Quinta

Quinta-feira I

Júlio foi dormir antes do costume. Não conseguia pensar em anões, guerreiros de luz, lutadores das trevas e nada que se relacionasse com aquilo que habitualmente povoava sua imaginação e trabalho. O sono vinha revirado na cama, esparso, cheio de imagens dispersas. Os pensamentos lutavam no seu consciente-inconsciente. Sonhos sobrepunham-se, misturavam-se, confundiam-se. Sua mente oscilava entre a imensidão etérea e a limitação do corpo.

Algo estranho estava acontecendo com ele desde sua ida a 2K. Estava com os pensamentos desordenados desde então. Não conseguia concentrar-se no que fazia. Antes havia apenas a falta de vontade para iniciar seu dia. Vencida esta, retomava sua vida. Agora existia uma confusão mental que se aliara ao seu desânimo. Era quase impossível vencer essa situação.

Recebera um telefone estranho de alguém também estranho. Achara que era apenas uma dessas agências de viagem que nos atormentam com suas propagandas ou desses operadores de telemarketing que tem a insana tarefa de vender através do telefone. O sujeito não tinha sido educado mas fora convincente. Sua voz tinha a mistura certa de mando e laconismo. Talvez tivesse sido a bruma de mistério que o atraíra. Descartando as possibilidades de riscos que teria, resolveu acompanha-lo. De qualquer modo, poderia sair lucrando com o que veria. Tinha um projeto para incrementar novas paisagens em seus jogos, utilizando fundos reais, misturando-os com as inevitáveis lutas de guerreiros e achou que seria uma boa oportunidade para capta-las. Também, fazia dias que estava enfurnado em seu apartamento. Precisava sair e sentir um pouco do sol na pele.

O sujeito lhe dera instruções precisas de como se encontrarem. Era uma distância em que poderia cumprir em poucas horas, em rodovias boas.

No ponto assinalado da estrada, viu um carro parado. O sujeito não fez menção alguma de sair. Apenas gesticulou com os braços para que o seguisse. Lembrou-se de alguns filmes de terror que tinha assistido e vacilou. Não se deve confiar naqueles que desconhecemos. O instinto lhe dizia para se proteger e voltar para casa. A curiosidade venceu e ele seguiu o sujeito.

Entraram por uma estrada poeirenta, incrivelmente cheia de buracos. A chuva lavara parte dela e o sol endurecera a lama, formando uma longa saliência entre a erosão. Procurou manter as quatro rodas sobre aquela elevação descontínua. Nem sempre conseguiu. Muitas vezes o escapamento bateu no chão, em outras teve que parar para escolher o local pelo qual passaria com menos danos. Em alguns lugares, a areia substituía o piso. Parecia mais fácil passar, mas as rodas se atolavam e quase freiavam o carro.

Entraram em um pequeno descampado, antes do início de um matagal. O sujeito parou, então. Saíram dos carros, mas ele nem se importou em cumprimenta-lo. Olhou para seus pés, como se aprovasse o fato de estar com tênis. Enfiou-lhe um capacete na cabeça e atirou-lhe uma roupa de neoprene. Enquanto ele vestia uma similar, fez gestos para que Júlio se apressasse. Mal terminou de coloca-la, ele jogou-lhe um pesado rolo de cordas por seus ombros.

Caminharam longo tempo por uma picada reaberta na mata. A roupa de neoprene estava fazendo-o suar. Desvestiu a parte de cima, ficando com o dorso nu mas mesmo assim ela o estava incomodando. Como se não bastasse o calor produzido pela roupa e pela caminhada, haviam insetos insistiam em mordiscar seu rosto e suas costas. Alguns ele conseguiu esmagar contra o corpo. Em algumas partes aonde eles tinham tido sucesso, uma vermelhidão se aflorara. A corda ajudava o desconforto pesando-lhe no ombro e marcando com sulcos a pele.

Somente escutou o rio quando o sujeito parou-o com a mão quase em seu peito. Esqueceu o calor e os insetos quando viu a 2K jorrando água montanha abaixo. Podia ver as paredes que cercavam o rio mas não conseguia vê-lo. Eram um grande V sem o fundo.

Agarrou-se em um galho não muito sólido, com medo de escorregar e cair. O sujeito trançou as cordas em volta de uma grande árvore. Deixou-se vestir o equipamento. Depois, foi apenas uma realidade etílica, talvez virtual.