhas mensagens. Fiquei vasculhando a net à procura de uma sala de bate-papos que estavam tão enfadonhas que desisti bem depressa. Li todos os noticiários dos sites até quase decora-los. Se demorasse muito para um zi me substituir iria morrer de tédio.

 O almoço somente contribuiu para minha modorra vespertina. Gostava de trabalhar nas madrugadas ou nas manhãs. Durante esses períodos me sentia esperto. Fora deles eu quase não me sentia. O relógio demorava para avançar os segundos e a noção de tempo que tinha era de que ele se esforçava em prosseguir.

 Tédio. Tédio. Tédio. Tédio. Tédio. Era meu primeiro dia de tédio. Meus três monitores nem se mexiam. Estava torcendo por um alerta, mas eles se mantinham estáticos. Vasculhei os sites de busca à procura de um tema interessante. Pensei em baleias e localizei todos os relativos a este assunto. Até tentei ler Moby Dick. Baixei o livro e fui lendo com atenção as primeiras páginas. Depois fui pulando algumas e por fim fui direto ao epílogo. Estava me sentindo como um náufrago.

 Depois que saí da Ninsu, fui direto ao meu apartamento. Vasculhei alguns canais de televisão insípidos e arrisquei teclar alguma coisa nas salas de bate papo. Desisti e fui dormir. Acho que foi uma das poucas vezes em que ultrapassei mais de quatro horas de sono. Antes de deitar, pensei que iria acordar disposto por causa do bordão dos TFs que ouvia quase que diariamente a respeito da necessidade um repouso adequado de seis a oito horas por noite. Mas qual o que. Acordei com a sensação indelével de que tinha sofrido uma lobotomia e que minha mente se ocuparia apenas das necessidades básicas do corpo. Tentei um energizante, mas ele teve o mesmo efeito de um guaraná. Ia tomar um E+ mas ponderei que não era um momento adequado. Era o tipo de estimulante que devia ser usado apenas em algumas ocasiões especiais. Sabia muito bem dos efeitos que ele tinha, em longo prazo.

 Na Ninsu, arrastei-me até a cadeira. Olhar fixo no monitor, estava tentando buscar algum tema interessante de pesquisa como focas ou ursos polares. Batendo na divisória com os dedos, kaxorroloco me despertou.

 -          Soube do máster Mauricio Fernandes?

 Acordei da divagação.

 -          Não. Que foi?

-          Ele foi para uma escola. A grande alessandrab conseguiu com que ele fosse para uma escola de zis. Ele vai continuar a receber os mesmos créditos como se estivesse trabalhando.

-          Grande kaxorroloco! Bom! Você conseguiu! Ele vai ficar devendo uma para você.

 Ele se desconcertou um pouco.

 -          Ele deve para a grande alessandrab. Foi ela quem conseguiu.

 Remediei um pouco o constrangimento, querendo preservar a humildade dele e as minhas palavras.

 -          Bom. Acho que ele deve para os dois, não?

-          Acho que sim. Vamos ver o que acontece agora, não?

-          É. É isso aí, grande zi.

 Quando ele se foi, joguei a imagem dele em minha mente dentro de uma escola, aonde todos os alunos e professores teriam quase a metade da idade dele. Talvez o respeitassem ou talvez não. Iria depender somente dele. Com certeza iria ter um caminho difícil, pois teria que abdicar do seu status e conhecimento, ao mesmo tempo em que teria que aprender tudo desde o início.

 Mentalmente desejei boa sorte a Mauricio Fernandes Sousa e Silva, que mais tarde seria conhecido como halley_mf, a ele e suas teorias vampirescas a respeito do grande julius_k!

 Um bom tema para minhas pesquisas, cuja única e exclusiva função era de fazer com que a passagem do tempo fosse imperceptível, seria julius_k. Tentei os mecanismos mais simples de busca e todos eles continham apenas uma biografia simples como as dos TFs, sem nenhuma fotografia. Fui até a megabusca à procura de algo mais extenso. Vasculhei todas as indicações e todas elas repetiam a monótona biografia dos demais. Procurei por nomes como Ninsu, Nirvana e outros itens de pesquisa, mas em tratando da biografia de julius_k a repetição era constante. Havia menções de livros, outras atividades, mas nada que indicasse as realizações que os zis prezavam tanto.

 Como não descobri nada nos arquivos, resolvi procurar na biblioteca de papel. Pedi permissão a bornfree e fui até lá. Uma administrativa me atendeu com expressões que variavam de incredulidade e surpresa. Devia ser o setor menos visitado da Ninsu. Quase todos os livros, jornais, revistas e vídeos podiam ser baixados pela net. Uma pequena equipe encarregava-se de cuidar da inserção daqueles que ainda não constavam na rede. Devia ser um trabalho muito enfadonho localizar os que ainda não faziam parte do acervo, enviar para as escaneadoras automáticas e ordena-los no arquivo de papel.

 -          A respeito do que o grande zi veio pesquisar, disse a administrativa.

-          Sobre o grande julius_k, disse-lhe.

-          Não é mais fácil pela rede?

-          Gostaria de saber sobre os tempos antigos. As informações da rede são muito vagas.

-          Ainda não conseguimos restaurar todos os arquivos, desculpou-se ela.

-          Não quis ofende-la, grande ADM. Sei que todos os arquivos se perderam por causa do @3. Imagino que exista uma quantidade muito grande de informações para ser reintroduzida e sei que vocês têm feito um bom trabalho.

-          Nossa equipe é pequena, grande zi, e as pessoas não têm uma necessidade premente de saber o que aconteceu. Como diz o grande julius_k, o passado deve ser usado como lição. Não deve ser usado como desculpa para nossas ações e muito menos ser vivido.

-          O grande julius_k tem razão, grande ADM.

 Nesse momento, achei melhor usar da verdade para quebrar a leve tensão que tinha se formado.

 -          Fui transferido recentemente e estou no Módulo G. Estou com tédio. Não tem muito o que fazer por lá, não é? Apenas queria me distrair um pouco e achei que pesquisar sobre julius_k me ajudaria a passar o tempo.

 Ela sorriu levemente, misturando enternecimento, compreensão e uma certa malícia.

 -          Bom. Acompanhe-me, então, grande zi.

 Ela me levou por um pequeno corredor até um depósito. Quando vi a enormidade de livros, revistas e jornais empilhados, caiu-me a certeza de que a tarefa era ingrata demais. Com um gesto leve apontando toda a dimensão do lugar, ela disse:

 -          Estes são os itens que ainda não catalogamos na rede, grande zi. Como vê, vai levar anos até conseguirmos restaurarmos os arquivos. Se você quiser dar uma olhada, fique a vontade.

 Se uma equipe especializada de ADMs iria levar anos, um zi solitário iria levar séculos. Não estávamos acostumados a folhear papeis.

 -          Existe alguma outra alternativa de pesquisa? Perguntei com voz conformada.

-          Pode ser que na biblioteca da cidade exista algo catalogado. Como vê, por aqui vai ser difícil. Sinto muito.

-          Eu agradeço sua atenção, grande ADM. Talvez eu vá até lá.

 Voltei para minha sala e meu tédio.