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Identificações
No dia seguinte a sonolência e o tédio continuaram a fazer efeito. Tinha passado a noite no zi-bar procurando distração que só encontrei nas máquinas de flipper. Quase ninguém estava lá e quem estava queria ficar sozinho.
De manhã, para tentar ficar ativado, tomei vários energizantes. Ainda assim tive que me distrair tentando jogos e pesquisas. Depois, comecei a brincar com a cadeira, girando-a e a mim, em intervalos regulares. Fiquei quase uma hora lançando-a de uma parede a outra, tentando estabelecer recordes de regularidade ou velocidade. Estava quase insano.
Resolvi sair. Pedi permissão para bornfree e fui até a cidade.
Estacionei meu carro em uma das ruas e fui andando pelos quarteirões. O aspecto atual do centro devia ser o mesmo de muito tempo atrás. Pequenos hotéis e pensões, agências de turismo radical, bares e cafés, externamente mantinham o mesmo padrão de quando foram construídos. Embora a Ninsu fosse dona de grande parte dos prédios, tinha um programa de conservação para os proprietários dos demais. Promovia reformas sem custo para eles, desde que mantivessem a as construções originais. Se alguém aderisse ao programa e quisesse fazer alguma modificação, era necessário pedir autorização para a prefeitura que era quase que totalmente mantida pela Ninsu.
Aonde a Ninsu se instalava era uma benção para muitos e uma maldição para alguns. Praticamente ela passava a gerenciar toda a região, adquiria imóveis e propriedades, mantinha os políticos dentro de uma disciplina voltada para ela e mudava o modo de vida das pessoas. Havia abundância, mas a liberdade sempre se restringia. As câmaras passavam a fazer parte do cotidiano, o controle era mais acentuado e os seguranças substituíam as polícias oficiais.
Os poucos que a criticavam, o faziam baseados em argumentos a favor da privacidade, da livre iniciativa, do livre pensar e do livre caminhar. Os muitos que a louvavam, precisavam dos empregos, do dinheiro que aparecia aonde ela se instalava e da sobrevivência garantida através da quantidade de programas de ajuda que a empresa oferecia. Para quem tinha vindo das ruas como eu, era preferível alimento, abrigo e proteção, ao que chamavam de liberdade, aonde se tinha que correr, sozinho, todos os riscos e com grandes chances de extinção física. Enquanto eu era eu mesmo, nunca questionei isso.
Parei em frente da biblioteca. Era um edifício suntuoso, com traços de adornos que deviam ter sido o melhor de sua época. Tinha grandes portas na frente, mas somente uma folha estava aberta. Entrei, sentindo o silêncio, cheiro de papel velho e naftalina. Um pequeno balcão vazio mostrava as marcas de um extenso uso junto com uma inutilidade atual. Bati em uma pequena campainha antiga, que soava distantemente como um sino enclausurado.
Repeti várias vezes o toque até aparecer uma senhora de passos curtos, costas encurvadas e espanto no rosto. Seu vestido de flores esmaecidas e sapatilhas de camurça ajudavam a compor seu visual de uma pessoa dos tempos antigos. Ela ficou olhando para mim por vários segundos até decidir-se por uma frase.
- Em que posso ajuda-lo, meu jovem?
- Estou fazendo uma pesquisa sobre julius_k e queria saber se vocês tem algum coisa a respeito dele.
Ela olhou-me incrédula.
- Não é mais fácil pela rede? Disse-me mostrando um computador desligado, que parecia estar fora de uso a muito tempo.
- Já consultei, mas queria ver se existem fotos, vídeos ou outros documentos.
Ela sorriu de minha ignorância.
- Não temos vídeos. Talvez revistas ou livros antigos.
- Qualquer coisa me basta, disse eu.
Ela puxou uma gaveta em um armário de aço. Colocou óculos rebaixados antes de folhear algumas carcomidas fichas de papel. Com a ponta das unhas, ia separando-as lentamente. Pegou uma delas, pedindo que a seguisse.
Caminhamos por alguns corredores formados por estantes de madeira maciça entremeadas por algumas de aço, que mostravam uma pintura nova e amadora, aonde podia-se ver gotas escorridas de tinta.
- Deixe-me ver...julius_k.....julius_k.....ah.....aqui está!
Eram os mesmos livros que se podia baixar da rede. Conhecia-os de cor.
- Não tem revistas ou jornais?
- Devo ter algumas, disse, olhando para o verso da ficha, aonde letras manuais tinham sido feitas a lápis.
Ela começou a andar pelos corredores, até chegar a um ponto onde algumas revistas estavam empilhadas. Eram exemplares antigos de revistas sobre informática.
- Deve ter alguma coisa por aqui. Quer que eu ajude?
- Se a grande madam não se importar, gostaria que me ajudasse a descobrir alguma foto do grande julius_k.
Levamos o pacote de revistas para uma mesa rabiscada com nomes de pessoas que, quando crianças, o fizeram para disfarçar seu tédio de uma pesquisa escolar ou para registrarem sua passagem por ali. Somos tão transitórios que precisamos nos prolongar através de nossos filhos ou de registros de nossa presença. Sentimo-nos bem, quando imaginamos que, em algum futuro distante, ainda seremos lembrados.
Fiquei folheando as revistas com cuidado tentando não desintegra-las. Já deveriam estar velhas quando foram deixadas na biblioteca, se tornaram mais frágeis com o uso e com a passagem do tempo. A madam, com os óculos rebaixados, foi quem localizou uma reportagem sobre o Nirvana. A reportagem era pequena, mostrando o aparecimento de um novo sistema operacional. Na época, ainda não tinha sido lançado o @3 pela rede. Ninguém sabia ainda de sua importância.
Uma pequena foto mostrava kiko_nunes, marta_moura, drena e julius_k. Eram os sócios de uma empresa recente chamada Ninsu. Uma das tantas que deveriam existir nos tempos antigos. Pedi uma lupa para a madam que, com seu andar eternamente curto e compassado, remexeu uma gaveta no balcão e a trouxe para mim.
Vasculhei a foto com ela, tentando ver melhor. Na foto, os quatro eram jovens, mas o rosto de julius_k parecia ser o mesmo de quando tinha me tirado das ruas e igual ao do meu primeiro dia na Ninsu. Será que ele nunca envelhecia? Será que o máster Mauricio Fernandes Sousa e Silva, que mais tarde seria conhecido como halley_mf e que se transformaria em uma lendanet, tinha razão a respeito do grande julius_k? Será que julius_k era um vampiro que se eternizava sugando a vitalidade de outros? As lendasnet a respeito do zi morpheus_c eram verdadeiras? Ele tinha sido absorvido por julius_k? Se fosse isso, seria a explicação para a biografia opaca de julius_k que povoava a rede. Ele não iria querer mostrar aos outros que o tempo biológico não tinha efeito sobre ele.
Agradeci a atenção da madam e saí da biblioteca. No caminho, meus pensamentos foram substituídos por outros mais reais. Embora uma grande parte da economia ainda estivesse em frangalhos, existiam centros de pesquisa, clínicas especializadas em rejuvenescimento, médicos famosos que prolongavam a vida e a aparência de quem pudesse pagar. Muitos deles eram financiados ou faziam parte da Ninsu. Nada mais lógico do que se beneficiar dessa tecnologia, principalmente alguém como julius_k.
A passagem do tempo para um zi é bem diferente do que para as demais pessoas. Vivíamos em desacordo com a natural medida de tempo. Era quase um transe permanente aonde nos dispúnhamos a fazer coisas até aonde nossos corpos agüentassem. A noite e o dia mesclavam-se, quando confundindo-se. Enfurnados em nossas salas, diante de nossos computadores, comíamos quando a fome tornava-se crucial, bebíamos nossos energizantes para nos mantermos alertas e dormíamos quando não nos restava outra alternativa. Na realidade, acho que odiávamos essas necessidades básicas de nossos corpos. Elas nos faziam perder tempo precioso que poderíamos utilizar em nosso trabalho.
Até aquele dia nunca tinha reparado nos traços que indicavam a passagem do tempo biológico em nossos corpos. Passara parte da vida sobrevivendo nas ruas e a outra em uma escola. Nunca tivera tempo para essas divagações. Jamais olhei para o rosto de um zi e percebi rugas, manchas ou peles embaçadas. Acho que os identificava pelas suas imutabilidades em se vestirem, arrumarem-se ou pelas manias de cada um.
Eu ainda estava naquele estágio que chamam de adolescência. Naquele dia dei-me conta que era o mais novo dos zis que trabalhavam na matriz. Pouco mais velho que eu deveria ser sumosama, acho que seguido de betazeta e kaxorroloco. Na próxima fase deveriam estar sucrilhos, mariacosta e, talvez, bornfree. Com certeza, mellojorge deveria ser o mais velho de nós. Talvez, porisso, ele estivesse saindo com uma prainha de fora. Será que ele queria montar uma família? Será que ele chegara aquela parte da vida em que descobrimos que não somos imortais e que temos que nos reproduzir? Uma prainha de fora seria uma escolha adequada, pois as zis pensavam pouco sobre o assunto. Ele viera de uma família e provavelmente ela também. Talvez tivessem o mesmo pensamento.
Voltei para a Ninsu junto com meu tédio. Resolvi esquecer o assunto.