Eu vi a morte

Eu vi a morte

Encontrei uma amiga de tempos atrás. Ela estava horrível: magérrima, faltando dentes, cabelos bem escassos, a pele extremamente enrugada. Foi ela que se identificou porque não pude reconhece-la. Na minha memória ela ainda era uma adolescente preocupada com uns quilinhos a mais, suas espinhas, seus namorados, suas baladas.Levei minutos para traduzir os detalhes de sua figura atual com as imagens que tinha na memória.

Não ousei perguntar o que ela tinha. Esperei que ela desse alguma brecha para entrar no assunto, mas ela não o fez. Fiquei sem saber o que a atingia.

Conversamos assuntos amenos, algumas recordações e sobre a vida em si. Ainda existia o brilho agudo de seus olhos e eu podia sentir que sua força ainda estava no auge dentro daquele corpo em processo de anulação. Nos despedimos e talvez nunca nos vejamos novamente.

Em mais uma noite de insônia, seu rosto ficou dançando na minha frente e ainda não conseguia aceitar que sua vida estava gotejando para outro espaço mais rapidamente que outras. É tão difícil aceitar que não podemos mais estar aqui, junto com nossos amigos e nossa família. Somos tão transitórios e ainda temos a prepotência de acharmos que permaneceremos enquanto outros se vão.

Porisso, eu digo: não podemos esperar pelo amanhã porque ele nunca chega. Só existe esse tempo em que estamos. O que se foi não volta e o que deve chegar não existe. Só existe o agora e o já. Não existe outro tempo além desse que estamos e ele deve ser aproveitado ao máximo. O que se tem que fazer deve ser feito porque talvez não exista outro momento. Se existe algum futuro ele deve começar exatamente nesse instante.

 

 

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