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MEA CULPA (
Clóvis L. Padoveze)
Quando adolescente e jovem, a irmã de quem mais eu gostava era a Bete. É difícil a gente explicar certas preferências, mesmo hoje quando nosso raciocínio primas por mais lógica e temos mais experiência. Dava-me muito bem com ela e nossos gostos e comportamentos eram semelhantes. Não podia dizer o mesmo de Marcela, outra irmã, dois anos mais velha que Bete e que vinha logo a seguir a mim na escala dos filhos do casal João e Aurora, meus pais. Marcela, naqueles tempos, sempre conseguia me irritar. Tinha eu o cuidado, porém, de não expressar essa irritação. Sabia que ela era também minha irmã, como a Bete. Mas intimamente, não a queria como irmã. Considerava-a grossa, sem classe, detestava suas gargalhadas repentinas, seus gracejos constantes, suas convicções, seu convencimento. Marcela, entretanto, dava-se extremamente bem com o Zico, nosso irmão mais jovem, dois anos mais novo que Bete. E quando os dois se juntavam, Marcela e Zico, a minha exasperação se acentuava. detestava vê-los rindo constantemente, soltando frases, idiotas para mim, de gracejos intermináveis. E quando então se davam a lutar no sofá, em frente à televisão a que assistíamos? Subia-me no peito e na cabeça uma raiva tamanha, que me dava ganas de esbofeteá-los, com inveja que tinha de suas alegrias.
A felicidade e jovialidade dos dois irmãos me incomodava.
Bete era diferente, o oposto de Marcela. Calma, mais bonita, um rosto de beleza clássica, loira como a irmã, um pouco mais alta que ela, andar elegante, culta, óculos indicando intelectualidade. Não se exaltava e, o que me agradava, não dava gargalhadas estridentes. Sorria apenas. Pensando um pouco agora, anos mais tarde, um dos motivos por que eu talvez não me desse com Marcela, pudesse ser o fato de ela ser a única que, de todos os sete irmãos, tivesse que fazer Segunda chamada dos exames colegiais em alguns anos, pois não conseguira ser aprovada nas provas normais. Isso para mim, na época, era sinônimo de burrice. Como eu podia admitir que uma Retisso pudesse repetir de ano? Segunda época? Bah...E a Marcela teve que fazer algumas segundas provas. Com todos os outros irmãos, desde José, o mais velho, até Zico, isso não tinha acontecido. Éramos sempre os melhores alunos. Única exceção: Marcela. Bete não. Primeira aluna, invariavelmente.
Sempre gostei de música. Um gosto que provavelmente adquirira por causa de mamãe. Ela adorava qualquer tipo de música: valsas, boleros, sambas, sertanejas. E o velho rádio ligado desde às seis da manhã até às nove da noite, quando a última novela irradiada ou algum programa humorístico da Mairink Veiga chegava ao final. Essa paixão por ouvir música (porque nunca consegui tocar nenhum instrumento) era parcialmente entendida por Bete. O fato de eu Ter trabalhado como "office boy" na emissora local, acentuara esse meu gosto musical. Bete e eu tínhamos oportunidade de, freqüentemente, discutirmos sobre músicas que estavam nas paradas de sucesso. Os últimos Elvis Presley, os primeiros Beatles, os primeiros Roberto Carlos rodavam em nossas bocas, e discutíamos, apaixonadamente, como se aquilo ou aquelas músicas fossem realmente importantes para nossas vidas. Naqueles dias o eram.
Lembro-me ainda, com bastante nitidez, de uma dessas conversas sobre música. Não foi com Bete. Foi com alguns dos colegas de colégio. Estávamos voltando de um intervalo entre as aulas e subíamos o segundo lance de escada que levava ao pavimento dois do ginásio. Joel, meu amigo, dizia a mil e a Joaquim:
- Você viu só o elepê do Roberto Carlos? Cada música Hein?
- Nem se fala – disse Joaquim – adorei "Quero que vá tudo pro inferno".
- Esse cara é bom mesmo – tornou Joel.
Aí eu intervi, emocionado, como até hoje quando falo de alguma música que me impressiona ou me toca:
- São todas boas, mas a que mais me empolgou foi "Lobo Mau".
E enquanto subíamos, degrau a degrau, vagarosamente, continuava, animado:
- É, ele é bom mesmo. Veja que não é só um refrão. Nas diversas passagens da letra o ritmo se altera, muda. Cada estrofe tem um ritmo diferente, não é repetitivo.
Até parecia que entendíamos de música. Mas, fazer o que? A juventude é isso mesmo. Defende com unhas e dentes tanto uma música quanto a modificação de um sistema político. Para ela, tudo o que estão pensando no momento é o mais importante do mundo.
Eu ouvia muita música, naqueles tempos, pelo rádio. Com muito suor, com o dinheirinho que eu conseguia tirar de meu pai, do meu salário de "office-boy", comprei um pequeno rádio a pilha, em dez pagamentos. Assim não precisava mais me valer do rádio de válvulas de mamãe, que ficava instalado em cima de sua mesa de passar roupas, na área de serviço. A morte de minha avó, logo em seguida `de meu tio Orlando, onde ela morava, deixara outro nosso tio, irmão de meu pai, celibatário, sem lugar imediato para morar. Ele não era padre, mas parece que estava gostando da vida de solteiro. Tudo acontecendo tão de repente, papai convidou-o para morar conosco. Agora éramos dez. papai, mamãe, seus sete filhos e o Bernardão. Zico, o filho mais novo, dormia na sala. As quatro irmã se espremiam num quarto. Bernardo, meu irmão mais velho e eu ficávamos no quarto restante, mais ao fundo da casa. Dávamo-nos muito bem. Com o tempo adquirimos um costume a que a rotina dava cada vez mais sabor. Depois de trabalharmos na manhã de Sábado, após um almoço de arroz, feijão e dois pedaços de lingüiça, íamos para o quarto ouvir um pouco de rádio, deitados na cama. Um programa, numa emissora de que não consigo mais me lembrar, era o nosso preferido entre mio dia e uma hora. O locutor era Hélio Ribeiro, dono de uma voz clara, grave sem ser fechada, alegre, irônico. Apresentava músicas de sucesso atual, com preferência para as mais românticas. Sempre que podia, incluía alguma que já estava passando para a saudade, fazendo a gente rememorar anos passados. Suas preferências eram claras: músicas de origem norte americana ou inglesa. Era comum vê-lo traduzindo a música, devagar, aproveitando as brechas que a letra permitia. O sonoplasta diminuía um pouco o som, num sincronismo muito bom, e ele soltava frases em português, dando ao ouvinte, que nada entendia do que ouvia, alguma indicação do significado da letra. Na época de Johnny Rivers, marcou-me quando ele tocou "By the time I get to Phoenix", traduzindo as frases, incrementando o romantismo da música. E ele fazia isso com diversas outras canções.
Um Sábado, ele soltou uma melodia recente que estava entrando nas paradas de sucesso. De letra inglesa, obviamente.
E a música começou. Achei estranho o nome, mas impressionei-me de imediato com a canção. Uma voz forte, uma melodia romântica. Ele aproveitou e traduziu desde a primeira frase. O meu conhecimento de inglês era até razoável, mas era difícil de perceber alguma cosa, já pelo rádio que apresentava distorções de transmissão e porque é realmente trabalhoso entender na primeira ou Segunda vez a conversação inglesa.
E continuou traduzindo. No afã de perceber a melodia, acabei por me descuidar da tradução da letra.
Ficou na minha cabeça: "Macaco no Parque".
Na rádio local onde tinha trabalhado, não encontrei nenhuma indicação quando passei por lá na semana seguinte pesquisando com uma antigo colega. Na semana seguinte, ouvi a mesma música, só que em outro programa. Não deu para eu ouvir o seu nome, pois pegara a audição parcialmente. Mas voltei a impressionar-me com a melodia.
A família tinha adquirido, em conjunto, cerca de alguns meses antes, uma vitrola muito simples, mas que para nós era um estouro. Mamãe já punha seus discos, a Bete, o Roberto Carlos, e eu, alguns compactos que tinha conseguido adquirir ou emprestar lá na rádio. Com isso, decidi comprar a música que ultimamente tinha me impressionado. Fui ás duas lojas da cidade e não encontrei. Coincidentemente, Bete resolveu ir para Campinas naquele Sábado. Acho que era para comprar enxoval. Afinal, tinha esperança de um dia se casar, apesar de estar ainda nos seus quinze anos.
- Você quer alguma coisa de lá, Clóvis? Perguntou-me, sabendo que eu gostava de música.
- Quero sim, Bete. Vê se você me acha um compacto. A música se chama "Macaco no Parque". É em inglês. Não sei se você vai achar.
- Eu pergunto lá nas lojas. Pode ser que eles saibam. Quanto custa?
- Acho que o mesmo que pagaria se fosse comprar aqui em nossa cidade. Eu te dou o dinheiro.
E lá foi minha irmã para Campinas. Eu até que fiquei aguardando com ansiedade, por um simples disco de duas músicas.
Bete começou a procura logo que chegou à rua Treze de Maio. À medida que ia passando pelas lojas que ela se interessava, parava em uma casa de discos.
Dado o pouco tempo que tinha para todas as suas compras previstas, ela não pesquisava o catálogo da discoteca disponível para vendas e, sim, perguntava diretamente a um atendente.
- Eu estou procurando uma música chamada "Macaco no Parque"; só que é em inglês. Vocês tem aí? É um compacto.
O atendente frisava a testa e erguia os olhos na procura da memória.
- Não, não temos. Aliás, nem conheço. É música recente?
- É . é sim. Pelo menos meu irmão, que quer o disco, disse que sim. Ele ouviu à questão de quinze dias atrás.
- Com esse nome não conheço. Macaco no Parque? Sorria ligeiramente – Não, não temos.
Como na primeira loja, sucedeu-se o mesmo na Segunda. E Bete sentiu um pouco mais o ligeiro sorriso do atendente. À medida que as horas da manhã iam passando, o forte sol acentuava o calor. Bete começava a se cansar e a inquietar-se. Na terceira loja de discos, fez a mesma pergunta, já então ruborizando as faces, meio envergonhada do ‘Macaco no Parque".
Ela chegou tarde. Não vira nada de barato para seu enxoval, comprara pouco, mas andara muito e estava exausta. procurou-me logo que chegou, por volta das onze e meia, na hora do almoço.
- Achou, Bete?
- Olha, Clóvis, eu trouxe um disco aqui. Não sei se é o que você queria. Perguntei para o moço, mas ele não tinha nunca ouvido falar em "Macaco no Parque". Como é nova, e esse aqui é parecido, achei que era esse o disco que você desejava.
E me entregou o disco. Quando olhei o rótulo preto e a inscrição do nome da música e do cantor, não sei o que aconteceu comigo. Vi no disco:
MacArthur Park – Richard Harris.
Num segundo, toda minha calma sumiu. Como se por mágica, transformei-me num estúpido, irado, irreconhecível. Berrei tanto que Bete se assustou:
- Bete! Eu falei MA-CA-C0 NO PAR-QUE. Macaco no Parque! Não é isso. Não é isso!
Ela balbuciou algumas palavras, tentando, sem jeito, se explicar, totalmente surpresa com a minha atitude imbecil.
- Era o que parecia... O homem falou que devia ser essa.
- Bete! Eu falei MA-CA-C0 NO PAR-QUE! Não essa porcaria!
- Mas, Clóvis, falou ela um pouco exaltada. Eu fiz o possível. Se você quiser, eu te devolvo o dinheiro. Ouça pelo menos; veja se não é aquela que você pediu...
- Não é o que eu pedi! Berrei mais uma vez.
E num gesto repentino, tomei o pequeno disco de sua mão e atirei no chão, com violência. Bateu no sofá da sala e saltou contra a parede. Retirei-me apressadamente para o meu quarto. Caí deitado na cama, bravo, irritado com a burrice de minha irmã.
A casa ficou muda. Mamãe, meus irmãos, todos ficaram quietos vendo minha irrupção de brutalidade. Bete saiu chorando para seu quarto, magoada.
Meia hora depois, um pouquinho só mais calmo, liguei o meu radinho de pilha. Era hora do Hélio Ribeiro. A terceira música me deixou de orelha em pé.
- Agora vamos ouvir "Macaco no Parque".
E o sonoplasta soltou a bela música.
Quis ele, novamente, propiciar aos seus ouvintes outra aula de inglês musicado. E lá foi o primeiro verso.
- Mac Arthur Park is melting in the dark.
E lá foi Hélio Ribeiro, traduzindo, irônico:
- Macaco no parque metido no escuro...
Num relance o primeiro verso de inglês veio à minha mente. MacArthur Park. Macártur parquer. Macaco no parque...
Eu me revi jogando o disco no chão. Veio-me à mente minha boca se abrindo em berros, xingando Bete. Minha boca berrando, magoando minha irmã. E ela tinha razão!
E eu que nem tinha feito o mínimo, que era experimentar o disco na sonata e já a ofendera pelo provável erro.
Devagarinho, fui virando a cabeça para o lado, encostando no travesseiro, como se fosse necessário esconder a vergonha que se apossara de mim. E eu a tinha xingado de burra. Burro era eu! Olhei para a outra cama e vi José lendo um livro de informática, quieto. Bernadão começava a dormitar. Até agora ninguém tinha percebido meu erro. Bete estava no quarto, consolada por Marcela. Fiquei quieto.
Mais tarde, fui recolher o disco. Era o "Macaco no parque". Com a batida, um pouco da borda se lascara, mas não iria impedir de ouvir a música. Mas, e agora? Como ouvir a música na frente dos outros, depois do escândalo?
Até hoje me sinto envergonhado. Foi uma daquelas coisas que marcam a gente, que cada vez que se toca no assunto o sentimento de vergonha se apodera de nós. Nunca mais vou apagar da minha mente essa atitude ridícula.
Depois disso, por um bom tempo, só ouvi a música baixinho, em meu quarto, quando não tinha ninguém.
Mas Bete não era e nunca foi burra. Ao contrário. Era muito mais inteligente do que eu. Meses após, quando ela também descobriu que estava certa, e eu que tinha sido um grande idiota, ela me disse:
- Está vendo, Clóvis? Eu comprei o disco certo... Se você tivesse experimentado antes de berrar feito doido...
E isso ficou nos três pontos. Por anos e anos ela manteve a discrição e nunca tocou no assunto. Ainda bem, pois, cada vez que eu ouvia a música, não conseguia afastar de minha mente a imagem do disco jogado, do rótulo preto com o nome da música em inglês, dos meus lábios se abrindo abruptamente ofendendo minha cara irmã. Ridículo.
Dez ou doze anos se passaram. Eu me casei, ela se casou e continuamos a nos ver. Hoje, curiosamente, sinto-me até melhor com a Marcela do que com a Bete. Mas somos grandes irmãos. Numa da inúmeras reuniões em família, com os pais, todos os irmãos, todos os sobrinhos, conversando sobre música, ela, num relance, se lembrou daquilo e falou em voz alta, para todos:
- Você lembra, Clóvis, do "Macaco no Parque"?
Eu fui rápido, abanando as mãos e a cabeça em sinal negativo.
- Esquece, Bete. Isso já foi, não quero mais me lembrar. Por favor, esquece.
Ela me compreendeu novamente. Como sempre, com classe, discreta, ela parou.
O EXECUTIVO
(Clóvis L. Padoveze)- Sueli – Chamou Aluísio pelo interfone.
- Sim, doutor – falou a secretária, apertando o botão do seu interfone, esperando a ordem que viria.
- Traga-me a pasta da filial de Salvador.
Eficiente como era, Sueli levantou-se de sua cadeira giratória, foi ao armário dos assuntos confidenciais, direto à grossa pasta relativa à documentação das transações com a filial da Bahia. Abrindo a porta da sala de seu chefe, com calma, adentrou-se solícita, entregando o volume de papéis a Aluísio. Ficou em pé, esperando a ordem de retirada ou uma nova solicitação, como de hábito sempre o fazia, conhecendo seu chefe como o conhecia.
- Só isso, Sueli. Obrigado.
Sueli virou-se, fechou a porta, voltou a sentar-se em sua cadeira e retomou seu serviço de datilografia. Estava minutando algumas cartas para a Diretoria Geral da companhia, onde o Doutor Aluísio, Gerente de Administração e Finanças, fazia algumas propostas para tomada de decisões, ideando modificações nos modos de vendas da empresa.
Novamente o som do interfone interrompeu o bate-papo na máquina eletrônica, parando os dizeres da carta.
- Sueli, pode levar as pastas.
Lá se foi Sueli, rapidamente, gentil e passiva, levar a termo o novo pedido do chefe.
Era sempre assim. Todo o dia. Toda hora. Todos os minutos.
Sueli para cá. Sueli para lá. Traga isso. Traga aquilo. Mais um café. Me leve isso. Me leve aquilo. Faz esse favor para mim. Obrigado. Ordens, ordens, ordens. Nunca um elogio, nunca uma conversa mais informal.
Sueli era uma moça muito bonita, sem ser uma mulher especial. Apesar de não muito alta, olhos verdes e grandes sobressaiam em seu rosto, chamando a atenção. Cabelos castanhos até os ombros, ondeados por penteados artificiais, tiravam-lhe o ar de menina que o pequeno tamanho sugeria, deixando-a mais mulher. Rosto ovalado, nariz pequeno, lábios bem feitos. Sem ser magra ou gorda, seu corpo tinha os traços bem torneados, numa apresentação simétrica para o gosto da época.
Seu chefe há mais de três anos era o Doutor Aluísio de Magalhães Pereira Couto. De família portuguesa tradicional, possuía o nome comprido e imponente, perfeitamente adequado para o cargo de executivo de uma grande empresa.
Trinta e cinco anos, há mais de cinco no cargo atual. Grande esperança da Diretoria geral da empresa, que apostava no seu futuro. Bom profissional, arrojado, dinâmico, inovador. Bom chefe, diziam os seus subordinados, que não eram poucos. Gerenciava três setores, comandando mais de sessenta pessoas ao todo. Alto, magro, início de calvície. Rosto estreito, encorpado pela espessa barba negra que deixara nos últimos meses. Nariz um pouco comprido, lábios grossos, cuja vermelhidão a barba, crescida em volta, evidenciava ainda mais.
Olhos um pouco fundos, infundindo pensamentos, indagações, calmo. Sem ser um chefe paternal, era educado com todos, independentemente de suas posições nos departamentos. Sempre que se apercebia, cumprimentava qualquer um que lhe passasse à vista, o faxineiro ou o supervisor do departamento. Não era orgulhoso.
O dia estava corrido para Aluísio. Chamou Sueli novamente.
- Por favor, traga-me o último balanço – falou como sempre no interfone – e continuou – Mais um café também.
Alguns momentos após, apareceu a secretária. Pasta na mão, xícara noutra. Esperou um pouco, como sempre. Após alguns segundos, o chefe perguntou.
- Quem preparou este balanço?
- Foi o supervisor da contabilidade – respondeu Sueli – Domingos.
- Faça-me o favor, chame-o aqui – solicitou novamente Dr. Aluísio.
Sem sair da sala, Sueli tomou o telefone interno, discando o ramal do Departamento Contábil e chamou o Sr. Domingos.
- Esses sujeitos só me aprontam, resmungou o chefe, para que Sueli ouvisse e não ouvisse. Tocou com a mão nos papéis, mostrando algum descontentamento. Quando Domingos entrou, arfando um pouco por Ter vindo quase que correndo (todos chegavam assim quando o Dr. Aluísio chamava à sua sala), Aluísio fez sinal com a mão, dispensando Sueli, que saiu.
- Domingos, que é isso aqui? – começou Aluísio, apontando um número no relatório. Neste está setecentos milhões; e olhe aqui, neste outro você resumiu, está apenas setenta milhões. Qual é afinal o valor correto?
Domingos tomou os papéis na mão para melhor verificar os números. Ficou vermelho. Gaguejou ao responder.
- Bem, doutor Aluísio, o senhor se lembra daquela alteração que fizemos ontem?
Doutor Aluísio fez sinal que sim com a cabeça, em afirmativa.
- Bem, continuou Domingos, esquecemos de alterar o relatório resumido, é isso.
- OK, Domingos; então acerte já, que vamos mandar publicar. Entregou os papéis para Domingos, que saiu para os acertos.
Era onze e meia da manhã. A primeira parte do dia de trabalho estava se encerrando. De sua cadeira giratória, com braços e grande espaldar de plástico acolchoado, Aluísio olhava pela janela. Do décimo sexto andar, onde ficava seu escritório, divisava no horizonte grande parte da cidade de São Paulo, com seus arranha-céus, suas ruas, seu movimento, sua atmosfera neblinada e poluída. Apertou novamente o botão do interfone.
- Mais um café, Sueli, por favor
Não saiu de sua posição. Com o cotovelo do braço esquerdo apoiado na cadeira e mão no queixo, fazia movimentos de ida e volta com a cadeira, olhando para fora. Nem bem notou Sueli trazer a xícara. Autômato, tomou da louça e foi bebericando o café, sempre olhando para fora.
Pensava.
Refestelado na sua cadeira, sorvia, com o café, o gosto do poder. Mandava. Sessenta homens à sua disposição, oito horas por dia. Chamava, ordenava, tinha o que queria. Visualizava Sueli, que representava para ele todas as sessenta pessoas de seus departamentos.
- "Coitados"- pensava Aluísio – "sempre obedecendo. Fora daqui, como será que eles são? Serão sempre assim? Pressurosos, solícitos, gentis, passivos, sem vontade? Só obedecendo? Será que eles tem consciência de que são assim sem força, inócuos, fúteis para a vida?"
Aluísio considerava-se um homem que conhecia a si próprio e a psicologia das pessoas. Também sabia que todo o trabalho que desenvolvia tinha importância apenas para a ambição material que ele possuía, mas não dava importância real para seu cargo. Para ele o importante era o espírito, a inteligência, a sua alma. A parte técnica e profissional, que tão bem ele desempenhava, tinha importância apenas com o intuito de lhe assegurar os bens materiais que desejava. Por isso, como conseqüência, saindo do trabalho esquecia completamente os problemas do serviço, que lá deixava. Não os carregava consigo. Sabia ser isso de pouca monta. No trabalho, procurava dar atenção a todos sempre que podia, procurando encontrar alguém que pensasse como ele, que fosse consciente da vida. Mas nunca encontrou.
Assim, intuía, ao ver tanta passividade de seus subordinados, que eles não eram conscientes do valor real da vida. Para eles apenas interessava o pouco dinheiro que ganhavam com seu trabalho, para satisfazer o mínimo de suas necessidades de alimentação, moradia e vestuário. Tinham que trabalhar para sobreviver e só isso é que guiava o seu comportamento.
Sempre recostado na cadeira, mão esquerda segurando o queixo, Aluísio filosofava. Olhava para fora, o sol tentando ultrapassar a barreira da poluição atmosférica, dando uma luminosidade opaca, sem vida, à grande cidade. A cadeira ia e vinha num vai e vem mecânico e lento, próprios para momentos de raciocínio. E para Aluísio, o fio de seus pensamentos era muito simples, os caminhos claros. Para ele, a humanidade era dividida apenas entre dois tipos de homens: os conscientes e os inconscientes.
Conscientes de que? Muito simples: conscientes da inutilidade da vida, da existência. Conscientes da eterna luta entre espírito e matéria, onde o que sempre acaba prevalecendo é a última, agindo sobre o ser humano, impulsionando-o às grandes conquistas e às grandes misérias.
Principalmente ás grandes misérias. A consciência dessa eterna luta, traz porém, ao homem, o desespero de viver. Aluísio já tinha se apercebido disso há muitos anos, concluindo esquemas de pensamentos e filosofia pessoas. A visualização do espírito, trazendo inicialmente a descoberta do mais importante para o homem, fá-lo raciocinar sobre si mesmo e sobre o mundo. Porém, como um bumerangue, essa descoberta maravilhosa, traz de volta a aguda consciência de nossa pequenez perante o universo, crendo e não crendo em um Deus, principiando a atuar num clima de pessimismo e omissão, chegando finalmente à indiferença.
Muitas fases teve Aluísio nesse pensar. Muita alegria e muita tristeza tirou desses pensamentos. Algo apenas ficou. A consciência de que o homem consciente sofre muito, muito mesmo. Conhecendo os dois lados da vida, matéria e espírito, passa a criticar tudo à sua volta, tendo-se como onisciente, capaz de compreender tudo com a lucidez necessária.
Essa onisciência é traduzida no dia a dia, como um desprendimento das coisas que o cercam, e o perdão antecipado aos erros dos demais homens, os inconscientes. como um superior, alguém colocado num pedestal muito alto, capaz de visualizar todos os ângulos da vida humana, Aluísio tinha dó, pena, inveja dos inconscientes à sua volta. Sueli, domingos, todos se lhe afiguravam pequenos, crianças mesmo, nas suas emoções vulgares, nas suas diminutas ambições, nos seus desejos de riquezas inesperadas, nas suas invejas, nas suas críticas a tudo e a todos. Não passavam de saguis, pensava Aluísio. Pulam, pulam, ao simples enxergar de um pedaço de doce, fazem um gracejo. A uma ordem, obedecem, cabisbaixos.
No período da tarde, Aluísio desceu ao andar inferior, onde ficava o setor de finanças. Geraldo, o supervisor daquela área, fez as gentilezas cabíveis à chegada do chefe. O pessoal, uns trinta mais ou menos, estavam espalhados em mesas assimetricamente dispostas, com algumas pequenas separações por biombos medianos. Junto à mesa grande de Geraldo, Aluísio discutia, com este e outro chefe de setor, dados para serviços futuros. Do local onde estava, Aluísio conseguia ver muitos funcionários trabalhando em suas mesas. Alguns eram seus conhecidos desde há muito tempo; de uns Aluísio lembrava seus nomes e, de outros, até o seu modo de vida.
Numa pausa do serviço, atentou para Vitorio Luís, um dos mais antigos do departamento. Sempre calmo, fazendo as tarefas como se fosse uma máquina, em ritmo lento, compassado. Eventualmente, os olhares se cruzavam, e Aluísio percebia que Vitorio Luís olhava para onde ele estava, como se quisesse captar o que Geraldo e ele estavam conversando. Os pensamentos que tivera de manhã conduziram à Vitorio, fazendo com que Aluísio chegasse nele, naquela hora, o protótipo dos inconscientes.
Cultura vulgar de revistas semanais, nada de conhecimento de arte, vida mediana, pai de dois filhos, casa própria adquirida com financiamento governamental, salário insignificante, apenas para comer e vestir. Conversas de maledicência e correlatas, ataques a governo sem conhecimento de causas, apaixonado por um clube de futebol; enfim, tudo o que um homem tem e precisa para se tornar a mais obscura e desinteressante das criaturas deste planeta.
Faltava cerca de meia hora para o término do expediente do dia.
Num momento, num olhar de relance, Aluísio pareceu perceber no olhar de Vitorio Luís um não sei quê de malícia, e na boca, um sorriso zombeteiro.
Continuou, porém, o diálogo com Geraldo sem se sentir intrigado mais do que alguns segundos. Momentos depois, erguendo a cabeça, voltou a sentir o olhar brejeiro e o sorriso cínico de Vitorio Luís, que ele sentiu, era dirigido somente a ele. Um pouco desconcertado, Aluísio continuou a conversa, pensando de si para si, que aquele atrevimento de Vitorio Luís devia ser decorrente de conversas paralelas com seus colegas, zombando da liderança do departamento trabalhando em frente a todos com grande entusiasmo. Num lapso de pensamento, Aluísio perdoou de si para si o funcionário.
Momentos após, ao levantar outra vez a cabeça, Aluísio viu o mesmo sorriso em outro funcionário, dirigido à ele. Voltando-se para Geraldo, viu, com espanto, que este tinha um leve sorriso nos lábios, como se a gozá-lo. Aluísio vacilou. Tornou a olhar para Vitorio Luís e não teve mais dúvida. Ria descaradamente, numa zombaria dirigida totalmente para ele \n'; document.write(barra); } } changePage();
O outro que estava a seu lado não mostrava-se diferente.
Já de pé, Aluísio percebeu que todos, um a um, estavam sorrindo, em escarninho, dele. Todos sentados, olhando para ele, concentrando os olhares de zombaria. Aluísio pensou estar num sonho. "Quem são eles para rirem de mim?" pensava fortemente. "Eles não são nada, são inconscientes. Eu é que sempre ri internamente deles, de suas ingenuidade." Foram poucos segundos para pensamentos claros. Um a um, os funcionários se levantaram, e sorrindo primeiramente, e gargalhando logo mais, avançavam para Aluísio, apontando o dedo indicador como a mostrarem um culpado de crime. Este foi retrocedendo, humilhado, sem compreender nada desse absurdo. Seus funcionários! Rindo dele!? Insegurança tamanha se apossou de Aluísio. O cerco estava se fechando. Todos foram se achegando, apontando o dedo para ele, gargalhando em zombarias.
Quando chegaram cerca de um metro e meio, num rompante, Aluísio ultrapassou a parede humana que gargalhava e saiu apressado, quase correndo, para o saguão do elevador. Momentaneamente a sós, um sentimento de alívio e tranqüilidade. Parecia que o sonho mau tinha se acabado. A porta aberta do elevador foi a alegria inusitada. Num segundo subia para o andar superior, onde ficava sua sala. No abrir a porta para a ante sala da secretária, já pensava em comentar com ela o sonho feio de há pouco, quando notou que Sueli, de pé, também estava sorrindo. O mesmo olhar de Vitorio lá embaixo. O mesmo sorriso nos lábios. Passou por ela apressadamente, entrou em sua sala e retirou a sua bolsa e chaves do carro de uma das gavetas da mesa, decidido a ir para casa. Novamente o elevador livre o desafogou um pouco. Libertou o pescoço da gravata, suspirando forte para aliviar-se.
No térreo, no abrir automático das portas do elevador, divisou o porteiro. Sorrindo. Zombando. Um homem de terno e gravata alguns passos além chamou-lhe a atenção. Dirigindo-se a ele em busca de apoio, tocando no seu ombro, viu também que este sorria zombeteiramente. Olhou em vão ao redor. Todos sorriam. Sem exceção. Alguns gargalhavam, outros apontavam o dedo. Disparou para a entrada do edifício, tentando ganhar a rua. Ninguém o impedia. Apenas o riso, as gargalhadas, o maltratavam. Sua mente ficou num redemoinho, numa confusão total. Aturdido, procurava um refúgio, alguém que o escutasse, que lhes explicasse o que estava acontecendo. Nada. Ninguém o socorria. O pesadelo era demais, sua mente girava. Ao atravessar os limites da entrada do edifício, reconheceu a voz do porteiro, num berro que vinha do fundo:
- Consciente! Ah, Ah, Ah, Ah...
Aluísio assustou-se de vez, mas compreendeu alguma coisa. A gargalhada ressoava em sua mente: "Consciente! Ah, Ah, Ah".
Atordoado, saiu para a rua, procurando alcançar seu carro no estacionamento.
E o que viu assustou-o, todos os transeuntes estavam parados, cinqüenta ou cem pessoas, esperando-o na avenida, outrora movimentada naquele horário, estava deserta de veículos. Só pessoas. Todas gargalhando, rindo dele, escarninhando o homem. O dedo indicador não deixava dúvidas.
Alguns principalmente a gritar:
- Cadê o homem consciente? Cadê o homem consciente?
Outros berravam:
- Inconscientes? Nós? Inconscientes? Ah! Ah! Ah! Ah!
Aluísio não sabia o que fazer, onde quer que tentasse se esconder encontrava alguém gargalhando. Trôpego, suando em bicas, desalinhado, batia com os ombros nas paredes dos edifícios, como um bêbado. As frases eram duras, vindas de todas as direções, gritadas:
- Inconscientes! Ah! Ah! Ah! Ah!
- Trabalhastes bem, consciente?
Outro berro:
- Éramos passivos, consciente?
- Obedientes?
- Carneirinhos?
- Insignificantes?
- Saguis?
- E agora?, consciente? – alguém se sobressaiu na multidão. Diga-nos?
- E agora? Rias de nós? De nossa ingenuidade? E agora, consciente?
Um outro gritou:
- Seu bobo!
Alguém mais adiante conseguiu se fazer ouvir:
- Seu burro!
Totalmente desatinado, fora de si, Aluísio ainda teve tempo para pensar. Fora ludibriado. Todo o tempo. Fora escandalosamente ludibriado. Enquanto mandava, dispunha de seu pouco poder, estava sendo enganado.
Eles obedeciam porque queriam. Eram passivos porque mentiam. Sueli, Domingos, Geraldo, todo esse tempo o fizeram de bobo. Eles é que eram conscientes. "Deixaram-me trabalhar, pensar por eles, sofrer por eles".
"Subrepticiamente, foram deixando que eu pensasse que era-lhes superior, fazendo-me produzir por eles. Eu ambicionava e eles obedeciam. Ah! Fui enganado, vergonhosamente enganado!".
- Ah! Ah! Ah! Ah! Trabalhaste para nós! Ainda ouvia.
- Consciente! Ah, que bobo, que idiota, que imbecil! Se fazia ao longe.
O SENHOR TOZAM, O MASSAGISTA (Clóvis L. Padoveze)
Eu o conheci por intermédio do Jonas e desde a primeira vez ele me impressionou muito. Gostei da sua tranqüilidade, que irradiava segurança, do seu modo de vida simples e de suas certezas.
Jonas era um meu conhecido, mais chegado que um simples colega de turma mas não tão íntimo como um amigo. Conheci-o através do futebol. Tanto eu como ele liderávamos times de futebol amador. Um dia convidaram meu time para jogar uma partida com a equipe da juventude presbiteriana da cidade, que o Jonas liderava. Já o conhecia de vista, andando pela cidade, pois era de família de lavradores tradicionais, e tive a oportunidade de cumprimentá-lo na primeira de uma série grande de partidas entre os nossos dois times. Nosso relacionamento estreitou-se ainda mais quando meu time ficou sem o campo para treinos aos domingos de manhã. Aí o Honório, o mesmo que acertara o primeiro jogo com o pessoal presbiteriano, me disse:
- E se a gente pedir emprestado o campo do Jonas até arrumarmos outro para nós?
- O campo do Jonas!? Retruquei espantado.
Não sabia que ele tinha construído um campo, próximo à cidade, num sítio de seu pai, que era ligado à cidade pela rodovia que ia a Piracicaba.
- É ali na saída da cidade, em frente a fábrica de brinquedos de plásticos.
- Você é que sabe... – continuei meio desconfiado, sem animá-lo. O campo é grande?
- Um pouco maior que esse em que estávamos jogando. Vai ser preciso convidar mais alguém para completar a equipe.
- Peça. Se ele deixar, vamos lá. Se for preciso pagar alguma coisa, veja com ele. Depois a gente cobra da turma.
- Está bom. Amanhã mesmo eu falo com ele. Depois eu te aviso.
No dia seguinte dentro da fábrica onde trabalhávamos, recebi um telefonema do Honório.
- Caio? Falei com o Jonas. Tudo bem. Ele disse que podemos ir. Só não quer que estraguemos a grama, quando estiver chovendo.
- Isso é o de menos. Quando podemos começar?
- Domingo agora. É só avisar o pessoal.
- Pode deixar, eu aviso. Avise você o Flávio, que me comunico com o restante do pessoal.
- O que você acha de eu levar meu irmão, o Zé?
- Tudo bem, vai precisar mesmo, se o campo for maior que aquele em que nós estávamos jogando. Ele falou se temos que pagar alguma coisa?
- Ficou até bravo quando falei em dinheiro. Ele faz questão que nós brinquemos lá até encontrarmos um campo menor, mais ajeitado para nosso time.
Quando no Domingo vi o campo do Jonas, exclamei de admiração:
- Que campo! Nunca vi gramado tão bonito!
E deu-me uma vontade danada de Ter o MEU campo. Essa vontade cresceu e foi isso que me fez mais achegado de Jonas. Um mês depois, reuni a minha turma antes de começar o jogo na manhã do Domingo e explanei a eles o meu projeto de construir um campo só para nós, só para o nosso time. A partir desse dia, por mais de um ano, pedi tantos conselhos e tantos favores ao Jonas, que perdi a conta. Jonas era de descendência alemã, pelo menos o indicava seu sobrenome. Stolf. Não muito alto, cabelos castanhos alourados puxados para trás, bem penteados, nariz excessivo e pontudo, saltando de um rosto aquilino, avermelhado de trabalho na lavoura. Era ligeiramente curvado. Presbiteriano convicto, em tudo agradecia a Deus. Por sua família, seus amigos, sua igreja, sua lavoura, sua sorte.
Por essa época, enquanto o campo de nossa turma estava ainda em formação, jogando num Domingo, senti um puxão violento na perna direita, rasgando a perna. Distensão. E forte.
Na Segunda feira, quase não podia andar de tanto que doía e repuxava.
O médico da firma receitou-me um especialista em ortopedia. Esse receitou-me uns remédios e umas aplicações quentes na perna, de aparelhos específicos. A fisioterapeuta, ao cabo de vinte dias, disse-me com calma e convicção:
- Pode ir jogar que você não tem mais nada.
Não tinha mesmo. Não tinha pouco! Tinha bastante!
Na Segunda feira, voltei à fisioterapia.
- O que foi? Perguntou-me a moça na entrada.
Abanei a cabeça e ele entendeu.
Mais quinze fisioterapias.
- Agora pode ir, que sua perna está um aço!
Foi ir e desistir. A dor que veio foi pior do que a primeira vez. Fiquei desanimado. A coisa que eu mais gostava de fazer era jogar bola. Estava construindo um campo, de tanto que eu gostava de futebol, e aquela contusão que não sarava. Pareceu-me que nunca iria sarar. O desânimo abatia-me.
Dias depois passei na casa do Jonas para perguntar-lhe se era hora de adubar o campo em construção ou se precisávamos colocar terra por cima para nivelar a grama. No final da conversa, ele acabou por saber que eu estava com distensão.
- Com que médico você foi? Perguntou-me subitamente, como se entendesse do assunto.
- Com o Edvaldo Sapeli, ali perto da cadeia.
- Ah! Eu também fui lá. Não gostei. Disse que eu tinha isso, que eu tinha aquilo, me fez umas injeções na coxa, e eu continuo arrebentado.
- Faz tempo que você pegou distensão?
- Vai para seis meses. Não me curei até agora.
- Isso até é um alívio para mim. Há dois meses que eu também não jogo por causa dessa maldita.
- Você já foi no Tozam?
- Tozam? Não. Quem é?
- O massagista. O Tozam.
- Não sei quem é.
- Aquele que foi massagista dos profissionais do União Agrícola Futebol Clube.
- Não conheço.
- Então vai lá. Ali eu garanto que você sara. Depois que o Dr. Edvaldo me fez aquelas injeções e só piorou minha perna, me indicaram o Tozam. Fui com ele. Estou indo ainda de vez em quando. E melhorei tanto, que já dá para jogar bola.
- Ele mora onde?
- No final da Vila Lino, perto do trevo da saída da cidade.
- Que rua?
- Chiii rapaz! Não sei o nome. Acho que não tem nome. É uma rua sem fim. Ali antes era terra do pai e ele ainda tem uma chácara, apesar do local agora fazer parte da cidade.
- Acho que eu vou lá um dia desses.
- Faz o seguinte: eu estou para ir lá hoje levar a minha mulher. Ela está com umas dores nas costas e precisa fazer uma aplicação. Aparece aqui que nós vamos juntos e você aprende o caminho.
- Ele faz massagens em mulheres também?
- A mulher dele. Ela também entende um pouco.
- O.k. A que horas você vai?
- Lá pelas oito da noite. Você pode vir aqui?
- Posso. Eu venho, deixo o meu carro na frente de sua casa e vamos com o seu. Certo?
- Certo. Tchau.
Dez minutos antes das oito da noite, desci do bairro onde morava, em direção ao centro da cidade, parando em frente à casa do Jonas. Bati na porta e aguardei alguns minutos na sala de sua casa enquanto este se aprontava. Jonas, sua mulher e eu, entramos no seu carro e fomos ao massagista.
No caminho de ida, enquanto atravessávamos o centro da cidade, ele ia encorajando-me.
- Ele vai fazer uma aplicação hoje. E ele vai dizer se pode ou não jogar. Daí você combina com ele, se precisar fazer mais aplicações.
Passamos pelo centro e pelo bairro onde eu tinha passado grande parte da minha infância, e chegamos ao local onde morava o Tozam. Era um resto de sítio, que o homem resguardara pedaços. Uma casa no final do terreno, onde morava. Nos fundos da casa, após um espaço de terreno tijolado, erguia-se uma casinha de dois cômodos, o senhor fazia as suas massagens.
- Como vai Sr. Tozam? Foi entrando e cumprimentando Jonas, familiar. E em seguida:
- Trouxe aqui um amigo, Caio. Está com distensão na perna e queria que o senhor desse uma olhada para ele.
- Pois não. Vamos lá, falou atencioso.
Em alguns segundos e duas frases simpatizei com o homem. Um senhor de cinqüenta anos, de uma magreza realçada pela altura de mais de um metro e oitenta e cinco. Cabelos grisalhos em toda a cabeça estreita e pequena, nariz e queixo fino. No lábio superior, um fio de bigode grisalho, acompanhando a cor dos cabelos. Voz pausada, grave, indicando segurança e experiência. Mãos grandes, ossudas, pendentes nos longos braços. Nos pés, um chinelo na medida.
Esperamos a mulher do Jonas fazer sua aplicação e entramos a ocupar o quarto de massagem. Eu esperava um cômodo cheio de apetrechos para educação física. Mas não tinha nada disso. Numa parede fixado com parafusos, dois ferros que sugeriam algum equipamento para fortalecimento dos músculos dos braços, que há muito tempo não deveria ser usado. Uma cama com pés altos, encostada num dos cantos, duas cadeiras. Fixado na parede, em cima da cama, um escaninho de madeira que segurava uma caixa de couro preta, retangular, de tamanho de um paralelepípedo. Dava para ver dois botões e um pequeno painel elétrico, indicando medidas de freqüência. Senti que era o seu instrumento. Ao lado, num canto da cama, um travesseiro de plástico, cujo fio indicava que era aquecido por eletricidade. Um outro instrumento pequeno, de mão, completava o equipamento de massagem.
Jonas e eu aguardávamos sentados, pois o senhor Tozam voltara para sua casa. Retornou com duas bolachas de plástico preto, do tamanho de sua mão, ligadas por um fio elétrico. A parte que encostava na pele era de espuma de náilon. Estava úmida, para dar corrente à energia elétrica. Ligou o fio na tomada de força. Eu já estava de cuecas, recostado na cabeceira da cama, pernas estiradas.
- Onde é a distensão? Perguntou-me.
Apontei a coxa direita. Ele passou uma das bolachas, friccionando levemente a perna, e logo em seguida encostou a outra no lado oposto da primeira. Mexeu um botão na caixa de couro preto, dando uma freqüência que usava para teste inicial, fazendo com eu sentisse a transmissão de energia elétrica, que passava pela musculatura da perna, de uma bolacha à outra. Quando a energia elétrica passou pelo local do músculo rompido, não segurei um grito de dor, repuxando-me todo.
- É aqui? Perguntou confirmando. Dói muito?
- Bastante. Não dá para agüentar.
Mexeu no botão novamente, diminuindo a freqüência, e ficou movimentando as bolachas por toda a coxa por mais quinze minutos. Durante todo esse tempo não falava. Apenas dos pés da cama onde eu estava recostado serem de um metro de altura, mesmo assim o senhor Tozam recurvava-se um pouco para que suas mãos tocassem a minha perna, tal a sua altura. com não podia fazer nada, a não ser esperar que ele me massageasse, focava olhando, ora para a sua mão, ora para seu rosto, ora para a parede da frente, mas não puxava conversa com o homem. Jonas tinha saído com a mulher, e conversava lá fora no espaço entre as duas casas, aproveitando a frescura da noite.
Deu para eu perceber que o homem era de pouca conversa. Não insisti, pois gostava de respeitar o jeito de ser dos mais velhos. Porém, a sua postura, o seu modo de falar, sua tranqüilidade, me impressionava. Senti que estava na frente de um homem convicto em suas opções, em seu modo de viver, e, instintivamente, na eterna procura da segurança que é latente em todo ser humano, ansiei por ser amigo, ou pelo menos colega, do senhor Tozam. Sua quietude, sem ser ríspido, porém, não me deu azo a muita conversa. Duas ou três perguntas que fiz, foram respondidas educadamente, porém sem ar oportunidade da conversa continuar. Não me fez nenhuma pergunta, a não ser de natureza técnica. Dói? E agora? Sente? Está quente?
A contusão era mais grave do que eu temia.
- Precisa de pelo menos dez aplicações, sugeriu ele. Depois uns exercícios, e só daí pegar bola.
Marcamos uma outra aplicação para o dia seguinte. Entre essa contusão e uma antiga no tornozelo que resolvi consertar de vez, fui cerca de vinte vezes à casa do senhor Tozam. Durante esses dois meses em que nos encontramos, consegui saber alguma coisa sobre ele, a custa de várias perguntas adequadamente colocadas. Soube que era amigo dos meus tios, que moravam em outra chácara, também no final da cidade, que tinha recebido aquela terra como herança, que passava o dia todo cuidando de sua chácara, tirando leite de vaca, tratando das galinhas, do grande viveiro onde tinha rolas, nhambus, codornas, perdizes e até um pavão, dos peixes do pequeno lago mais abaixo. Toda semana, às quintas-feiras, juntava-se a uma turma de pescadores e iam para Anhembi bater rio à busca de traíras. Quatro filhos estudando em faculdade, que ele sustentava sozinho. Fazia vinho em casa, que vendia aos amigos. Interessei-me pelo vinho, que ouvia dizer, era muito gostoso quando feito em casa. Ofereceu-me um copo numa noite.
De manhã e à noite, atendia gente de toda idade e classe social. A todos receitava uma única coisa. Massagens elétricas, com duas bolachas de plástico preto, que levava ao local contundido, fosse qual fosse a contusão e fosse qual fosse o local machucado.
Em todo esse tempo, aprendi a admirar sua quietude, a firmeza, a lucidez daquele homem magro. O seu modo de vida parecia a concretização de um ideal antigo, que nada o fazia mudar agora. E que ele curtia cada momento de sua vida, de seu trabalho. Nunca o vi falar mais alto com a sua mulher do que comigo. Sempre aquele tom calmo de voz. Uma vez ou outra, que fui à sua casa de manhã, o via voltando da ordenha, cabelo algo despenteado, calça um pouco suja, mas sempre de porte impecável, parecendo que fazia questão de se manter ereto. Nunca o vi dar um passo apressado. Andava como falava. Com calma e precisão, em movimentos contínuos e cadenciados.
`no ano seguinte, machuquei-me novamente, porém sem grande gravidade. Deu para revê-lo e sentir que não tinha mudado em nada. O tempo parecia que não o afetara.
Depois dessa vez, fiquei três anos sem o ver. Nada de contusões, apesar de tanto jogo de futebol. Recentemente, porém, contundi-me novamente, também sem maiores problemas. Na semana seguinte à contusão, resolvi procurá-lo, mais para matar a saudade de revê-lo do que para fazer massagem.
Quase nada tinha mudado. Um portãozinho novo ali, o quarto de massagem mais para o fundo. Os apetrechos, os mesmos.
- Como vai, seo Tozam?
- Tudo bem, e você?
- Não muito, senão não estaria aqui – retruquei brincando – acho que peguei um estiramento na virilha. Quando dá para eu vir aqui fazer algumas aplicações?
Ele pensou um pouco antes de responder, de pé, no outro lado do portão, mão no queixo.
- Amanhã de noite você tem tempo?
- Hum, hum...tenho sim. A que horas?
- Sete e meia está bom?
- Tudo bem. Amanhã às sete e meia da noite. No mais...tudo bem?
- Graças a Deus, tudo bem.
Fui cinco ou seis vezes, em duas semanas seguidas. Nesse tempo, conversamos um pouco mais. Em um outro dia, tive a surpresa de ver o senhor Tozam puxando a conversa, se bem que em rápidas perguntas. Senti que, finalmente, ganhara a simpatia do homem.
Lembrei-me do vinho.
- Fez algum vinho este ano? Perguntei.
Não, não achei uva. Além de estar muito cara, ouvi dizer que não madurou muito bem e que está saindo um vinho azedo. Os galhos não acompanharam o amadurecimento da uva, e quando fermenta, acaba saindo um vinagre ao invés de vinho.
- Sabe, seo Tozam, estou tomando vinho. Vinho branco desses que vendem aí nos supermercados.
Eu contei a ele o gosto que adquirira nos últimos dois anos, por vinho branco, tipo alemão. Chegamos a falar como dois entendidos. Sempre eu respeitava sua opinião, pois ele era orgulhoso de seu conhecimento vinícola.
No Domingo seguinte, à tarde, fui à sua casa acertar as contas das massagens.
Quando abri o portãozinho de ferro, vi seu filho no degrau da casinha consertando o aparelho elétrico de massagem do pai. Percebi que o senhor Tozam estava cuidando da chácara.
- O seu pai está aí? – perguntei.
- Está tirando leite da vaca. E chamou o pai de imediato, por um berro.
Daí a um minuto, vi seu Tozam saindo de trás do chiqueiro dos porcos, atravessando o viveiro dos pássaros. Senti de imediato que sua fisionomia estava um pouco dura. Pensei comigo mesmo "será que ele ficou bravo por eu Ter chegado agora, Domingo, quando ele trabalhava?" . Resolvi acertar as contas assim mesmo.
- Oi, seu Tozam, tudo bem?
- Tudo bem, e você? Como vai o pulso?
- Não vai bem. A perna sarou, mas o pulso está na mesma. Paciência. Vou Ter que engessar de novo (era um pulso que eu tinha machucado recentemente, mas não me impedia de jogar bola).
- Acho que é melhor engessar mesmo.
Estávamos parados em pé atrás da casa principal, numa coluna de tijolos, ao sol. Parecia que ele estava com pressa, por isso fui direto ao assunto.
- Vim acertar com o senhor as aplicações...
Ele não me respondeu. Enquanto virava-se rapidamente disse-me:
- Vou trazer um copo de vinho para você experimentar.
Entrou na sua casa, pela cozinha. Achei estranho. Parecia que estava com pressa mas ofereceu-me vinho. Voltou num minuto. Em movimentos rápidos e secos, pôs o garrafão de vinho rosado e o copo na mesa ali fora. Em minha mente, espantava-me com os gestos ríspidos, que eu não estava acostumado. "Parece que ele quer dar o fora em mim logo, jogando-me esse vinho. Mas porque então ofereceu-me o vinho?".
O copo era muito para mim. Estava quente, o sol de verão deixava um mormaço que importunava. Senti um calor subir no meu peito, que me fez suar, apesar de eu Ter tomado banho pouco tempo atrás.
- Que tal o vinho? perguntou-me Tozam.
- Bom... falei reticente (não sabia se era um vinho bom ou ruim. Estava muito calor para beber vinho àquela hora). É gostoso...tem um cheiro diferente, forte...é bom sim...
- espere um pouco que você vai tomar um outro, um vinho branco. E saiu, entrando novamente na casa, voltando em seguida com uma garrafa sem rótulo, com um vinho amarelado.
"Ele quer me testar. Quer saber se eu entendo mesmo de vinho, por isso trouxe o branco. E agora? O que é que eu falo?". Tinha receio de falar que era vinho ruim, pois podia ser um vinho que ele considerava bom. Tinha receio de falar que era um vinho bom, pois poderia ser um truque e ser uma porcaria. Fiquei na dúvida, sem saber o que falar. Estava assustado – procurava não demostrar – pelo modo que ele me tratava naquela tarde.
- Experimente esse agora.
- Mas não terminei o rosado. Tem bastante ainda.
- Jogue fora, aí no tanque.
Outro susto. Jogar fora meio copo de vinho! Quase gaguejei.
- Mas...jogar fora...tudo isso?
- Jogue fora, se você não agüenta tomar.
Joguei.
Colocou o vinho branco no mesmo copo, que eu tinha repassado na água.
- Que tal esse? Perguntou-me após eu tomar o primeiro gole.
Procurei as palavras, para dar um tempo a mim mesmo e saber o que falar.
- Tem um cheiro esquisito...
Não sabia se o cheiro era de bom ou ruim. Para mim, o paladar era o mesmo do outro que eu tinha tomado pouco antes. Tomei outro gole, olhando nos olhos do massagista. Degustei lentamente.
- Sentiu algum gosto no final? Ajudou-me.
- Bem...
- Parece água quando termina de descer, não é?
"Será que isso significa que o vinho é bom ou que o vinho é ruim?" pensei.
- Parece água. É pura água. Sabe o que é isso? É puro ácido. Não tem nada de vinho. É só produto químico. E tem gente que bebe isso e pensa que é vinho de primeira. Esses cara não entendem nada. Continuou.
- Aquele outro vinho não. Aquele é bom. Eu coloquei casca de maçã, enquanto fermentava. (Parecia que ele queria se vingar de mim, de alguma coisa).
- Por isso tinha cheiro diferente? Arrisquei.
- É lógico. Isso é vitamina. Vinho tem que ser assim. Vitamina. Não essas porcarias que tem esses "vinhos" brancos que vendem por aí.
- Fiquei desenxabido. Quieto. Deixei ele falar.
Ele continuou.
- Outro dia, o Beto Sales esteve aqui. Aquele conhece vinho, você sabe. É bebedor há muitos anos. Quando ele tomou um copo desse vinho, ele falou:
- "Tozam. Eu comprei outro dia um vinho estrangeiro, de trinta dólares a garrafa e ele não chega aos pés do seu vinho. Isso é que é vinho, forte, gostoso".
- Realmente o vinho rosado estava bom mesmo. Eu vi que era diferente. Muito bom. O branco parecia água quando passava pela garganta. Mas seo Tozam – tentei me antecipar em desculpas – eu não sou muito de vinho tinto. Prefiro o branco, gelado.
- Você bebe o vinho tinto gelado.
- Não. Não. O vinho tinto não é para beber gelado.
- Por que? Você sabe?
- Senão fica aguado – falei. Tinha me lembrado que outro dia alguém me havia dito isso, recentemente. Graças a Deus!
Em poucos minutos paguei minha conta, com um pequeno desconto pela "amizade".
Saí rápido, desconfiado, um pouquinho chateado. Pela primeira vez tinha visto o seu Tozam dar uns passos rápidos e fazer perguntas diretas.
ANGÚSTIA (Clóvis L. Padoveze)
Ele não conseguia se explicar a razão de sua angústia.
Sentia-a todos os minutos.
Mas queria uma explicação para si próprio.
Por que esse aperto no peito? Por que esse eterno pensar? Por que essa eterna dúvida?
Alguma coisa o oprimia e ele dizia a si mesmo que tinha que saber o porquê. Sempre soube o que lhe acontecia, com incrível nitidez. Porque agora, só agora, não conseguia se entender. Seriam as responsabilidades? Poderia ser, mas isso todos tinham e não se percebia a angústia a todo momento nos outros. Seria o medo de se desempregar? Poderia ser. Afinal tinha uma mulher e filhos, que em princípio dele dependiam. Enfim, não atinava com a razão correta.
A notícia veiculada que talvez houvesse dispensa de funcionários na empresa onde trabalhava, tinha deixado-o triste. Afinal de contas, dali hoje estava dependendo o seu ganha pão, sua tranqüilidade.
Isso aí, sua tranqüilidade.
Emprego. Segurança. Tranqüilidade. Pão.
Recostado na poltrona, tomando cerveja, ouvindo música, ele sentia o prazer do conforto, da segurança material. Em verdade, não lhe faltava nada, e isso ele dizia constantemente a si mesmo.
Tinha mulher, filhos saudáveis e que ele gostava, pais amados que transmitiam amor e confiança, sogro querido, boa casa, boa comida \n'; document.write(barra); } } changePage();
Num átimo de segundo, reviu em sua mente a sua posição na sociedade. Era respeitado pelo que tinha, pela sua posição, pelo seu emprego, pelo seu status, pelo seu dinheiro. Pouco ou muito, era respeitado pelo seu dinheiro.
E percebeu, no átimo segundo, que o que tinha determinava o que ele era.
Assustou-se.
Assim, sentiu que o respeito que infundia aos outros, pelo que ele era, nada mais era que o respeito que as pessoas tinham por alguém que possuía. Os bens que acumulara, a posição que ora ocupava, dava-lhe liberdade de locomoção, liberdade de ação, liberdade de palavra.
Conseguia ser franco com os outros. Era direto no falar. Parecia ser um sujeito duro. Chegava a dizer a alguém:
- Você é mesmo burro!
Não sentia vergonha de dizer.
- Faça como eu!
Como se fosse algo ou exemplo para ser seguido.
Agora estava enxergando mais claro.
- "É isso! Tudo o que eu tinha sido, vem do que eu possuo".
Aventurava em pensamento.
- "Se eu não tivesse um bom emprego, se eu não tivesse esses bens, se eu não fosse respeitado pela minha esposa, teria capacidade para ser duro com os outros?"
A resposta era clara.
- "Não, não teria".
- "Seria um fraco".
A sua fortaleza nada mais era do que um prolongamento de suas posses. Se por ventura ainda fosse mais rico, se tivesse mais dinheiro, seria então mais forte. É o óbvio.
O poder é força. O dinheiro é poder. O mundo é dinheiro.
Dinheiro. Palavra maldita por muitos e bendita pela maioria.
Mas dinheiro é uma invenção do homem.
Ele significa a propriedade. E o homem valoriza a propriedade. O homem nunca valoriza o homem. Um homem proprietário é chamado de homem, e um homem sem nada no mundo não passa de um verme, de um rastejador.
Mas ele não queria ser um rastejador. Queria ser um homem.
Mas não queria ser um homem proprietário, um homem que o mundo se acostuma a chamar de homem. O homem-dinheiro. Queria ser um homem independente, capaz de ser homem em qualquer momento, sem depender de dinheiro, poder, e propriedade.
Seu espírito fraquejava.
Mas descobrira a causa de sua angústia.
Ele ainda estava completamente aprisionado aos bens, às posses materiais. Tudo o que tinha sido até o momento nada mais era do que coisas, matéria.
Ele mesmo não se expressava em suas atitudes.
Seus bens se expressavam em suas atitudes.
Seus bens se expressavam por ele.
Ele não era ele. Ele era seus bens, suas posses, seu dinheiro.
Qualquer alusão à perda de seus bens lhe trazia angústia. Porque a perda de seus bens introduzia a perda do respeito que tinha por si mesmo até aquele momento.
Sabia que tendo perdido seus bens, não lhe restaria mais nada. Seria abandonado. Abandonado na rua.
Como um cão sem dono.
Isso ele não poderia se permitir.
Era um homem.
Tinha que ser um homem.
Tinha que ser respeitado como homem.
Mas, como conseguir o respeito sem bens?
Ele teria capacidade para isso?
Lembrava-se da desenvoltura com que passeava na cidade, fazendo compras. Entrava em lojas, discutia preços, negociava com os vendedores, desprezava opiniões, era auto-suficiente. Suas palavras eram ouvidas, às vezes, até com olhos cabisbaixos de vergonha.
Por quê?
Porque, quando parava em frente à loja, descia de um carro novo, adquirido recentemente.
Porque, quando entrava na loja, trazia embaixo do braço uma bolsa com dinheiro e talões de cheques.
Porque, quando abria a bolsa, a caneta escrevia num cheque, e a importância relatada mostrava aos outros o tamanho do seu poder.
Poder, circunscrito ao valor anotado na folha de cheque., mas poder, algum tamanho de poder.
Sabia que se estivesse sem barba por fazer, roto, mãos abanando, seria escorraçado, atirado à calçada, como um cão sem dono.
Perdendo tudo isso, perderia o respeito.
Sua mente funcionava. Era uma mente lógica.
Mas continuava raciocinando. Isso também, a mente lógica, não foi conseguido com dinheiro?
Não foi conseguido à custa de estudos, com livros, com cultura, a que ele teve acesso?
Livros custam dinheiro. Colégio custa dinheiro. Cultura custa dinheiro.
Seria ele, então, um produto única e exclusivamente do dinheiro?
Não, não podia admitir isso.
Era um homem, tinha que ser um homem.
E um homem não é dinheiro, é um corpo, uma mente, um espírito.
Por isso ele tinha que valer por si, ser respeitado por ser.
Mas, se esse homem, se esse corpo, se essa mente, esse espírito foi construído e conseguido à custa de dinheiro, então, ele não era um homem; era dinheiro!
Pensava mais e mais tentando achar uma luz, um caminho, uma resposta. Retroagia a evolução do homem, ou da humanidade, confundindo às vezes os conceitos.
Imaginemos a idade da pedra. O homem da pedra lascava, o macaco homem. Como ele evoluiu?
Não tinha dinheiro, mas...teria propriedades?
Não.
Espere...
Seu machado de pedra polida, seu estilete de sílex... um povo de macacos homens com machados feitos de fêmures e pedras, expulsando outras tribos de macacos homens que ainda não tinham as ferramentas. ..
Também eles tinham propriedades... seus machados, suas raspadeiras...distinguiam-se um dos outros pelas posses. Eram respeitados e aceitos pelo que tinham a mais que os outros. Pelas suas propriedades, pelo seu poder.
Exausto, ele cerrou os olhos, depois de beber num único gole o resto de cerveja. Recostou-se na poltrona. Dormiu.
Sonhou. Sonhou que era um homem gordo, com uma enorme barriga, vestido de terno cinza claro, gravata, óculos e um grande charuto no canto da boca. Estava sentado numa poltrona atrás de uma mesa, num escritório, um grande, um enorme escritório. Via de sua mesa centenas de funcionários, que trabalhavam para sua empresa, datilografando, escrevendo, mexendo com equipamentos. Mais ao longe, via outras centenas de homens mexendo com máquinas enormes, também suas, produzindo algum produto que sua mente não distinguia. Viu-se, no sonho, levantar-se e andar através do escritório, seguido de três ou quatro assessores diretos, acompanhando-o em humilde serviência, batendo uns nos outros na ânsia de estarem juntos ao chefe. E ele dava ordens. Com o charuto invariavelmente no canto da boca, as duas mãos na cintura suspensas pelo polegar que adentrava a calça, gritava, mandava, ordenava. Todos o ouviam cabisbaixos, reconhecendo seu poder. As cinzas do charuto iam caindo nas mesas dos seus funcionários. Ele nem notava. Remexia aqui, acolá, fazia perguntas duras. Cabeça erguida, parou bem no meio daquele salão, sem divisórias nenhuma, onde nem ele conseguia ver o fim. Centenas, milhares de pessoas, seus funcionários, seus empregados, produtores de sua riqueza, fazedores do seu dinheiro, mantenedores de seu poder. Todos ali. Cabeças baixas, executando os serviços para ele. Todos, indistintamente, de cabeça baixa, servindo de painel para a visão geral do dono. Ele sorriu.
Abriu a boca num largo sorriso. Fantasticamente o charuto não caía. Permanecia num canto da boca, soltando fumaça e deixando cair as cinzas em alguém. E ele sorria. De suas posses, de seu poder, de ser homem!
Acordou subitamente. Sua mulher perguntando se ia para o quarto dormir. Já era tarde.
Cabisbaixo, quieto, estranhamente lúcido apesar do abrupto despertar, foi para seu quarto.
Deitou-se na cama, de costas para a esposa, e sem mexer um músculo, passou a noite de olhos abertos.
DOMINGO DE MANHÃ (Clóvis L. Padoveze)
Acordou às sete e meia no Domingo. A mulher, com o rosto virado para o outro lado, não percebeu quando ele levantou da cama. Abriu a porta do banheiro, firmando a mão na maçaneta evitando barulho, e começou a lavar o rosto. A água estava fria, agradável, despertando-o saiu do quarto e foi para onde seu filho dormia. Ao acender a luz, notou que ele ainda estava adormecido. Mesmo assim, aproximando-se da cama do menino, tocou-o nas costas, para acordá-lo.
- Amílcar, acorde. Não vai no campo? – sussurrou alto.
O menino remexeu-se na cama, sem abrir os olhos. Clóvis tocou suas costas novamente.
- Acorde moleque, não vai no campo com o papai?
Espreguiçando-se agora, com os braços estirados acima da cabeça, a criança abriu parcialmente os olhos, e tornou a fechá-los. Resmungou qualquer coisa. O pai insistiu:
- Acorde Amílcar, venha tomar leite.
Agora sim, ele sentou-se na cama, afastando a coberta.
O leite já estava quente. Uma caneca para si, outra para o filho. Beberam em silêncio. "Ainda é cedo", pensou Clóvis, "Pedrinho só chega às oito e meia. Tenho uns quarenta minutos".
Automaticamente, pensou em como aproveitar o tempo disponível. Detestava ficar sem fazer nada. Tinha uma mania de aproveitar todo o tempo que dispunha.
Amílcar, deixando um resto de leite na xícara, foi para a sala ligar o televisor, sem se trocar. Clóvis foi para o quarto do filho, tomou suas roupas deixadas na cama, levou-lhe.
- Vá se trocando, Amílcar. Não se esqueça de pegar o tênis. Clóvis falava em tom baixo.
Ele retrucou.
- Mas, pai,, vou de sandálias!
- Como moleque? Vai chutar bola de sandálias! É claro que não. Ponha o tênis.
Foi para seu quarto, pegou as meias para futebol e outros apetrechos para o banho após o jogo. No quarto de despejo, pegou seu par de tênis. Largou tudo num local, arrumado, pronto para quando Pedrinho chegasse.
No seu quarto, sua esposa continuava dormindo. Seus outros dois filhos, duas meninas menores, também estavam adormecidas.
A televisão ligada na sala, por Amílcar, não fazia barulho que chegasse aos quartos, e não as acordava. Clóvis movia-se quieto, como um gato. Amílcar trocava-se sem desviar as olhos do aparelho de tevê.
Foi para a biblioteca e tomou o livro que estava lendo. Um romance policial. Por quinze minutos ficou acompanhando a história. Levantou-se após olhar o relógio, e começou a se preparar. Calçou as meias, quatro pares para encher os pés, aderindo-o justamente ao tênis.
Era uma ritual que lhe agradava. À medida que se aprontava, o seu coração imperceptivelmente batia mais forte. Gostava de jogar bola como poucos. Mesmo sendo uma brincadeira rotineira com os amigos, cada novo jogo, nova emoção. Vibrava a cada partida, desde o primeiro minuto que pensava nela. Com alguns minutos à sua frente, estava inquieto, sem motivo lógico, é claro, mas inquieto. Ele mesmo se perguntava: "Por que ficar nervoso, com uma brincadeira de futebol?" e continuava para si mesmo: "Quatorze anos jogando todos os domingos, com os mesmos amigos e ficando nervoso antes de ir jogar". Era a ansiedade. Gostava tanto de futebol que alguns minutos antes de se encontrar com os amigos no campo, provocava esse pequeno nervosismo de ansiedade. Depois de pronto, voltou à biblioteca e tomou novamente o livro. Lia apressadamente, sem prestar atenção nos detalhes da história policial.
Deixou a janela aberta para ver quando Pedrinho chegasse. Lembrou-se, porém, de esquentar o motor do carro. Largou o livro na poltrona, aberto, pegou a chave em cima da geladeira, na cozinha, e foi ligar o veículo na garagem em frente à casa. Ficou esperando, fora do carro, o motor esquentar. Olhou para cima, no portão da casa, para ver se Pedrinho vinha chegando. Notou o pequeno vulto aproximando-se na rua a uns duzentos metros. Deixou o carro funcionando, entrou para dentro de casa.
- Vamos, Amílcar, o Pedrinho já chegou! Desligue a televisão!
Amílcar veio correndo.
- Cadê ele, pai?
- Está vindo ali na rua. Pegue umas bolachas para você levar.
Saiu o filho correndo novamente. Voltou com um embrulho meio desajeitado. Algumas bolachas caíram no chão da biblioteca. Pedro chegou.
- Bom dia!
- Bom dia, Pedro. Vamos?
- Vamos.
- Sobe Amílcar, falou Clóvis abrindo a porta traseira do carro.
- O Bizetto vai? Perguntou Pedro.
- Acho que sim, não me disse nada. Vamos passar na casa dele.
- Tomar café?...perguntou Pedrinho, sorrindo com jeito meio zombeteiro.
- Se ele tiver...
O carro andou alguns quarteirões, chegando à casa de outro colega.
Desceram do veículo e subindo as escadaria da casa do amigo, bateram na porta. O próprio Bizetto veio atender.
- Vamos tomar café? Foi falando sem ao menos dizer bom dia.
- Se tiver, tomamos.
- Pode chegar na cozinha.
Clóvis e Pedro entraram. Amílcar também, ficando na sala. Olívia e Flávia, filhas de Bizetto, meio sonolentas, ficaram com o Amílcar. Em poucos segundos estavam totalmente acordadas, brincando com o menino.
- Bom dia, falou Clóvis, vendo Maria, a mulher de Bizetto, que vinha do quarto.
- Bom dia, respondeu ela. Voltando-se para o marido, perguntou:
- Cadê o telefone do Vitório, de Piracicaba?
- Deve estar na minha bolsa.
- Isso você falou outro dia e não deu o número do telefone. Parece que você não quer falar com ele.
- Aquele dia eu não achei, retrucou Bizetto com voz calma. Mas deve estar aqui, falou abrindo sua bolsa, em gestos pausados.
Remexeu um pouco. Não achou. Falou meio desconsolado para Maria:
- Não está aqui. De tarde nós veremos.
- Ah, Moisés, fez ela com desalento. Você, hem?
- Vamos embora? Veio Clóvis falando da cozinha após tomar o café. Está bom o café, forte, do jeito que eu gosto, não vai tomar, Pedro?
Ele disse que não. Desceram as escadas calmamente, entraram no carro e seguiram rumo ao campo.
A estrada era sinuoso, sem acostamento. Passaram pela usina, pela fundição à beira da pista, acompanharam o canavial, desceram o lote de pequenas chácaras, e chegaram ao campo. Alguns carros lá estavam, mostrando que não eram os primeiros a chegar. Desceram calmamente. Clóvis fechou o carro. Já era outro. Deixara de ser pensativo, como no início da manhã. Agora, o contato com os amigos, deixara-o alegre, extrovertido. Sua voz era alta, estridente, enjoativa até. Salientava sempre.
Os outros colegas que já tinham chegado antes foram se aproximando. Chegaram ao vestuário e Clóvis começou a encher as bolas. Bizetto começou a se trocar 9tinha vindo despreparado para o jogo, ao contrário de Clóvis). Pedro voltou ao rancho do poço, iniciou também a mudança de vestuário. Edil foi chegando acompanhado de seus filhos, que pararam para conversar com Amílcar. Segurava na mão uma garrafa de água limpa para suas crianças. Moacir vinha logo atrás.
- Oi, oi, era a expressão que mais se ouvia.
Clóvis, enchendo a bola, sentado, olhou para Edil de pé, e gracejou, falando para todos:
- Olha a sujeira que fizeram Domingo passado e não limparam. Quebraram a garrafa de pinga e largaram os cacos de vidro aí mesmo!
Edil sentiu que era para ele.
- Não fui eu que quebrou, foi meu filho.
- Mais uma razão para que você limpasse. Se fosse meu filho – continuou Clóvis – eu já tinha limpado no Domingo passado mesmo, quando quebrou.
- Pára de encher o saco, Clóvis – ralhou ríspido Edil, mas sorrindo. Começou cedo hoje, hem?
Parece que ele tinha razão. Clóvis largou dele e dirigiu-se a Mário, que estava se aproximando do vestiário, com o Menegali e o Naldo.
- Como é, já fez o time para hoje?
- Calma rapaz, nem cheguei ainda!
- Moacir nem começou a se trocar. Você não escalou os times ainda. Desse jeito vamos começar às dez horas.
- Edil, você tem razão – disse Moacir. O homem começou cedo.
Lá fora, chegava Zé Augusto conversando com Dito. Todos ouviam o diálogo.
Então rapaz, sabe que ontem vieram os homens de Porto alegre e eu tive que atendê-los. Fomos fazer um churrasco na chácara do Toninho Bueno. Precisava ver (Zé Augusto frisou o precisava) a carne que eles prepararam. Uma beleza.
Dito só ouvia. Zé Renato foi entrando, segurando com as pontas dos dedos sua bolsa de material esportivo. Pina vinha logo atrás.
- Bom dia, bom dia, foi falando.
- Bom dia, responderam os outros.
Clóvis olhou para a porta. Viu Tatu, João seu irmão. Nino e Wal, brincando no gol de entrada. Tatu estava defendendo, enquanto os outros chutavam, um de cada vez.
Flávio entrou no vestiário, acompanhado de Defanti, balançando as chaves do carro. Clóvis falou direto, sem cumprimentar:
- Liga o motor, Flávio. Está sem água.
- Calma, Clóvis, já vou, já ia fazer isso mesmo.
Clóvis dirigiu-se para Zé Renato.
- Posso pegar gasolina do seu carro, Zé? Depois você desconta da mensalidade. Este assentiu.
Clóvis dirigiu-se a Moacir.
- Ô Moacir, pega o garrafão e tira cinco litros de gasolina do carro do Zé.
- Viu Flávio, como está o Clóvis hoje? Não está dando chance para ninguém.
- É, o rapaz está apressado.
- Como! Moacir – gritou Clóvis – não se trocou ainda? Deixa então que eu vou pegar a gasolina, e você trate de se trocar. Mário já escolheu o time.
- Para perder outra vez?
- Jogue do meu lado que você ganha! Brincou Clóvis.
Os outros olharam com um sorriso zombeteiro, dizendo em pensamento "que era convencido".
No vestiário, ali logo em frente, dentro do campo, os rapazes iam e vinham, conversando banalidades, brincando, conversando coisas sérias. Valdemar interrompeu a conversa que Tico e Nelsinho tinham, no canto do campo, perguntando a Tico sobre a partida de xadrez do dia anterior. Alguns brincavam com as crianças que vieram com os pais. Dois meninos atravessaram a cerca que circundava o gramado, e foram brincar num areal mais abaixo.
O jogo começou logo mais. Nos primeiros minutos, o silêncio de todos, fazia com até se ouvisse o barulho da bola rolando na grama, o som das passadas das corridas dos jogadores, o baque dos pés na bola.
Depois de uns dez minutos, alguém chamou a atenção de um companheiro, discutiram sobre a falta, gritaram por um lance equivocado. Naidelice e Moacir Gordo chegaram atrasados. Escalaram um de cada lado, mesmo a contragosto geral.
Findando os primeiros cinqüenta minutos a maior parte dirigiu-se ao vestiário, tomar a água retirada do poço. Com gosto de salobra. Apenas molharam aboca por causa de seu sabor desagradável. Recostavam-se nas muradas que circundavam o vestiário, num puxado de telhas, conversando sobre o jogo do time de profissionais que se realizaria mais tarde na cidade. Edil chamou Clóvis de lado e puxou assunto sério, de serviço, da situação ruim da economia brasileira e coisas similares.
Outros foram para a chácara vizinha pegar algumas laranjas, que restaram fora do tempo. Alguns combinavam passeios. Um estava estirado no chão, cansado dos primeiros minutos do jogo.
Os fumantes aproveitaram o intervalo para um cigarro. Era a "vitamina" deles, como chamava Clóvis.
Alguns minutos mais, este gritou:
- Vamos começar minha gente, antes que esfrie. Batia palmas para salientar.
Devagarinho em grupo de dois ou três, sozinhos, retornavam para o campo.
- Pegou o relógio, Edson? Gritou Clóvis.
- Está aqui. E ergueu o braço, pendendo o relógio na mão.
- Vamos pessoal, antes que esfrie, gritou novamente.
Alguns paravam na metade do campo, não querendo interromper a conversa iniciada. Com os gritos insistentes de Clóvis, foram-se dissolvendo os grupinhos. A partida reiniciou.
Houve uma confusão ao final do jogo. Flávio reclamou uma falta, Clóvis achou que não. Edil berrou para Clóvis. Toninho se encrespou.
Era sempre assim, dificilmente um Domingo passava sem discussões.
Acabou a partida.
A maior parte foi direto para seus carros, sem despedir-se de ninguém.
Um grupo pequeno, uns, sete, voltaram para o vestiário. Eram os que tomavam banho ali mesmo, após o jogo. Edil, Bizetto, Pedro, Clóvis, Padu, Zé Renato, Paulinho. Conversavam sobre o jogo, sobre os lances. Invariavelmente saía:
- Que água gostosa!
Ou no tempo do frio.
- Que água fria! E esfregavam rapidamente o sabonete no corpo, para esquentar.
Após o banho, um gole de pinga. Cada um tomava um pouco, a exclamação era natural:
- Ah! Quando descia a aguardente na garganta.
Trocados, foram saindo aos poucos. Clóvis e Bizetto sempre eram os últimos.
- Fechou o registro? Perguntou Clóvis. Bizetto disse que sim.
Clóvis virou a chave e fechou a porta do vestiário. Nas mãos sua mala de roupas e sua bolsa. Saíram devagar, sorvendo o prazer de uma partida suada, de um banho reconfortador. Pedro, Clóvis, Bizetto, caminhavam em silêncio, lado a lado, atravessando o campo em direção ao carro, como que sorvendo na quietude os restos de prazer da partida encerrada. Amílcar, o filho de Clóvis, corria na frente dos três.